Manuel Cosmópolis decidiu alugar, em dezembro de 2013, um apartamento em San Isidro (Lima). O principal motivo que o levou a tomar essa decisão foi o baixo preço do dólar naquele momento, já que essa moeda é usada com frequência no momento de fixar o valor dos contratos de aluguel na capital peruana.

Como muitos outros, Manuel foi afetado, desde 2014, por uma forte depreciação da moeda peruana (o novo sol), causada, sobretudo, pelo tapering e o menor volume de exportações de matérias-primas do país.

Até meados do ano passado, ocorreu praticamente o mesmo em quase toda a América Latina (no Brasil, a desvalorização foi ainda mais forte). No entanto, nos últimos meses as moedas latinas têm se fortalecido gradualmente.

Essa recente alta foi impulsionada pela recuperação das exportações das commodities. No caso do Peru, por exemplo, a alta no preço dos metais teve grande relevância para valorizar o novo sol.

No México, o peso sofreu uma forte queda por conta da vitória de Donald Trump no final do ano passado, mas tem se recuperado nos primeiros meses de 2017

“Boa parte das previsões em relação a aumentos da taxa de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) já estavam incorporadas no mercado. Esse fato, assim como a gradual melhora nos preços dos metais, alterou [em 2016] a relação novo sol-dólar, o que favoreceu a moeda peruana após três anos de desvalorização. Isso está ocorrendo novamente este ano, pois, embora o Fed tenha voltado a aumentar sua taxa de juros, o dólar se desvalorizou 3,1% em 2017, enquanto o novo sol se valorizou 3,3%”, diz Mario Guerrero, chefe do departamento de Estudos Econômicos do Scotiabank.

O Brasil foi fortemente prejudicado – mais do que os seus vizinhos – nos últimos anos. À desaceleração econômica e ao esfriamento das exportações se somou uma interminável crise política e a Lava Jato.

Mas a tendência dos últimos meses no caso do real tem sido a valorização, sendo necessário, para isso, a posse de um novo governo. “Embora o Brasil ainda esteja passando por uma crise política, o impeachment de Dilma Rousseff e a agenda de reformas propostas pelo governo de Michel Temer, como as relacionadas ao sistema de previdência e às leis trabalhistas, geram otimismo no mercado brasileiro e permitem uma apreciação do real”, afirma Leandro Fraga, professor da FIA Business School.

No México, o outro grande país da região, o peso teve uma forte queda por conta da vitória de Donald Trump no final do ano passado, mas a moeda tem se recuperado nos primeiros meses de 2017. Isso, de acordo com alguns especialistas, deve-se ao fato de estar cada vez mais claro que as medidas propostas por Trump que afetariam o México são de difícil implementação.

Dominada pelo mundo

A América Latina está, em grande medida, refém dos eventos globais. Nesse sentido, os analistas afirmam que algumas moedas poderiam sofrer uma leve queda nos próximos meses. O principal motor dessa queda seria a alta da taxa de juros pelo Fed.

“À medida que a política monetária nas economias avançadas vai sendo normalizadas, essas taxas irão subir, e já não será tão atraente para os investidores internacionais levarem seu capital para países emergentes”, afirma Francisco Azuero, professor associado da Universidade dos Andes.

No entanto, de acordo com o analista, os últimos dados da economia norte-americana fazem considerar que a normalização poderia demorar um tempo maior do que o previsto no início do ano”. Inclusive, neste cenário, o prognóstico geral é misto, segundo o Scotiabank.

Supondo que o Fed eleve sua taxa de juros em outras duas ocasiões (junho e dezembro) – diz Mario Guerrero –, estima-se que ocorram leves depreciações no peso mexicano (2,6% em 2017), no peso colombiano (3,3%) e no real brasileiro (4,3%), que fecharia o ano em cerca de R$ 3,40 por dólar.

O Scotiabank, por outro lado, também projeta valorizações no caso do peso chileno (1,8%) e do novo sol peruano (3,3%), cálculo que se baseia nos bons preços dos metais primários. “No caso do sol peruano, a previsão é de S/ 3,25 para o fim do ano”, afirma Mario Guerrero.

O peso argentino seguiria o mesmo caminho das moedas de Colômbia e México. “Esperamos que o câmbio feche o ano em torno de 18 pesos, com uma dinâmica relativamente estável ao longo de todo o ano, mas com alguma aceleração a partir do segundo semestre, quando for finalizada a maior parte da colheita da soja e quando começarem as eleições legislativas”, diz Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb. Para o especialista argentino, em um cenário otimista no qual as condições financeiras globais se mantenham estáveis, é prevista uma valorização gradual das moedas regionais.

No entanto, afirma, o cenário global está exposto a riscos consideráveis. “Desde o fator Trump até uma mudança abrupta na aversão ao risco entre investidores, o cenário global pode mudar de um dia para o outro. Caso as condições financeiras globais se deteriorem, todas as moedas emergentes, incluindo as regionais, sofrerão o impacto”, diz Sica. Em relação ao real, vários analistas cogitam uma possível desvalorização.

Para Mauro Miranda, presidente do CFA Society Brazil, a moeda fecharia em R$ 3,30, valor superior aos R$ 3,15 em que se situa atualmente. “O retorno da confiança dos investidores e a melhora na situação econômica brasileira serão os principais fatores para a valorização da moeda em 2017. Além disso, como o Brasil está passando por um ciclo de corte na taxa básica de juros, os rendimentos dos ativos brasileiros estão se tornando menos atrativos para os investidores estrangeiros, o que exerceria uma pressão de alta sobre esse tipo de câmbio. Qual tendência irá ganhar mais força? É algo que veremos no curto prazo”, afirma.

Segundo Rafael Cortez, analista da Tendências, consultoria brasileira especializada em macroeconomia e política, a moeda brasileira fecharia em R$ 3,35 ao final de 2017, caso o comportamento dos metais não seja tão positivo e se, nos Estados Unidos, Trump adotar medidas que afetem a economia brasileira. Já o peso colombiano teria uma queda, embora minúscula. De acordo com Juan Camilo Rojas, gerente de estratégia de gestão de ativos da Credicorp Capital, essa moeda fecharia o ano entre 2.900 e 2.950 pesos.

“Temos uma conjuntura econômica que não é tão favorável (pela desaceleração econômica), temos novas taxas a partir deste ano, o petróleo segue em níveis baixos – o que impediria a chegada de capitais para a exploração – e a taxa do banco central está caindo. Isso não impede que haja uma valorização. Então, a tendência é que o peso se desvalorize em relação aos níveis atuais, mas esta queda seria marginal”, afirma Rojas.

No Chile, onde ocorrem eleições este ano, a tendência é de mais valorização – como aponta o Scotiabank – ou, em todo caso, de estabilidade, segundo os analistas. “A evolução do preço do cobre e, em menor medida, dos fluxos associados a uma perspectiva de câmbio favorável aos mercados nas eleições de fim de ano, ajudam neste sentido”, diz Alejandro Fernández, gerente de estudos da consultoria chilena Gemines.

Para Joseph Ramos, professor da Universidade do Chile, uma vitória do ex-presidente Sebastián Piñera geraria melhores expectativas entre os investidores, enquanto seu principal oponente, Alejandro Guillier, dependerá do que prometer para esta área caso vença as eleições.

Já a moeda mexicana poderia seguir estável caso o presidente dos EUA não realize nenhuma loucura. “Levando em conta o cenário em que Trump mantém sua atitude atual – sem tensões relevantes na relação bilateral –, vemos um peso mexicano fechando o ano em um nível próximo de 19,5 pesos por dólar, um pouco acima do valor atual, embora muito valorizado em comparação com os níveis do fim de 2016”, diz Dante Sica.

Ainda que as moedas latino-americanas tenham passado por melhores momentos nos últimos anos, hoje a estabilidade parece ser o melhor resultado possível para algumas delas. E, de novo, as matérias-primas são relevantes no xadrez monetário.