Por Paulo Hebmüller, de São Paulo

Nos últimos dez anos, a multinacional alemã Siemens investiu cerca de US$ 10 bilhões em digitalização. O objetivo: manter-se à frente da inovação em todas as esferas do negócio, diz Daniel Scuzzarello, que assumiu no início deste ano a função de diretor de portfólio da empresa para a América do Sul. A julgar pelos resultados da empresa no Brasil, as coisas parecem estar no caminho certo. A Siemens teve faturamento de € 1,3 bilhão (cerca de R$ 5,2 bilhões) em 2017. São 12 fábricas próprias, 13 escritórios regionais e 6 mil funcionários no país.

A nova realidade da indústria 4.0, aponta o executivo, exige que todas as etapas estejam interconectadas para evitar erros e retrabalho. No caso do Brasil, cujo parque industrial, em média, é antigo, não se trata de jogar tudo fora e reiniciar as plantas do zero: o primeiro passo é trabalhar cenários por meio do gêmeo digital, diz. Nesta entrevista, o italiano Scuzzarello – que tem mestrado em Engenharia Mecânica na Suécia e está há sete anos no Brasil – fala sobre esse e outros processos do mundo da indústria 4.0, como a manufatura aditiva e a internet das coisas.

“Precisamos estar na frente da inovação em todas as esferas do negócio. Há muitos exemplos de empresas que eram líderes de mercado, mas falharam na inovação e ficaram para trás”

AméricaEconomia – Como a Siemens vem trabalhando na nova fase da indústria 4.0?

Daniel Scuzzarello – A Siemens foi uma das empresas que fomentaram, ao lado de outras, a Quarta Revolução Industrial, assim que identificou que a transição para o mundo digital é fundamental para a indústria manter a margem competitiva. Isso ocorreu logo depois da crise mundial de 2008. Investimos pesado na digitalização nos últimos  anos para manter a competividade da operação fabril.

Indústria 4.0 nada mais é do que a integração entre as áreas. Mas é preciso tomar cuidado porque as coisas podem dar muito errado se esse caminho não for feito com lógica. Precisamos trazer cada vez mais ao digital o que é feito no mundo real para minimizar erros e retrabalhos, mas também para conseguir atender a um mercado extremamente volátil em todos os sentidos. Isso se dá não apenas no mercado de varejo, no qual se pode fazer um sapato customizado para cada cliente. A concorrência está pedindo um time to market muito mais curto para todo tipo de produto: são novas tecnologias fabris que precisam ser integradas no chão de fábrica, seja na Europa ou nos Estados Unidos, seja aqui também, porque estamos trabalhando em contexto global.

Daniel Scuzzarello, diretor de portfólio da Siemens PLM para a América do Sul. Foto: Divulgação

AE – Que tipo de inovação se busca hoje?

DS – A inovação principal é focada no atendimento ao cliente. Se olharmos o cliente final, seja no mercado B2C ou B2B, as demandas mudaram muito. Antigamente o fornecedor dizia: “esta é a minha solução, você compra e a encaixa no processo”. Hoje é o cliente que demanda: “este é o meu processo; molde a sua solução para mim”. O principal fomento à inovação em todos os mercados é a busca para atender a essas demandas.

AE – Quais são os investimentos estratégicos que a empresa faz para atingir esses resultados?

DS – Nos últimos dez anos a Siemens investiu US$ 10 bilhões em digitalização, adquirido e integrando empresas para complementar as soluções do começo até o fim – desde a parte de ideação e, conceituação do projeto até entrega, manufatura etc. Os investimentos foram feitos justamente para trazer esses conhecimentos para dentro de casa e desenvolver a inteligência internamente e para nossos clientes. Na indústria 4.0 todos os passos de uma empresa estão integrados e correlacionados um com o outro. Fazemos investimentos e parcerias estratégicas com institutos de pesquisa e startups, por exemplo. A Siemens presta muita atenção nisso porque precisamos ter essa sensibilidade em relação às coisas novas.

Falamos constantemente que o mundo está mudando, e essa mudança não é só imaginária – o mundo está mudando mesmo, assim como a cabeça das pessoas e os hábitos do consumidor. E a indústria vai ter que atender a esses consumidores em todos os sentidos.

AE – A Siemens fez algumas aquisições importantes recentemente. Qual o objetivo delas?

DS – As últimas grandes aquisições foram a CD-Adapco, em 2016, a Mentor Graphiccs, em 2017, e a Sarokal, no início deste ano. Essas empresas oferecem soluções em áreas como engenharia assistida por computador (CAE, na sigla em inglês) e conexão da eletrônica com a digitalização, no caso da Mentor Graphics. Então, ao lado de áreas em que já atuávamos, temos agora o domínio total dos processos.

AE – Um executivo da Bayer mencionou numa entrevista à AméricaEconomia que sua preocupação é que daqui a dez anos a empresa se mantenha competitiva num mercado com tanta inovação e tantos novos concorrentes. A Siemens pensa da mesma forma?

DS – Certamente. Precisamos estar na frente da inovação em todas as esferas do negócio. A Siemens é uma empresa de mais de 150 anos e quase 400 mil pessoas no mundo. Alguém pode pensar que é uma empresa conservadora que fica fazendo turbinas a gás. Fazemos turbinas também, mas precisamos estar à frente de cada braço de tecnologia em que trabalhamos, senão daqui a cinco ou dez anos não estaremos mais no cenário.

Há muitos exemplos clássicos de empresas que eram líderes de mercado, como a Kodak, mas falharam na inovação e ficaram para trás. Uma vez que você fica para trás, recuperar-se é muito difícil.

AE – Como se dá a parceria com as universidades?

DS – Temos um relacionamento muito forte com elas. Especialmente no Brasil e na América Latina, a execução da indústria 4.0 tem que estar alinhada com as universidades. O problema das escolas de Engenharia é que, se não mudarem, vão preparar profissionais para coisas que não vão existir daqui a cinco anos. Não dá mais para fazer um curso como se fazia há dez anos, até porque o público mudou e a questão do foco e da atenção dos alunos também é diferente.

As universidades têm que estar muito alinhadas com essa revolução industrial. Algumas estão mais à frente em termos de investimento e mudanças de currículo e no ensino.

AE – Como são desenvolvidos projetos como o do carro autônomo, por exemplo?

DS – Enxergamos essas inovações perguntando como vamos atender a esse mercado, tanto para os clientes tradicionais como para os futuros. Com a aquisição da Mentor Graphics, por exemplo, poderemos fornecer o melhor da tecnologia para os fabricantes de carros elétricos ou autônomos, seja para GM, Tesla ou Google. Temos que nos posicionar como o melhor fornecedor possível, já olhando dez passos para a frente.

AE – Você pode dar exemplos de investimentos em áreas como saúde, biotecnologia ou agricultura, que também estão no radar da empresa?

DS – Um de nossos clientes é a Zipline, que nasceu no Vale do Silício como startup com a visão de utilizar drones para levar medicamentos e sangue a áreas remotas da África. Nós customizamos uma solução para que eles encontrassem a dimensão do negócio, e eles conseguiram ter sucesso no desenvolvimento e nas práticas de operação.

O que é empolgante com um cliente assim é que o trabalho deles faz muita diferença. Nessas regiões mais remotas, com todos os problemas de distância, acesso etc., se alguém fica doente ou uma mãe tem grande perda de sangue num parto, mandar um drone que pode soltar bolsas de sangue num pequeno paraquedas é algo que salva vidas.

AE – O que a digitalização vai trazer para o usuário doméstico num horizonte de cinco a dez anos?

DS – A integração completa, imagino, entre trabalho e casa. Vai ser cada vez mais comum o home office. Também haverá uma relação mais imediata entre o desejo do consumidor e o produto. Até recentemente a indústria trabalhou na massificação da produção – um tênis, por exemplo, era massificado para o mundo inteiro. Hoje, com a digitalização e a indústria 4.0, a ideia é que o usuário possa interferir na cadeia de produção para que o tênis seja feito sob medida, sem atrapalhar a escala de produção da empresa.

AE – A impressão em 3D, ou manufatura aditiva, é uma das vertentes fortes na indústria 4.0?

DS – Certamente. A manufatura aditiva permite quebrar paradigmas para fazer projetos muito mais funcionais: não preciso moldar meu produto para o processo fabril, mas moldo o processo fabril para o produto. Toda a parte de projeto tem que ser feita hoje de forma diferente do que se fazia ontem, porque o próximo gravador, a próxima xícara de café ou o próximo carro provavelmente serão impressos. Já há um carro da Bugatti com motor impresso. Desenvolvemos na Siemens uma turbina a gás com potência e eficiência recordes porque conseguimos imprimir as lâminas da turbina e otimizar o processo sem ter que seguir os paradigmas de peças forjadas ou usinadas.

AE – Isso implica redesenhar toda a planta e toda a estrutura de fabricação?

DS – Não é preciso redesenhar. Você consegue aproveitar muito do que já existe agora. Isso é uma coisa importante especialmente na indústria brasileira, em que o parque fabril em média é muito antigo. Quando falamos com um cliente sobre indústria 4.0, a percepção, ou o medo, é de que vai ser necessário jogar fora o que a empresa tem e comprar tudo novo. Não é bem assim.

Quando vemos uma planta que tem máquinas de robótica ou automação de quinze ou vinte anos e queremos trazê-la para a indústria 4.0, o primeiro passo não é comprar uma impressora 3D: o primeiro passo é digitalizar o seu processo para que você comece a trabalhar cenários. Fazer isso digitalmente vai custar meia hora de trabalho de um técnico; na planta, você vai gastar US$ 1 milhão para colocar o robô lá.

Essa simulação de cenários é o que a gente chama de gêmeo digital. Por exemplo: minha planta está fazendo um produto à moda antiga e quero introduzir um polímero, um material novo ou a manufatura aditiva. Fazemos isso de forma digital para que o cliente entenda se é realmente o caminho ou não. É fácil fazer a transformação de uma planta no digital; no mundo real é caro. Muitas vezes você consegue enxergar um ganho competitivo muito grande só fazendo simulações com seus ativos atuais. Esse é o valor da digitalização.

Empresa prevê continuidade dos investimentos em vários países da América Latina. Foto: Divulgação

AE – Você pode falar mais sobre esse processo do gêmeo digital?

DS – O gêmeo digital nada mais é do que uma representação digital do real. Trazemos a inteligência e a funcionalidade do seu produto em ambiente virtual, conectado à parte fabril e retroalimentando os inputs da sua fábrica na engenharia com a internet das coisas, que a Siemens também tem com a plataforma MindSphere. Temos o ciclo inteiro de desenvolvimento de produto, inteligência em manufatura e manufatura própria que retroalimenta a engenharia. Essa é a definição da indústria 4.0. Cada uma dessas etapas é um gêmeo digital que precisa ser conectado fortemente com o próximo. Se você tem uma barreira entre o produto e a manufatura, tem sim valor agregado – mas ele é menor do que se você tirar aquela barreira e começar a conversar com seu gêmeo digital de produção.

O gêmeo digital permite que você desenvolva o produto, teste e simule tudo virtualmente. Isso reduz o tempo de chegada no mercado, a margem de erro e o custo para produzir um protótipo que pode dar errado. Um custo ainda maior é você lançar o produto e descobrir que ele deu errado. Nesse caso há um prejuízo grande para a sua marca. Temos vários exemplos de empresas que, pela pressa, lançaram mal o produto e tiveram que parar as vendas, fazer recall etc. O cliente vai ficar em dúvida e, na próxima vez, vai comprar do concorrente. 

AE – Como funciona o MindSphere, a plataforma para a internet das coisas?

DS – É uma plataforma mais focada em B2B. Ela vem com uma arquitetura totalmente integrada com a nuvem, em conjunto com alguns aplicativos que empresas da Siemens estão desenvolvendo para trabalhar a quantidade de dados coletados. Não adianta você conectar tudo o que tem, jogar terabytes e terabytes de dados todos os dias na nuvem e fazer pouco ou nada com aquilo. É preciso ter um plano para trabalhar os dados relevantes que você coleta e utilizá-los para melhorar o seu processo, melhorar a sua engenharia e retroalimentar esse gêmeo digital. Essa contínua conexão realmente agrega valor.

Encontramos vários clientes que nos diziam que já estavam na fase da indústria 4.0. De fato, todos os dispositivos estavam conectados. Mas a questão é: o que você está fazendo com esses dados? Qual a finalidade de conectar tudo? É preciso pensar nisso, no que queremos manter ou jogar fora, até porque o problema do lixo digital já existe e será cada vez maior.

AE – A automação e a digitalização não trazem também um risco de grande desemprego?

DS – Cada revolução é dolorosa, mas também abre oportunidades. No Brasil, acredito que serão abertas muitas oportunidades para haver uma classe média maior. Na Europa, que é praticamente um continente de serviços, já se fala que profissões como advogado ou médico estão em crise por causa da plataforma Watson da IBM.

Qual a reposta? Talvez, em vez de trabalharmos oito horas, vamos trabalhar seis, com emprego e melhor qualidade de vida para todos. Se esse é o caminho, eu topo – mas não podemos pensar que vamos passar por uma revolução e tudo vai ficar do jeito que estava.

AE – O que está no horizonte da empresa em termos de investimento na América do Sul em 2018?

DS – Vamos continuar investindo na região, que é muito promissora. No Brasil, agronegócio, indústria automotiva, indústria de peças e de máquinas e agora também toda a linha de produção de varejo são áreas muito fortes. Um ramo ao qual estamos dando atenção particular é a parte de processos, energia e gás.

Sabemos que o Brasil, quando retoma a atividade econômica, retoma de verdade. A Siemens está atenta a essa retomada da economia, seja nas indústrias, seja para automação ou software, mas também em áreas relativamente novas, e aí entramos com um portfólio mais tecnológico para as operadoras e fornecedoras de energia.

Além do Brasil, seguiremos investindo na Argentina e na Colômbia. O Chile também é um mercado promissor, o Peru tem despontado e o Equador vem um pouquinho atrás. No México há uma questão particular devido ao relacionamento com os Estados Unidos e à renegociação do Nafta. Esse cenário ainda é uma incógnita para todas as empresas.

AE – A visão para o Brasil e a América do Sul, portanto, é otimista?

DS – Sempre foi otimista. Mesmo durante a crise a Siemens conseguiu navegar bem justamente por conta dessa visão de inovação. É claro que, na crise, os investimentos diminuíram, mas você pode aproveitar esse momento para fazer mais com menos e fazer diferente. É preciso estar estruturado para o momento da retomada e para o momento da próxima crise, porque sabemos que o Brasil é cíclico.

No caso da indústria brasileira, não podemos mais focar só no país. É preciso começar a exportar e, para isso, o país precisa ser mais competitivo, porque vamos enfrentar concorrência da China, da Alemanha, da África do Sul etc. Para colocar o produto brasileiro no mercado global, temos que aumentar a qualidade e diminuir o custo, e isso só se faz com a digitalização. Não adianta colocar mais pessoas no processo ou mandar todo mundo embora. Trabalhamos aqui para ver o Brasil crescer, e queremos ver a competitividade da indústria nacional aumentar.