Quando recebeu a oferta para trabalhar numa mineradora da região do Norte Grande chileno, o engenheiro eletrônico Christian Saldaña não hesitou em deixar para trás seu cargo na área de automação de uma importante multinacional. Sua decisão tinha a ver com a sensação íntima de que sua vida profissional seria marcada pela água, elemento crucial para o futuro da humanidade.

“Deu-se a possibilidade de vir ao mundo da água, e não pensei duas vezes”, conta Saldaña, que em seu primeiro emprego atuou por quase seis anos na produção de água para uma mineradora e há um ano assumiu como diretor de operações da planta dessalinizadora Manto Verde, da Suez Meio Ambiente do Chile, filial do grupo francês Suez Environment, prestadora de serviço para a mineradora Mantos Cooper. Em sua nova rotina, trabalha com uma equipe de 17 pessoas que atuam na planta no regime de 7 x 7 dias. “Permaneço sempre conectado. Nos dias em que não estou lá, o pessoal do turno constantemente me liga para fazer alguma pergunta, e às vezes sou eu mesmo que faço contato para saber como anda o trabalho”, relata a respeito do seu posto-chave, de quem os processos dependem para funcionar sem sobressaltos. “Podemos dizer que somos o coração da mineradora. Sem água, é preciso parar a produção”, afirma.

O engenheiro sabe que o futuro da humanidade está intimamente ligado à água. Num contexto de aquecimento global, crescimento da população e defesa que as comunidades fazem de seus escassos cursos d’água, as mineradoras teriam muitos obstáculos para as suas operações. Entretanto, um plano B teve muito êxito para a mineração de cobre no Chile, que encontrou no mar o seu grande aliado.

“A questão das dessalinizadoras é muito importante para a nossa mineradora, porque nos permite diminuir cada vez mais o consumo de água doce. Embora a mineração utilize muito pouco (representa apenas 3% do consumo em nível nacional), o maior gasto se dá no Norte, onde não há água”, diz María Cristina Betancour, gerente de estudos da Sociedade Nacional de Mineração do Chile.

Maria Cristina explica assim o déficit hídrico no país: o consumo mínimo de água por pessoa/ano para garantir o desenvolvimento sustentável é de 2 mil metros cúbicos. Da Região Metropolitana de Santiago até o Norte do país, a média disponível é de 499 metros cúbicos por pessoa/ano. Na região de Antofagasta, a disponibilidade diminui ainda mais: é de apenas 47 metros cúbicos. Essa é a região de maior atividade mineradora do país.

Custo da energia

“A projeção que temos como governo do Chile é que, para o ano de 2028, 50% da água utilizada pela grande mineração será proveniente de plantas dessalinizadoras. É um aumento de três vezes em relação ao consumo atual, ou seja, bastante substantivo”, diz Erick Schnake, subsecretário de Mineração do recém-terminado governo de Michelle Bachelet. “O fato de essa tecnologia ser utilizada agora e não antes tem relação direta com os custos de energia. Essas plantas consomem muito, basicamente para bombear o líquido para as distintas operações nas quais é utilizado. Por isso, com custos energéticos tão altos, era impensável utilizar tantas plantas desse tipo, já que elas consumiam grande parte dos recursos somente na tarefa de bombear a água”.

Jorge Cantallopts, diretor de Estudos e Políticas Públicas da Comissão Chilena do Cobre (Cochilco), também registra a forte vinculação da grande mineração com a água salgada e o fato de que trabalhar com o recurso marinho envolve procedimentos e investimentos mais custosos. “A metade do investimento de uma dessalinizadora para a operação de mineração se relaciona com a planta, e a outra metade com a tubulação necessária, que abarca distâncias médias de 200 quilômetros e pode ser utilizada para operações que podem estar a 3 mil ou 4 mil metros acima do nível do mar”, diz.

Uma alternativa a esse grande investimento é o uso direto de água do mar por meio de uma tubulação que a leve diretamente para as atividades – mas nem tudo é perfeito. Essa opção acarreta gastos de manutenção com a corrosão dos canos e das bombas. Esses efeitos colaterais fizeram com que o olhar fosse renovado para o uso da água dessalinizada. “É para essa direção que apontam os projetos hoje em dia”, resume Álvaro Hernández, diretor de Recursos Hídricos da vice-presidência de Produtividade e Custos da estatal Corporação Nacional do Cobre (Codelco).

Os custos de investimento para uma planta dessalinizadora variam. Num caso, poderia ser de US$ 100 milhões, mas em outro poderia chegar a US$ 3,4 bilhões – tudo depende da envergadura do projeto e de quantos litros de água é necessário processar e transportar diariamente. Na atualidade, o custo do metro cúbico de água dessalinizada em condições de ser utilizada para a atividade mineradora varia entre US$ 1 e US$ 1,5. No entanto, no momento de transportar essa água para as operações, os valores sobem sensivelmente. Além da distância, é preciso levar em conta o volume necessário e a altura a que o líquido deve ser transportado, além de outros fatores.

Instalações da Vigaflow, uma das empresas que desenvolvem tecnologia para dessalinização. Foto: Vigaflow

“Esses projetos têm economia de escala importante. Não é a mesma coisa pegar 100 litros por segundo e levá-los a 3 mil metros de altura e pegar mil litros por segundo para transportá-los aos mesmos 3 mil metros”, compara Hernández. Esses fatores podem fazer com que o valor do metro cúbico varie de US$ 4 a cerca de US$ 10.

Atualmente, operam no Chile dez plantas dessalinizadoras no setor de mineração, e há uma paralisada. Outras doze se encontram em diferentes etapas dos estudos de viabilidade. Se forem concretizadas e colocadas em funcionamento, haverá um total de 23 plantas, todas na região Norte do país. De acordo com projeção da Cocilco, isso fará com que o consumo de água do mar na mineração do cobre praticamente triplique até 2028. O consumo de água do mar passaria a 11,2 metros cúbicos por segundo, contra 2,9 metros cúbicos por segundo consumidos em 2016. Já a utilização de água doce diminuiria em 6,3% no período – de 12,3 para 11,5 metros cúbicos por segundo.

Segredo

A dessalinização da água do mar é obtida com o uso de diferentes tecnologias utilizadas para realizar um processo essencial, denominado osmose reversa. Entre as empresas que se dedicam a isso está o grupo Trends, cuja subsidiária responsável pelo projeto Energia e Águas do Pacífico (Enapac) é uma dessalinizadora desenvolvida especialmente para o setor mineiro da região do Atacama, e cujos investimentos chegam a US$ 500 milhões.

O presidente do grupo, Rodrigo Silva Millán, acredita estar no ramo adequado, uma vez que prevê um desenvolvimento crescente da tecnologia de dessalinização no mundo – e o Chile pode ser um dos protagonistas dessa indústria, especialmente quando se trata de combinar a atividade com o uso de energias limpas. “Essa tecnologia tem um benefício significativo para o desenvolvimento da mineração no Chile, assegurando o abastecimento de um dos recursos estratégicos cruciais para a indústria e, mais do que isso, numa das regiões com maior escassez de água. São muitos os potenciais clientes, como a agricultura”, acredita.

Outro protagonista dessa nova indústria é Diego de Vera Molero, que já deu a volta ao mundo para falar sobre dessalinização. Molero é o gerente para a América Latina da GS Inima Environment, empresa que desenvolve e constrói plantas dessalinizadoras em todo o planeta. Com uma experiência ligada a projetos localizados na América, na Europa e na África, Molero não tem dúvidas em afirmar que o Chile é pioneiro na região no uso dessas plantas no setor minerador, deixando para trás países com história nesse ramo de atividade, como Brasil, Peru, Colômbia e México.

A liderança chilena não está associada apenas ao número de plantas construídas, diz, mas também à configuração geográfica do país, que é mais longo do que largo, possui uma grande faixa costeira e cuja canalização do mar às indústrias não é tão extensa, como ocorre nos países mineradores da vizinhança. O executivo aponta que a realidade que levou à criação da primeira dessalinizadora do mundo, em Cabo Verde, na África, é similar à chilena e se deve ao mesmo grau de escassez de água do Norte Grande do Chile.

Tubulações utilizadas no processo de osmose inversa, essencial na dessalinização. Foto: Vigaflow

“A necessidade das grandes mineradoras de manter recursos hídricos adequados para levar a cabo os seus processos de forma exitosa e com ampla vazão obrigou-as a olhar para toda a inovação e a se dar conta de que os processos científicos devem estar inseridos em toda a cadeia de industrialização”, diz Molero. “Para o Chile, esse tipo de aplicação tecnológica é essencial, e esse é um dos segredos-chave melhor guardados da indústria. Você já imaginou o Chile, um país cujo PIB está associado à mineração, sem água para produzir cobre? Enfrentaria uma queda econômica fortíssima. A importância dessas plantas fala por si”.

Novas fontes

Álvaro Hernández conhece o cenário de terror sugerido por Molero. Por isso, o representante da Codelco é taxativo ao assegurar que “a continuidade das operações já não é possível com a água disponível atualmente. Temos que agregar fontes e, se começamos a olhar as históricas, podemos aumentar nossos direitos ou fontes? Não, porque elas já não dão conta. Devemos obrigatoriamente pensar em fontes distintas, e aqui é preciso fazer o que a indústria em geral vem fazendo. Por isso o projeto Distrito Norte se abastece e rentabiliza com a água do mar”.

A estatal chilena pretende ter uma planta dessalinizadora do projeto em funcionamento no segundo semestre de 2021. É um empreendimento que em sua totalidade contempla o processamento de 1.680 litros por segundo. O custo estimado é de US$ 1,5 bilhão, valor que pode aumentar, uma vez que o projeto ainda está em fase de licitação.

Rodolfo Camacho, gerente de Meio Ambiente e Licenciamento da BHP Minerals America, destaca que no final de 2017 a Mina Escondida – operada no Chile pela BHP – colocou em funcionamento sua nova planta dessanilizadora Escondida Water Supply (EWS), cuja capacidade de 2.500 litros por segundo a converte na maior da América Latina. O desenvolvimento da nova planta demandou um investimento de US$ 3,4 bilhões e recebeu o prêmio Planta Dessalinizadora Industrial do Ano no Global Water Awards de 2017, concedido pela Global Water Intelligence. Para a organização, as instalações demonstram que o mesmo caminho pode ser utilizado em outros estabelecimentos mineradores.

A EWS requereu também a construção de um sistema de transporte de água de 180 quilômetros para alcançar as operações localizadas a mais de 3 mil metros do nível do mar. Para isso conta com quatro estações de bombeamento e alta pressão e duas linhas de 42 polegadas para o transporte da água. A energia necessária para esse bombeamento é fornecida por uma central elétrica a gás natural localizada na cidade de Mejillones, província de Antofagasta, cujo desenvolvimento foi impulsionado pela BHP e para a qual há um processo para obtenção de bônus de carbono.

Questão global

Jorge Cantallopts, da Cochilco, também acredita que as plantas dessanilizadoras serão as protagonistas da atividade de mineração do cobre. Mas adverte que com esse boom pode surgir um obstáculo. “Isso é um segredo: a mineração não quer falar disso publicamente e não quer que haja regulação a respeito, mas vai custar muito desenvolver projetos de mineração no Chile utilizando águas continentais”, lamenta.

O ex-subsecretário Schnake também salienta as dificuldades do ponto de vista do governo. Em sua visão, é preciso delimitar bem o terreno antes de se iniciar um empreendimento que tenha como matéria-prima o mar de todos os chilenos. Para Schnake, dado o caráter estratégico da água marinha, o Estado deve ter um papel fundamental nessa matéria.

Uma regulação para o uso da água do mar em operações de mineração não seria apenas um tema local, mas poderia se converter numa questão planetária, devido à extensão dessa alternativa industrial. Cantallopts afirma que, em termos globais, existem cerca de 12 mil plantas dessalinizadoras em áreas como indústria sanitária e agronegócio, entre outras. A mineração é um setor que tem cada vez mais presença, impulsionada por operações desenvolvidas em lugares como Peru e Austrália, além do próprio Chile.

No caso chileno, qual seria o tamanho do negócio da dessalinização na indústria mineradora nos próximos anos? “Quando falamos de uma carteira de investimentos de US$ 65 bilhões para o conjunto da indústria de mineração, a parcela destinada à dessalinização não é insignificante e poderia perfeitamente alcançar 5% desse total de investimentos”, estima Cantallopts.

Schnake destaca também os benefícios das plantas dessalinizadoras, tecnologia que em sua opinião desata uma série de nós que vão desde questões ambientais aos aspectos civis. “De um ponto de vista ecológico, as plantas impedem que se faça uso das reservas dos aquíferos ou de outras fontes, considerando-se que é uma região em que os recursos são escassos e muito disputados, e a vegetação do Norte não seria afetada, uma vez que não seriam utilizados os recursos hídricos que dão vida a esses ecossistemas”, aponta. “Por sua vez, deixa-se de usar a água que estava sendo destinada pela comunidade para o consumo local ou para o desenvolvimento da agricultura. Consequentemente, a implementação dessas plantas também soluciona uma problemática, de caráter quase histórico, que se mantinha com as diferentes comunidades do lugar”.