A tecnologia tem se mostrado aliada de muitos segmentos, com soluções que passam por todos os aspectos da vida moderna – e não seria diferente no setor da saúde. Cada vez mais modelos digitais são adotados mundo afora, seja com foco na redução de custos na área ou no auxílio da construção do futuro desse mercado.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as tecnologias na área podem ser definidas como o conjunto de conhecimentos e competências em formato de dispositivos, procedimentos e sistemas desenvolvidos para solucionar problemas de saúde e prover melhorias na qualidade de vida. As healthtechs são as startups e negócios que vêm trabalhando para apresentar inovações tecnológicas para o setor.

Em 2015, o consumo de bens e serviços no setor de saúde no Brasil atingiu R$ 546 bilhões, valor que representa 9,1% do PIB, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse montante, R$ 231 bilhões foram referentes às despesas governamentais, enquanto que R$ 315 bilhões corresponderam a despesas familiares e de instituições prestadoras de serviço.

“Existem várias iniciativas sendo conduzidas em termos de inovação na área da saúde, algumas delas com a ajuda e/ou motivadas pela ação de startups”, diz Raphael Augusto, startup hunter da Liga Ventures, pioneira no mercado de aceleração corporativa e corporate ventures. “O espectro de inovação engloba a forma de relacionamento entre o paciente e o profissional da saúde, o avanço da telemedicina, a forma de acessar o atendimento, a integração da cadeia da saúde, o uso de Inteligência Artificial (IA) para aprimorar e acelerar processos e diagnósticos e a eficiência da cadeia de distribuição, além da inovação focada em desenvolvimento de artigos, medicamentos e equipamentos usados no setor”.

A aceleradora publicou recentemente o estudo Liga Insights Health Techs, integrante de uma série que cruza e converge pesquisas e opiniões de especialistas de mercado sobre as iniciativas de startups e corporações. “A motivação para estudarmos o mercado de saúde vem do potencial de impacto que as inovações providas por startups têm nesse importante mercado”, completa Augusto.

Várias startups vêm desenvolvendo soluções que estimulam o autocuidado dos seus usuários, como aplicativos que acompanham a alimentação e avaliam atividades físicas. Outras atuam com o uso e aplicação de IA para entender e identificar anomalias em quadros clínicos, aumentar a precisão de diagnósticos e até prever possíveis variações e crises em casos crônicos.

Em outra frente, startups estão atuando com soluções de rastreamento e monitoramento de ativos da saúde, como medicamentos, para garantir a sua conformidade e qualidade ideal por meio de seu monitoramento em tempo real.

As startups também oferecem soluções para o entorno, como sistemas de gestão administrativa e financeira para profissionais e clínicas, canais para aumentar a sua abrangência de atuação e escritórios compartilhados para hospedar consultórios.

De acordo com o startup hunter da Liga Ventures, as aplicações são inúmeras e vêm aumentando. “O tema, em especial no Brasil, abre muitas oportunidades e desafios para os empreendedores”, diz Augusto.

Controle por expressões faciais

Os dispositivos de Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês) conseguem trazer visibilidade para os ativos de saúde que não eram conectados. Em outras palavras, o uso de sensores pode auxiliar desde a localização de um equipamento dentro de um hospital até perceber a entrada de um paciente no ambiente e antecipar as partes possíveis do atendimento. 

Outro exemplo de grande impacto para o setor é no rastreamento e monitoramento de medicamentos, amostras e exames durante o transporte, garantindo a qualidade numa etapa da jornada que é quase não assistida. Existem também os wearables, dispositivos conectados que podem auxiliar no monitoramento constante e interações a distância com um leque que vai de pessoas que querem ter uma vida mais saudável a portadores de doenças crônicas.

Do lado da IA, as aplicações também são inúmeras – desde o uso em bots que agilizam o atendimento e busca de informações por parte dos usuários e pacientes até aplicações para o aumento da acuracidade em análise de exames por imagens, robôs cirurgiões, previsibilidade e antecipação de crises em quadros clínicos e análises de epidemias.

“Todas essas aplicações impactam diretamente três pontos: qualidade do atendimento, eficiência de custos e aplicações preventivas de saúde”, diz Augusto, da Liga Ventures. “É muito importante ressaltar que, além de seu impacto solo, a combinação dessas tecnologias pode mudar, e já está mudando, a maneira como vivemos a saúde, aumentando a qualidade de vida e com o acesso a todos esses provedores de saúde”.

Seguindo essa tendência, a startup HooBox Robotics desenvolveu uma tecnologia de reconhecimento facial de alta precisão. A solução é capaz de capturar com uma câmera mais de cem pontos ao redor do rosto e detectar micromovimentos. “O rosto humano tem 40 músculos e é capaz de realizar muitas expressões faciais. Cada expressão facial é como uma letra, e estamos criando um vocabulário de expressões faciais para controlar coisas, inclusive uma cadeira de rodas”, explica Paulo Gurgel Pinheiro, CEO da empresa.

A nova tecnologia foi desenvolvida com a intenção de fazer com que um tetraplégico ou paciente diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA) pudesse usar uma cadeira de rodas de maneira mais confortável. No início utilizava-se um sistema de reconhecimento de voz, que não teve aceitação no mercado. A conclusão foi que o comando de voz era bem aceito para fazer pesquisas na internet, por exemplo, mas era muito cansativo para o usuário controlar uma cadeira de rodas.

A startup também testou a tecnologia de eye tracking, que permite o mapeamento do comportamento visual da pessoa.  A utilização da movimentação dos olhos também deixava os usuários muito cansados. Finalmente veio a opção de utilizar as expressões faciais para controlar a cadeira de rodas.

“Colocamos uma câmera na cadeira e, com essa tecnologia, o usuário consegue controlar a cadeira com expressões faciais como um beijo, um sorriso, um levantar de sobrancelha, uma língua para fora, bochecha inflada ou boca aberta”, conta Pinheiro. O produto se chama Wheelie 7, pois leva somente sete minutos para ser instalado. A empresa não fornece a cadeira, apenas o kit, que pode ser utilizado em qualquer dispositivo motorizado. O kit é enviado de graça, e é cobrada uma mensalidade de US$ 300.

“Temos 50 clientes que já estão usando a tecnologia no dia a dia e uma lista de espera com 200 pessoas para receber a próxima versão do kit no ano que vem. Para 2018, pretendemos fechar a lista com 400 clientes na lista de espera e, para 2019, mil clientes. Em 2020, quando vamos lançar a versão final do produto, esperamos ter uma lista de espera com 3 mil pessoas”, diz o CEO. Para entrar na fila, é preciso fechar um contrato de doze meses e pagar duas mensalidades antecipadas. Quando a HooBox entregar o produto, o usuário não paga nos dois primeiros meses de utilização.

A partir da tecnologia para as cadeiras de rosas, a startup desenvolveu um segundo produto, voltado a Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Neste caso, utiliza-se a solução para capturar dez níveis de dor, sonolência, agitação, sedação, espasmos e delírios dos pacientes nos leitos. O próximo passo, já em desenvolvimento em conjunto com o laboratório de inovação da Johnson & Johnson, em Houston (EUA), onde a HooBox também está baseada, é levar a tecnologia para residências e babás eletrônicas. “Nos próximos dois meses, vamos finalizar o primeiro protótipo de babá eletrônica capaz de reconhecer expressões faciais de recém-nascidos e detectar nível de agitação, sedação e tipos de choro. Estamos pegando a tecnologia que desenvolvemos e tentando colocar em vários segmentos na área da saúde”, revela Pinheiro.

Entre o serviço público e o plano privado

As soluções que atuam no gap deixado pelos modelos atuais de atendimento vêm ganhando espaço ao se colocar como alternativa para as pessoas que não conseguem arcar com um plano de saúde ou estão insatisfeitas com a saúde púbica. Redes de clínicas privadas com preços mais acessíveis já atuam no mercado.

A VidaClass é um exemplo nesse nicho. A plataforma promove acesso a serviços médicos e odontológicos, exames de imagens e laboratoriais e consultas multiprofissionais com valores acessíveis, sem pagamento de mensalidade ou taxa de adesão. O CEO da VidaClass, Vitor Moura, reconhece que o Sistema Único de Saúde (SUS) “é um projeto fantástico, completo e qualificado”, mas não consegue atender toda a demanda – assim como boa parte da população não tem condições de pagar um plano privado.

“Nossas consultas começam em R$ 45, os exames laboratoriais em R$ 3,90, e o usuário pode pagar com cartão, parcelado ou com boleto. Nossa missão é dar acesso à saúde com preço justo e com meios de pagamento que deem essa possibilidade. Ninguém é obrigado a pagar o ano inteiro para ter direito a uma consulta por ano”, aponta Moura. A empresa criou também a VidaClass Farma, um plano de assinatura para descontos em farmácias. A assinatura do plano é R$ 7,99 ao mês e garante desconto em 95% dos remédios em 22 mil farmácias em todo o Brasil.

O prestador de serviço não paga nenhuma taxa para entrar na plataforma. Uma vez cadastrado, sua atuação é verificada e, após essa filtragem, a VidaClass discute os preços. “Eu não defino preço, mas explico o modelo e eles entendem, colocando preços muito mais baixos do que cobram em suas clínicas”, diz o CEO. Os prestadores recebem os valores em 30 dias em sua conta, dinheiro que não passa pela companhia. “O cliente paga diretamente no site. O dinheiro do médico vai para ele e o nosso vem para nós. Não recebo nada até acontecer uma transação e, quando acontece, ganho uma taxa de 7%. É a taxa mais barata do mercado”.

A plataforma tem mais de 12 mil parceiros presentes em 140 cidades do Brasil. Até o final de 2021, a meta é ter 50 mil prestadores de serviços e estar em todas as cidades com mais de 200 mil habitantes. “Temos um projeto para a América Latina, pois todos os países da região, com raríssimas exceções, padecem do mesmo problema. A Mapfre se interessou pelo nosso modelo e quer fazer uma parceria mais global. É um plano para o segundo semestre de 2019”, completa Moura. 

Acompanhamento pelo celular

O Grupo Oncoclínicas, um dos maiores na área de oncologia, hematologia e radioterapia da América Latina, criou o aplicativo Meu Di@. A ideia de criar uma plataforma digital surgiu com a constatação de que estudos científicos recentes evidenciaram que pacientes que utilizaram um dispositivo mobile no apoio ao seu tratamento obtiveram aumento da sobrevida de até seis meses.

O app Meu Di@ oferece informações e orientações sobre a doença e o tratamento, além de auxiliar os pacientes na realização de exames, consultas médicas e uso de medicamentos importantes. A principal funcionalidade do aplicativo consiste na interação do paciente com a “Charlote” – um campo de IA construído a partir de buscas a bases científicas, consultas com médicos especialistas e uma equipe multiprofissional.

“Pensamos também nos pacientes idosos ou que possuem algum tipo de dificuldade no uso de smartphones e necessitam de um auxílio na adesão ao tratamento. Para isso, o paciente permite que um acompanhante ou cuidador receba informações relevantes e o acompanhe durante todo o seu tratamento”, explica Denise Ducco, gerente de experiência do paciente do Grupo Oncoclínicas. A interação do paciente com a “Charlote” permite identificar sinais de agravamento da doença, e caso isso ocorra o paciente é orientado a procurar imediatamente um serviço de urgência.

“A IA vem impactando positivamente a medicina e auxiliando na ampliação da capacidade de atendimento dos pacientes. Acompanhamos todas as interações, armazenamos um grande número de informações clínicas e conhecemos as principais dúvidas dos nossos pacientes. Criamos, portanto, a capacidade de avaliar nossas práticas clínicas e a possibilidade de elaboração de pesquisas cientificas que agregarão não somente para nossos pacientes como também para o avanço da medicina”, completa Denise.

 

De olho nos custos
Uma das frentes que despontam para as healthtechs é a das empresas que atuam em busca do reequilíbrio das contas e eficiência de atores como planos de saúde e hospitais. São, por exemplo, soluções que auxiliam na satisfação do usuário, no gerenciamento dos custos e na área de compliance para detectar fraudes.

A Safe Care, divisão do Safe Group, companhia de consultoria e administração de soluções em seguros e benefícios corporativos, trata exatamente de detalhar a gestão dos planos de saúde dentro do RH das empresas. “Os planos corporativos oferecidos para os funcionários das empresas têm muitos problemas no dia a dia, seja na marcação de consultas ou na interface com a operadora, e as informações acabam caindo numa vala comum, o que gera custos e impacta os empresários”, explica Kátia de Boer, sócia-diretora da Safe Care. 

A empresa pensou numa fórmula para que os departamentos de RH pudessem monitorar a utilização dos planos de saúde, a fim de trabalhar na prevenção dos erros e ter um controle maior da gestão. Para isso, desenvolveu a plataforma Facility Safe, um sistema integrado de gestão de saúde que permite detectar falhas, cumprir metas para alcançar a redução de custos e garantir o bem-estar dos beneficiários, além de proporcionar ao RH a otimização de todos os processos.

Com o sistema, as empresas podem economizar nos gastos com assistência médica somente com o direcionamento para o uso correto do plano, evitando idas repetitivas e desnecessárias a consultas e hospitais, além de oferecer suporte nos procedimentos de internação hospitalar, controlar os índices de absenteísmo e até fazer a auditoria dos atestados médicos apresentados pelos funcionários, evitando possíveis fraudes.

“Tudo é feito pelo sistema Facility Safe e fica registrado e protocolado, com data, hora e minuto. Posso monitorar os chamados e o tempo de resposta, e isso gera tranquilidade para o gestor dentro das empresas e também para o usuário do plano de saúde”, explica a sócia. “Trabalhamos com a prevenção dos problemas. A plataforma tira a sobrecarga do RH e as particularidades que podem gerar um problema para a empresa, como despesas por algum erro”.

A empresa também oferece todo o suporte necessário para o agendamento de consultas e exames, acompanhamento de pedidos de reembolso e atendimento dos casos crônicos, incluindo gerenciamento de home care. Possui, ainda, uma equipe médica responsável por acompanhar e gerenciar as internações hospitalares dos funcionários.


Conectar sistemas ainda é desafio
A interoperabilidade é a capacidade de conexão entre os sistemas das instituições, fazendo com que as informações transitem de forma padronizada e conectada. No segmento da saúde, ela diz respeito às conexões de informações de pacientes, fornecedores e todos os entes envolvidos no processo. Chegar ao cenário ideal ainda é um grande desafio para a saúde – e não só no Brasil.

“O mercado de fornecedores de soluções é bastante pulverizado. Existem alguns padrões já predefinidos, como DICOM para radiologia, HL7 para informações de dados, mas, no geral, não existe uma padronização de informação, o que torna praticamente impossível fazer com que as instituições se conectem de uma forma simples”, explica Rogério Pires, diretor de Healthcare da TOTVS, empresa brasileira de software, serviços, plataforma e consultoria. “Dificilmente um paciente consegue ser atendido em instituições diferentes e possuir o seu prontuário unificado, bem como informações de exames e dados médicos em geral. Quem perde com isso é o paciente. É um grande desafio para tornar o segmento mais digitalizado”.

A TOTVS desenvolveu o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), solução que proporciona as vantagens da tecnologia com uma experiência semelhante à precisão em papel, garantindo o aumento da produtividade com mais segurança aos pacientes por meio da centralização de informações. O PEP foi desenvolvido em parceria com instituições respeitadas na saúde para trazer uma solução eficaz para que médicos e enfermeiros trabalhem de forma otimizada.

“O PEP é utilizado por todos os clientes que adotam as nossas soluções de gestão hospitalar. Por ser desenvolvido em tecnologias web e adotando técnicas de UX (usabilidade), temos recebido excelentes retornos da qualidade e facilidade de uso do produto. Nossa grande preocupação, ao desenvolver produtos, é torná-los simples e de fácil uso. Além do mais, fazemos com que os clientes nos ajudem na elaboração do design e funcionalidades. Isso tem sido um grande diferencial”, afirma Pires.