Por Cristian Aránguiz, AméricaEconomia Internacional

O Uruguai está entre os poucos países do mundo que recebem um número de visitantes maior do que a própria população: em 2017, foram 4,2 milhões de turistas – entre eles, 500 mil brasileiros – para um total de 3,45 milhões de habitantes. Liliam Kechichián, 66 anos, ministra do Turismo e do Esporte do Uruguai, comemora os números, que representam um impacto de 7 pontos no PIB, e afirma que o país tem condições de seguir absorvendo a demanda – embora reconheça que “realmente não é fácil seguir crescendo nesse ritmo”.

Nomeada em 2012 pelo ex-presidente José Mujica, a ministra foi mantida no cargo no governo de Tabaré Vázquez, iniciado em 2015, e é uma das personalidades públicas mais bem avaliadas em pesquisas de opinião, inclusive no meio empresarial. Nesta entrevista exclusiva, a militante da coalizão de esquerda Frente Ampla fala do crescimento do turismo no Uruguai e aborda os desafios para renovar as lideranças políticas do país, que terá eleições gerais no ano que vem.

AméricaEconomia – Uma parcela importante dos turistas que visitam o Uruguai é de argentinos. A crise econômica dos vizinhos afeta o turismo no seu país?

Liliam Kechichián – A desvalorização do peso na Argentina tem a ver com um pacote bem complicado: dívida, déficit e inflação, coisas que felizmente o Uruguai não tem. Na Argentina, a inflação é de 40%, e no nosso país está em apenas 8%. A crise dos vizinhos é importante, mas o Uruguai está se preparando, promovendo pacotes turísticos e oferecendo benefícios. Por exemplo, estamos devolvendo o imposto sobre valor agregado de todas as compras turísticas e ampliando o tax free. Em resumo, estamos trabalhando para que esses visitantes históricos continuem vindo ao nosso país. Estamos fazendo um esforço porque sabemos que é uma classe média que sofre muito.

AE – A Argentina parece sofrer esse tipo de crise de forma cíclica...

LK – Sim, de tempos em tempos vivem uma. Um país rico, muito bem localizado geograficamente, que tem trigo, carne, neve, mar... É um país incrível. Lamentavelmente, a população sofre regularmente esse tipo de vicissitudes muito dramáticas.

Hoje há dois projetos de país: um defendido pela centro-direita, de uma política mais neoliberal, e o da Frente Ampla. Não tenho nenhuma dúvida de que, com a erradicação quase total da indigência e com grandes avanços na educação e na saúde, o povo uruguaio está mais propenso a seguir com esse rumo do que trocá-lo por políticas que significam um retrocesso

AE – Em 2017, o Uruguai recebeu mais turistas do que o seu número de habitantes. O país está preparado para receber ainda mais gente?

LK – Em primeiro lugar, fazemos parte desse seleto grupo de países nos quais o número de visitantes é superior ao número de pessoas que ali vivem – isso é toda uma particularidade. Em termos de infraestrutura, estamos muito bem preparados. Temos um novo porto de última geração em Colônia, um de muito bom nível em Montevidéu e um dos aeroportos mais bonitos do mundo. Nos últimos anos, tivemos um aumento de 20 mil novos leitos na rede hoteleira e recebemos unidades de grandes cadeias do setor. Em resumo, temos a capacidade de seguir absorvendo essa demanda. Mas realmente não é fácil seguir crescendo nesse ritmo.

AE – No ano passado, o turismo trouxe US$ 2,3 bilhões ao país, correto?

LK – Sim, o que representou um impacto de 7 pontos no PIB. Agora, como eu disse, quando se chega a esses números é difícil seguir crescendo no mesmo ritmo. Com a crise na Argentina, estamos trabalhando para substituir essa possível baixa com um crescimento muito bom que temos tido no número de turistas brasileiros, que no ano passado chegou a 500 mil pessoas.

AE – Os governos de esquerda sempre são criticados por sua relação com o mundo das empresas privadas. Como tem sido a sua experiência?

LK – A Frente Ampla uruguaia é uma esquerda que tem tido uma enorme maturidade e tem conseguido ser muito sensata em sua política econômica, o que permite que possamos enfrentar bem as crises tanto da Argentina quanto do Brasil, que historicamente nos arrastavam. Hoje o Uruguai tem reservas, tem amparo, tem dinheiro no banco, investimentos e prestígio. Então, nosso diálogo com o setor privado é permanente. Cada um com suas posturas, mas trabalhando em conjunto, porque está claro que uma sociedade é policromática e nela estão os trabalhadores – a quem a Frente Ampla defende muito, sabendo que, para haver trabalhadores, é preciso que existam empresas. Temos criado garantias nas negociações coletivas e salariais, e com investimento. O mundo privado tem que investir.

AE – A senhora gosta da etiqueta de “turismo canábico”, que alguns setores têm colocado no Uruguai em relação à sua política para a venda da maconha?

LK – Não, porque não há turismo canábico. A regulamentação da venda da maconha no Uruguai é exclusivamente para os residentes no país. É uma fórmula nova pensada pelo ex-presidente José Mujica para ver se podíamos transitar por um caminho diferente daquele da repressão – cujo único resultado no mundo, especialmente na América Latina, foi aumentar o tráfico. Por isso o Uruguai procurou regulamentar, e não liberar, criando um sistema de venda com registro nas farmácias, o que tem se revelado um processo exitoso. Mas não vendemos maconha aos turistas, e nem vamos vender.

AE – Os turistas, especialmente os europeus, veem notícias de que a maconha é vendida nas esquinas...

LK – Sim, e estamos trabalhando em relação a esse tema. Quando começou o nosso processo, muitas vezes saíram notícias distorcidas, o que também aconteceu em países da Europa que tomaram medidas semelhantes. O Uruguai não se propõe a esse cenário de liberalizar o consumo da maconha.

AE – Para a Frente Ampla, foi difícil compreender que o turismo era uma atividade econômica rentável e de primeiro nível?

LK – Sim, demorou, não há dúvida.

AE – O preconceito era de que o turismo seria uma coisa apenas da burguesia, uma mera diversão?

LK – Mais do que isso. Eu diria que esse fantasma pesava em todo o sistema político uruguaio. Somos historicamente um país muito agroexportador e muito industrial, e todos os partidos, incluindo os de centro e de direita, custaram muito a entender a importância dessa atividade.

AE – E a esquerda a via como uma atividade para pessoas da direita?

LK – Eu diria que havia na esquerda preconceitos de que seria uma atividade para poucos, um mundo apenas de glamour, ao estilo de Punta del Este. Felizmente, já em nossa primeira campanha eleitoral como Frente Ampla, incorporamos a ideia de um Uruguai produtivo – ou seja, tratar o turismo como uma atividade econômica de primeiro nível, que tem impacto e gera empregos.

AE – O Chile também criou uma Frente Ampla. A senhora vê diferenças entre o grupo chileno e o uruguaio?

LK – A particularidade de nossa Frente Ampla é que se trata de uma coalizão, portanto temos cristãos, marxistas, o Partido Socialista etc. e procuramos consensos para um programa comum. Cada um tem o seu projeto final, mas trabalhamos por aquilo que foi acordado entre todos. Quando a esquerda se divide, a direita ganha e o povo perde.

AE – Para que a indústria do turismo siga tendo êxito no Uruguai, é necessário que a Frente Ampla permaneça no poder ou já se trata de uma política de Estado?

LK – É vital que a Frente siga para que o país continue com crescimento econômico. Para mim, não há nenhuma dúvida quanto a isso. Hoje há dois projetos de país no Uruguai: um defendido pela centro-direita, de uma política mais neoliberal, e o da Frente Ampla. Não tenho nenhuma dúvida de que, com a erradicação quase total da indigência e com grandes avanços na educação e na saúde, o povo uruguaio está mais propenso a seguir com esse rumo do que trocá-lo por políticas que significam um retrocesso.

AE – O êxito da Frente tem o desafio agora da falta de renovação não só de nomes, mas também geracional.

LK – Sim, concordo. O problema é que, quando temos líderes tão potentes como o atual presidente [Tabaré Vásquez], o ex-presidente José Mujica ou o ministro Danilo Astori [da Economia], a renovação se torna um pouco diferente. Estou entre os que creem que o novo também se faz com o melhor da história – não quero dizer com o velho, mas sim com a história. Acredito nesse equilíbrio, mas antes de mais nada vejo a renovação pela participação das mulheres.

AE – A senhora é feminista?

LK – Sou uma militante do meu gênero e gostaria que a próxima candidata à presidência do Uruguai fosse mulher.

AE – A Frente Ampla e a esquerda uruguaia têm sido machistas?

LK – A esquerda uruguaia tem sido horrivelmente machista, mas isso se dá em todos os lados. A renovação tem que ser etária e adaptada aos novos desafios que a sociedade nos apresenta. Mujica tem 84 anos, Tabaré Vázquez tem 79, e assim por diante. Eles podem seguir sendo fontes de consulta e enormes referências para todos nós, mas sou totalmente a favor da renovação.