Por Beatriz Santos, de São Paulo

A Elevadores Otis é uma multinacional com base em Connecticut, nos Estados Unidos, e está presente em mais de 200 países, com mais de 78 mil funcionários espalhados por todo o mundo. No ano passado, o faturamento global da companhia foi de US$ 12,3 bilhões.
Nesta entrevista exclusiva à AméricaEconomia, Julio Bellinassi, presidente da empresa para a América do Sul, fala sobre a evolução da companhia no Brasil desde a instalação do primeiro elevador no país, em 1906 – que segue em funcionamento até os dias de hoje –, o cenário da construção civil no país e no continente, a aquisição da divisão de elevadores da Mitsubishi, as mudanças que as novas tecnologias vão trazer na interação dos usuários com as máquinas e as grandes obras em que a companhia está presente mundo afora, como o Burj Khalifa, em Dubai – o maior arranha-céu já construído, com 160 andares.

AméricaEconomia – O primeiro elevador instalado no Brasil, em 1906, era da Otis. Como você vê o crescimento da companhia no Brasil desde então?
Julio Bellinassi – A Otis instalou o primeiro elevador no Brasil, no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador do estado do Rio de Janeiro. O interessante é que esse elevador continua em funcionamento até hoje e segue no nosso portfólio de manutenção depois de mais de 110 anos. Ele está em perfeito estado de funcionamento, o que para nós é um marco e um orgulho por representar a entrada no mercado de elevadores no Brasil.
Na década de 1930, instalamos a primeira fábrica de elevadores no Brasil, no Rio de Janeiro, e na década de 1960 mudamos a fábrica para o ABC Paulista. Há quatro anos construímos uma nova fábrica em São Bernardo do Campo, que é uma unidade considerada estado da arte na manufatura e em processos de fabricação de elevadores. Ela atende toda a região da América Latina e o mercado doméstico brasileiro, e é uma referência mundial da Otis. Essa planta teve um investimento de US$ 30 milhões. Também construímos um centro de engenharia para o desenvolvimento de novos produtos.

AE – Como o mercado brasileiro se posiciona dentro da companhia?
JB – O Brasil é uma das dez principais operações no mundo inteiro. Temos mais de 2 mil funcionários na operação da Otis no Brasil. A fábrica em São Bernardo do Campo tem uma relevância muito importante, e a matriz da empresa para a América Latina está em São Paulo. É uma operação importante e ainda pretendemos investir bastante, porque acreditamos muito no crescimento de longo prazo no mercado de elevadores na América Latina, e temos feito investimentos importantes na região.

AE – Quais são esses investimentos?
JB – Há quatro anos fizemos dois investimentos importantes. O primeiro foi a construção da fábrica em São Bernardo, em conjunto com o novo centro de engenharia, que conta com uma torre de teste de mais de 40 metros de altura. Outro investimento foi a aquisição de uma empresa importante na Colômbia, o que fez com que iniciássemos uma operação própria da Otis naquele país. 
No ano passado fizemos duas aquisições importantes. A primeira foi de uma empresa no Chile, no começo de 2017, e fechamos o ano com a compra da operação da divisão de elevadores da Mitsubishi no Brasil. Esse foi o grande fato relevante do mercado de elevadores na América Latina no ano passado.

“A construção civil teve grande crescimento entre 2007 e 2013. Depois a economia sofreu muito. Agora começamos a ver uma pequena reação”

AE – Como tem sido a integração dessa divisão na empresa?
JB – Estamos no meio da integração, finalizando os processos da aquisição com uma série de sinergias importantes. O mais importante dessa aquisição é que ela aumentou a nossa capacidade de prestação de serviço de elevadores de outras marcas, e não só de elevadores da Otis, além de nos proporcionar muita sinergia principalmente na área de manutenção. Conseguimos melhorar a nossa cobertura geográfica na prestação de serviços no Brasil nos locais em que a Mitsubishi tinha presença importante.

AE – Em 2017 a empresa faturou mais de US$ 12,3 bilhões globalmente. Qual a expectativa para 2018?
JB – Não podemos abrir ainda a expectativa para 2018, mas o que percebemos é um mercado em crescimento mundialmente. Portanto, a expectativa é de crescimento no Brasil também. Depois de alguns anos de crise, já conseguimos ver uma reação – uma recuperação ainda modesta e discreta, mas ainda sim uma recuperação do mercado de elevadores neste ano.

AE – Como o setor de construção civil no Brasil tem se apresentado nos últimos anos?
JB – O mercado da construção civil teve um crescimento muito grande no país entre 2007 e 2013, com o avanço do mercado imobiliário e também com o crescimento econômico do Brasil naquele período. Existiu um boom no mercado imobiliário naquela época, também alavancado por todos os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e uma série de obras de infraestrutura.
No período entre 2014 a 2017 a economia brasileira sofreu muito, o PIB caiu e consequentemente as vendas de imóveis caíram muito. O número de lançamentos também teve queda e isso afetou os números do setor, com reduções significativas.
Agora começamos a ver no mercado imobiliário uma pequena reação. O nível de estoque de apartamentos prontos já começa a cair, as vendas estão melhorando e com isso as incorporadoras começam a lançar projetos que estavam engavetados. O mercado já está reagindo neste primeiro semestre de 2018. Há uma expectativa de melhora um pouco maior para este final de ano e o primeiro semestre de 2019.

AE – Como está o segmento na região da América do Sul?
JB – Percebemos um crescimento significativo do mercado imobiliário principalmente na Colômbia, no Chile e no Peru. A Colômbia tem um mercado muito aquecido, tanto no segmento de apartamentos populares como também em novas torres comerciais. No Chile, o crescimento é vigoroso, acredito que puxado pelo preço do cobre e todo o mercado de mineração do país, que é muito importante. 
Começamos a ver uma reação importante no mercado chileno com obras de infraestrutura. Recentemente enviamos equipamentos para a expansão do Aeroporto de Santiago. Foram mais de 130 elevadores e escadas rolantes vendidos para a expansão do aeroporto, que será muito maior. O projeto pretende mais do que dobrar o tamanho da área, e nós seremos o principal fornecedor de elevadores, escadas e esteiras rolantes.

AE – Quais são as novas soluções tecnológicas desenvolvidas para o mercado de elevadores?
JB – O grande projeto do momento, que é uma revolução aqui na Otis, é o processo de transformação digital. Formamos uma parceria com a Microsoft e com a Apple para serem nossos parceiros nesse projeto mundial de transformação digital, que está mudando completamente a maneira como nós prestamos os nossos serviços de manutenção e de como vai ser a relação do usuário com o próprio elevador. Muito em breve, todos os nossos mecânicos terão à disposição um aplicativo específico para melhorar a prestação de serviço e para fazer diagnósticos do funcionamento dos elevadores a distância.

AE – E como será a relação dos usuários com os elevadores com essas novas tecnologias?
JB – A interação dos usuários dos elevadores vai mudar em breve, com tudo sendo feito de forma digital por meio de aplicativos. A Internet das Coisas vai transformar drasticamente a relação dos nossos técnicos e engenheiros com os elevadores na nossa carteira de manutenção, além da utilização dos elevadores pelos usuários finais.

AE – O carro-chefe da empresa é o elevador Gen2. Quais são os seus diferenciais?
JB – O elevador Gen2 está revolucionando esse mercado. Além de utilizar cabo de aço, ele usa também cintas com fios de aço revestidos com poliuretano, o que nos permitiu desenvolver uma máquina com eficiência muito maior e que não precisa mais de casa de máquinas. Ele é muito mais eficiente e reduz drasticamente o consumo de energia, pois conta com drivers que regeneram a energia e reduzem em até 70% o consumo de energia elétrica quando comparados a elevadores convencionais com cabo de aço. Além disso, como o elevador não precisa de casa de máquinas, o construtor tem um ganho muito grande, pois pode construir um andar a mais. Por fim, esse elevador não usa óleos lubrificantes durante a manutenção, o que o deixa com uma característica de sustentabilidade ecológica muito forte.

AE – Além de ser uma vantagem para o construtor, ele também chama atenção para a questão da sustentabilidade.
JB – Sim, seja por não utilizar óleo lubrificante na manutenção, recurso que é finito no ambiente, ou por reduzir em até 70% o consumo de energia elétrica. A aceitação desse produto no mercado tem sido boa. Já foram vendidas mais de 500 mil unidades. É o elevador mais vendido na história da indústria.

AE – Casando sustentabilidade com projetos sociais, a empresa transforma sucata de elevadores e escadas rolantes em instrumentos musicais. Como funciona esse projeto?
JB – O Mover é um projeto que me dá muito orgulho, e faz parte do nosso programa de responsabilidade social. Somos os patrocinadores da Caravana das Artes, um projeto itinerante desenvolvido pelo Instituto Mpumalanga em parceria com o Unicef, a Disney e os canais da ESPN. A caravana passa por municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e proporciona para crianças e adolescentes atividades que envolvem música, teatro, dança, cinema e artes plásticas. 
Como patrocinadores, nós projetamos instrumentos musicais produzidos com sucata do nosso processo de fabricação de elevadores, como metais, madeira e cabos de aço. Confeccionamos instrumentos musicais de percussão, que são fáceis de serem tocados por crianças que estão iniciando a musicalização.
O mais bonito disso tudo é que esses instrumentos são fabricados pelos nossos funcionários. Fazemos um workshop, reunimos os funcionários e eles constroem com as próprias mãos os instrumentos musicais. É um projeto que vai fundo no coração das pessoas.
Como a caravana passa pelo país inteiro, e a Otis tem mais de 30 escritórios espalhados pelo Brasil, desde Porto Alegre até Manaus, isso possibilitou a experiência do voluntariado pelos funcionários da Otis espalhados no Brasil inteiro.

AE – O elevador do Palácio das Laranjeiras é um marco da empresa no Brasil. Que outros lugares importantes no mundo você pode citar que têm a presença na Otis no mundo? 
JB – Os elevadores da Otis estão instalados em obras de referência no mundo inteiro. Por exemplo, no Burj Khalifa, localizado em Dubai, que é o prédio mais alto do mundo, com mais de 800 metros. A Otis também está presente no Empire State Building, em Nova York, grande referência na cidade – ali, por sinal, os elevadores estão sendo modernizados. Os elevadores da Torre Eiffel, em Paris, também são nossos.
No Brasil, o Elevador Lacerda, o primeiro elevador urbano do mundo, em Salvador, utiliza os elevadores da Otis, e no Cristo Redentor também. Esses são alguns dos pontos em que a Otis está presente, não só em prédios residenciais, mas também em obras de referência no mundo inteiro.