Por Sol Park e Fernando Valencia, AméricaEconomía Intelligence

“Quem tem um MBA deve entender de tecnologia e inovação porque estará trabalhando em empresas disruptivas ou empresas que serão ‘disruptadas’”. A frase é de Sandra Richez, uma norte-americana que atualmente dirige o MBA Global da EDHEC Business School, da França. Sua frase não apenas ecoa a grande aposta em Inteligência Artificial (IA) anunciada pelo presidente Emmanuel Macron para revitalizar o potencial francês, mas também reflete um clima de preocupação intelectual entre os que desenham a formação dos novos líderes corporativos do mundo.

Será que a França está exagerando? E será esse cenário distante para a América Latina?

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Não e não. Tomemos o caso de uma indústria tradicional da região: a automobilística. A Audi, a Ford e a BMW dizem que o futuro é dos veículos sem motorista. Essas empresas estabeleceram o ano de 2022 como prazo máximo para colocar no mercado suas primeiras frotas de carros autônomos. Além disso, de acordo com um estudo de 2017 do Brookings Institute, a indústria já investiu mais de US$ 80 bilhões nesse mercado nascente – que todos querem ser o primeiro a dominar.

Não apenas as montadoras tradicionais disputam a corrida. Gigantes da tecnologia, como a Waymo, da Alphabet, a Tesla, de Elon Musk, e o Baidu, buscador de internet chinês, estão na linha de largada. Nela também estão posicionados fabricantes de autopeças como Bosch e Continental, ou de microprocessadores, como Intel, NVIDIA ou Qualcomm, e até outros considerados como unicórnios, como a Didi Chuxing – rival chinês do Uber – e o nuTonomy, spin-off do MIT que concentrou seus esforços justamente em desenvolver as tecnologias para os novos automóveis.

Na América Latina, as indústrias já estão aproveitando a tecnologia autônoma e integrando-a em seus processos cotidianos. Na mina Gabriela Mistral da Codelco – estatal chilena de mineração de cobre –, operam 17 caminhões autônomos da Komatsu, o que permitiu 25% de crescimento em produtividade. Numa das unidades do grupo paranaense Usaçúcar, houve redução de 4% nos prejuízos causados pelos veículos que danificavam os brotos da cana graças a um caminhão semiautomático desenvolvido pela Volvo no complexo industrial da empresa em Curitiba.

Como seguir chamando de setor automotivo um ambiente em que tanta coisa está acontecendo? Isso tudo sem falar nas mudanças nos outros setores envolvidos, como transporte e logística, os quais, a reboque dessa transformação, também passaram de lagarta a borboleta.

Tanto as escolas de negócios dos Estados Unidos e Europa como as da América Latina estão observando de perto fenômenos como esses, que se repetem praticamente em todos os setores, e os quais entendem como definidores dos desafios dos próximos anos no mundo corporativo. Entretanto, algumas já caminham no ritmo das transformações, enquanto outras ainda estão pensando em como atuar. À frente está a fronteira digital dos MBA.

Revolução 4.0 na prática

Se antes a tecnologia estava confinada ao departamento de TI, “agora ela nos afeta em todas as horas do dia ao fazermos compras online ou utilizarmos apps que rompem as regras do mercado, como Airbnb ou Uber”, diz Martin Boehm, decano da IE Business School, da Espanha. “Por isso as empresas estão procurando empregados com habilidades para a mudança digital”, completa.

De acordo com as previsões da International Data Corporation, ainda em 2018 ao menos 40% das organizações terão uma equipe de liderança digital consolidada; em 2019 o investimento mundial para a transformação digital chegará a US$ 1,7 trilhão – 42% a mais do que em 2017 –; e, em 2020, 60% das empresas vão desenvolver e implementar uma estratégia digital organizacional. “Os desafios dos futuros líderes não dependem apenas de suas capacidades de liderança, mas de sua capacidade de liderar os negócios do século XXI”, afirma Yossi Feinberg, decano associado da Stanford Graduate School of Business.

Antecipando-se ao fenômeno, as escolas de negócios estão se remodelando a partir de suas estruturas internas para se adaptar à revolução da indústria 4.0. A peruana ESAN Graduate School of Business, por exemplo, nomeou como diretor um PhD em Engenharia das Telecomunicações pela Universidade de Osaka, Peter Yamakawa. Isso faz lembrar a iniciativa da Harvard Business School ao romper com a tradição e recrutar Nitin Nohria, doutor em administração pela MIT Sloan School of Management, como decano.

Por sua vez, a Centrum Graduate Business School firmou um convênio com as faculdades da Universidade Católica do Peru para utilizar de forma comum recursos e laboratórios de diversos centros da instituição, como os de biotecnologia, engenharia e design, para integrar os alunos de MBA aos projetos – desde os processos de criação de protótipos até a obtenção de lucros com a inovação.

“Esse é um exemplo de como a revolução tecnológica se integra e se incorpora à educação, de maneira que nossos estudantes não apenas conheçam a Quarta Revolução Industrial na teoria, mas que a conheçam a partir da capacidade instalada em nossa universidade e das empresas que estão se capitalizando com o processo”, diz Percy Marquina, diretor-geral da Centrum.

Outro impacto relevante vem sendo a evolução da grade curricular oferecida em razão da transformação digital. Os cursos das escolas de negócios de Berkeley, Harvard e da London Business School introduziram no núcleo de seus programas de MBA cursos como Data & Decision, Technology and Operations Management e Data Analytics.

Mas a transformação digital alcançou inclusive as disciplinas mais tradicionais. “Estamos frente a uma mudança de paradigmas. Há grandes disrupções em finanças, marketing e estratégia por conta da emergência das fintechs e das novas ferramentas de coleta de dados”, diz Andrea Masino, decano associado do MBA da HEC Paris.

Por essa razão, o currículo da Haas School of Business da Universidade da Califórnia-Berkeley está se movendo na direção da análise de dados, saúde e ciência. “Estamos nos assegurando de que nossos alunos falem a língua da tecnologia e a alavanquem para criar valor nos diferentes tipos de organizações que vão liderar”, afirma Peter Johnson, decano associado da escola.

Cursos como Blockchain, Technology Commercialization e Big Data passaram a integrar a grade do programa de MBA full time da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Desenvolvimento, no Chile. Para Matías Lira, diretor da faculdade, “a tecnologia passa a ser um elemento diferenciador em tudo o que fazemos – desde a forma até o conteúdo do que ensinamos”.

Algumas escolas de negócios oferecem plataformas no final do MBA para que os alunos possam se especializar definitivamente em administração de empresas baseadas em tecnologia. A Tepper Business School da Universidade de Carnegie Mellon, por exemplo, oferece a Business Analytics Track, enquanto a EDHEC lançou a Digital Innovation Track, em aliança com a IBM. A HEC Paris criou duas novas plataformas: Digital Innovation e Sustainability, Social Innovation and Disruptive Leadership.

Paralelamente ao MBA, as escolas têm agregado em seu portfólio novos programas e mestrados focados na transformação digital, além do já bem estabelecido Master in Business Analytics. O suíço IMD, por exemplo, criou quatro programas focados nas últimas tecnologias disruptivas, e a ESAN inaugurou os mestrados em Gestão de Tecnologias da Informação e em Transformação Digital.

Compreensão embrionária

Mas nem todas as escolas de negócios atuam de acordo com essa compreensão da transformação digital. Entre as instituições ouvidas para esta reportagem, a maioria das que possuem uma estratégia tecnológica transversal não é da América Latina. Ainda que observem o fenômeno com atenção, o certo é que as escolas da região estão do outro lado da fronteira digital.

A razão principal, de acordo com o diretor da Faculdade de Administração da colombiana Uniandes, é o nível de desenvolvimento dos países da América Latina e de suas indústrias. “Não podemos formar profissionais para apenas um subgrupo de empresas ou de setores que necessitem de tecnologia, enquanto o resto do mercado não tem a capacidade de absorver esses executivos com habilidades digitais”, afirma Eric Rodríguez.

Talvez por isso as escolas conjuguem seus verbos no futuro quando se referem às estratégias digitais. A Faculdade de Ciências Administrativas e Econômicas da Universidade ICESI, da Colômbia, está desenvolvendo uma especialização em análise de dados em conjunto com a Faculdade de Engenharia da instituição. A IAE Business School, da Argentina, trabalha desde o ano passado com um protótipo de programas a distância e programas de MBA online híbridos para torná-los realidade num futuro próximo.

“A ordem de grandeza para implementar aplicativos representa uma desvantagem absoluta para nós, em termos de orçamento, na comparação com universidades dos Estados Unidos ou da Europa, o que nos distancia um pouco de nosso objetivos, que é sermos completamente competitivos nessa onda de inovação”, reconhece Percy Marquina, da Centrum.

Algumas poucas universidades latino-americanas ainda demonstram uma compreensão totalmente embrionária e preocupante a respeito da transformação tecnológica, considerando que são iniciativas de ponta possuir uma plataforma online, compartilhar e-books ou PDFs com os alunos em lugar de livros de papel, instalar telões digitais nas salas de aula ou recobrir as paredes com isolantes térmicos de última geração. Felizmente, são a minoria.

Difícil travessia

Cruzar a fronteira digital não é simples nem fácil. Nesse mundo, os executivos encontrarão cordilheiras difíceis de atravessar – uma delas é uma sociedade com menos empregos. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, 57% dos postos de trabalho nos países integrantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) correm o risco de ser substituídos por máquinas.

Há também os vales com visibilidade e transparência precárias, como a questão da ética da tecnologia, presente na agenda internacional com o caso da Cambridge Analytica e do Facebook, em que algumas corporações, a partir de IA, se utilizaram secretamente de informações pessoais com fins eleitorais para a campanha de Donald Trump nos Estados Unidos.

Apesar desses cenários, as escolas são otimistas. “Uma grande porcentagem de nossos estudantes está interessada em ter um impacto positivo na sociedade, incluindo aqueles que trabalharão para companhias multinacionais”, afirma Peter Johnson, da Berkeley Haas. Yossi Feinberg, de Stanford, diz que “há um grande movimentos dos estudantes de não apenas fazer bem as coisas, mas fazer o bem”.

Tanto Johnson quanto Feinberg afirmam que as necessidades de seus alunos influíram nas mudanças das escolas para que os futuros líderes sejam capazes de interagir com a sociedade ao redor e criar impacto positivo. Em Berkeley, os estudantes têm o Center for Social Sector Leadership e o Center for Responsible Business, enquanto Stanford oferece seu Center for Social Innovation. 

A Escola de Administração da Pontifícia Universidade Católica do Chile também procura levar seus alunos a instituições públicas que necessitem de intervenção em temas de logística e estratégia para “que a universidade e o MBA tomem o papel de atores na realidade”, de acordo com o diretor de MBA, Marcos Singer.

A Warwick Business School, do Reino Unido, não espera que seus estudantes sejam somente líderes na transformação digital, mas que também “conheçam as consequências da tecnologia, saibam manejar seu poder e humanizá-la”, de acordo com o decano da escola, Andy Lockett. Por isso, as implicações da IA são tema de estudo, assim como o desenvolvimento de uma pauta ética para a coleta de dados, em parceria com a IBM.

Uma coisa é falar

Outra é fazer. Assim como ensinam a seus alunos, as escolas também devem se reinventar e aplicar a transformação digital ao seu próprio cotidiano, entregando um serviço de acordo com a Revolução da Indústria 4.0 que pretendem liderar.

Talvez o exemplo mais famoso seja a Wow Room da IE Business School, em que a única pessoa física que está na sala de 48 telas de realidade aumentada é o professor. Ou não: como alternativa, um robô pode projetar um holograma do professor, que passeia pela sala interagindo com os alunos, embora esteja na verdade a milhares de quilômetros de distância. Os estudantes, por sua vez, dispersos em diferentes países, se reúnem virtualmente e participam das aulas e dos debates da maneira mais próxima à realidade possível. A IA e o Big Data se encarregam de fazer o relatório das estatísticas do que se passa nas aulas, o que inclui a taxa de participação e o nível de atenção dos alunos.

“Como instituição acadêmica, nos perguntamos como essas novas tecnologias vão nos impactar. Temos uma equipe que se dedica a procurar responder a essa pergunta. São especialistas em pedagogia e tecnologia, procurando abarcar tanto as novas tendências quanto atender às necessidades de nossos clientes”, explica o decano da IE Business School, Martin Boehm.

As escolas latino-americanas também estão definindo suas estratégias macro em transformação digital. A Universidade do Desenvolvimento estreará neste ano sua própria Wow Room, que ainda não foi batizada. Já a Centrum Católica Business School adotou um aplicativo da IBM Watson chamado Personality Insights, que, com IA, examina os textos dos candidatos para analisar sua personalidade e dessa maneira economizar recursos de tempo e dinheiro no processo.

Ao mesmo tempo, as escolas se valem do ecossistema em que estão inseridas para trazer às suas aulas as empresas que lideram a transformação digital e a adoção das tecnologias de ponta. O Digital Center da HEC Paris, por exemplo, trabalha lado a lado com a Air France, a Capgemini e a Orange em disciplinas relacionadas com transformação digital e empreendedorismo nesse novo cenário.

A IMD, por sua vez, abriu seu Global Center for Digital Business Transformation, financiado com US$ 10 milhões doados pela multinacional Cisco. A Sloan School of Management, em parceria com a MIT Initiative for Digital Economy, já realizou pesquisas com a Deloitte, a Haier e a Thomson Reuters.

Se não é possível levar as empresas líderes do mercado em tecnologia para o campus, as escolas enviam os seus alunos. O EDHEC Business School, por exemplo, procura fazer com que os estudantes saiam da sala de aula e compreendam as transformações que estão acontecendo em companhias como Amazon, Google e Amadeus.

Diante dessa realidade, não apenas as empresas, mas também as escolas de negócio começam a tornar cada vez mais concretas as palavras de Peter Hirst, decano associado da MIT Sloan School of Management: “dizer que as organizações devem encarar com seriedade a transformação digital é como dizer às pessoas que elas devem respirar”.