Na busca por alternativas para adquirir bens e serviços, os consumidores brasileiros que assistiram nos últimos anos o encolhimento e a seletividade para a liberação de crédito reconsideraram a maneira de como lidar com as questões do consumo imediato, fazendo alterações em seu comportamento financeiro frente às necessidades futuras. Neste contexto, os consórcios ressurgem como opções viáveis para quem pretende adquirir um bem de forma planejada, com custos menores e prazos mais longos.

Uma das principais vantagens se dá pelo fato de não haver cobrança de juros e, sim, de uma taxa administrativa diluída ao longo do tempo de duração do grupo de consorciados, onde os custos finais são bastante inferiores à outras modalidades disponíveis no mercado. Segundo dados da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac), de janeiro a maio deste ano, o acumulado de vendas de consórcios chegou a 912,5 mil ao crescer 7,8% sobre o total do mesmo período do ano passado, quando atingiu 846,3 mil.

Somente as adesões em maio deste ano, apresentaram um crescimento de 113% no segmento de serviços

O fechamento de negócios em consórcios ultrapassou os R$ 36,30 bilhões, registrando aumento de 24,7% sobre os R$ 29,11 bilhões de 2016. O tíquete médio de R$ 40,7 mil em maio, um dos fatores da evolução dos negócios no mês, foi 10,6% superior aos R$ 36,8 mil contabilizado no quinto mês de 2016. A exemplo dos quatro primeiros meses deste ano, as adesões em maio voltaram a apresentar crescimento em cinco dos seis setores – veículos automotores leves e pesados, imóveis, serviços e eletroeletrônicos e outros bens móveis duráveis – com destaque para serviços, que manteve a liderança, com alta de 113,6%. Na sequência vieram eletroeletrônicos e outros bens móveis duráveis com 28,4%; veículos leves com 19%; imóveis com 12,7% e veículos pesados com 11,5%. Somente o setor de motocicletas manteve percentual negativo de 6,1%. 

Na avaliação semestral do ano passado, as vendas no segundo semestre cresceram 24,5% em relação ao primeiro semestre, passando de 1,02 para 1,27 milhão de adesões. Os estados que mais somaram cotas comercializadas de consórcios em todos os segmentos foram São Paulo (SP) com 511.699, Minas Gerais (MG) com 197.578 e Bahia (BA) 161.517. “Com uma história de mais de 55 anos, o sistema de consórcios, uma criação genuinamente brasileira, tem tido papel importante na concessão de créditos para aquisição de bens ou contratação de serviços para milhões de brasileiros. Em primeiro lugar, é importante diferenciar consórcio de financiamento em razão de se tratar de mecanismos destinados a públicos com perfis distintos. Desta forma, podemos adiantar que consórcio é para que pretende adquirir um bem de modo planejado. No caso do financiamento, o consumidor é imediatista e deseja o bem ou o serviço rapidamente. Participar de um consórcio tem tudo a ver com educação financeira”, explica Paulo Roberto Rossi, presidente executivo da Abac.

O boom dos serviços
A crise econômica provocou nos bancos uma grande preocupação com a oferta de produtos aos clientes e atualmente a gama de modelos de consórcios atende a muitos tipos de consumidores, desde aquele que quer comprar um carro ou um imóvel, pensando no médio ou longo prazo, até àquele que está programando uma festa ou um procedimento cirúrgico. Este tipo de consórcio registrou alta bem acima dos mais comuns. 

O Banco do Brasil, por exemplo, que tem em sua carteira atual o valor de R$ 16,8 bilhões, onde a principal categoria de comercialização é a de automóveis (respondendo por cerca de R$ 13 bilhões), observou um aumento na busca pelos serviços. Nos cinco primeiros meses de 2017, em linhas gerais, foram vendidas aproximadamente 90 mil cotas, totalizando R$ 3,4 bilhões em volume de negócios e no comparativo com o mesmo período do ano anterior, onde foram vendidas 50 mil cotas, somando R$ 1,9 bilhão, indicando um aumento de 80% no resultado financeiro. 

Somente a performance do primeiro quinquemestre de 2017 representa 50% do resultado total do ano de 2016. Ainda no mesmo período, para a modalidade de consórcios de serviços, onde entram festas, procedimentos cirúrgicos e viagens, houve um acréscimo de mais de 100% com a contratação de quase R$ 19 milhões.

As expectativas projetadas pela instituição para as vendas dos consórcios de serviços superam a margem de 400% de crescimento. Uma das estratégias para expandir a adesão aos consórcios está na diversificação, reformulação e desenvolvimento de novos produtos para atrair a atenção de outros públicos. 
De olho na expectativa do desempenho do agronegócio brasileiro, entre os grupos inovadores lançados de janeiro a maio deste ano está a modalidade Imóvel Rural, que trouxe a opção de pagamentos semestrais e anuais, se ajustando ao fluxo de caixa dos produtores que já rendeu R$ 30 milhões.

O grupo Trator e Caminhão alcançou R$ 167,5 em rendimentos e, por fim, a categoria Motos Alto Valor, voltado ao público de alta renda como um dispositivo de oportunidade de mercado, acumulou R$ 6 milhões. As operações via mobile se destacaram como canal alternativo de transações pelo seu bom desempenho em seu lançamento no mês de maio deste ano, captando R$ 23 milhões em produtos de consórcio em geral, o que representa uma média diária de R$ 767 mil em vendas.

O segmento com maior retorno financeiro neste canal digital é o de automóveis, com R$ 16,4 milhões comercializados, seguido pelo de imóveis (R$ 4,2 milhões), motos (R$ 1,5 milhão) e de serviços (R$ 900 mil). “Vejo que as pessoas estão aderindo aos sistemas de consórcios como forma de fazer um planejamento financeiro e não o encaram como uma dívida, mais sim como um propósito, uma poupança. Em momentos mais economicamente favoráveis, onde puderem dispor de mais recursos, elas darão o lance para adquirir o bem que tanto desejam.

O fator crise aumenta a cautela do consumidor diante dos gastos, mas evidencia as vantagens da adesão aos consórcios, principalmente diante das taxas administrativas consorciais que são muito inferiores em relação às altas taxas de juros praticadas pelo mercado” afirma Paulo Ivan Rabelo, diretor comercial de consórcios do Banco do Brasil.

Autos e imóveis 
Apesar de um entorno macroeconômico bastante complicado, em 2016, a área de consórcios do Banco Santander obteve resultados expressivos em seu quadro geral, fechando o ano com a comercialização de 70 mil cotas. Já o primeiro quadrimestre deste ano sinalizou um crescimento de 25% em relação ao mesmo período de 2016. Os consórcios de automóveis e imobiliários representam 95% do volume comercializado pelo Banco Santander atualmente. Para Vagner Rodrigues, superintendente de consórcios da instituição, dois percalços guardam relação com o aumento da procura por consórcios.

Fatores como a redução e seletividade dos bancos para a concessão de crédito, e também a mudança de conduta por parte dos consumidores quanto à busca de soluções mais econômicas, indicam que, ao decidir por uma compra planejada como sugere o sistema consorcial, opta-se por uma forma de aquisição com menor custo. “No final dos anos 1980, em função dos patamares de inflação e juros, tínhamos também uma menor alocação de recursos no financiamento e, com isso, menos alternativas para os clientes se financiarem. Ao longo dos anos 1990, a medida em que a concessão de crédito crescia, o consórcio manteve sua resiliência, mesmo no período de maior abertura de crédito entre 2000 e 2010, beneficiado principalmente pelo aumento da renda dos clientes. Já no contexto atual, as expectativas para 2017 são positivas. Pretendemos crescer 25%, mesma margem alcançada no ano passado”, conta.

Uma boa alternativa
No ano de 2016, a Bradesco consórcios comercializou cerca de 480 mil cotas e nos cinco primeiros meses de 2017 registrou um total de 177 mil novas cotas, o que representa um crescimento de 17,3% em relação ao mesmo período de 2016, atuando com margens expressivas dentro dos segmentos de imóveis, automóveis, caminhões, máquinas e equipamentos.

De acordo com os balanços positivos divulgados e também dados recentes do segmento, a divisão de consórcio do Bradesco conserva uma previsão otimista diante dos resultados de 2017, onde espera superar sua margem histórica de crescimento anual da ordem de 10%. “O consórcio é sempre uma boa alternativa para o consumidor, seja qual for o cenário econômico. É um produto de grande credibilidade e consolidado no mercado entre as formas mais econômicas para adquirir bens pelo seu caráter democrático, atende diversos perfis de públicos com parcelas acessíveis e possui planos atrativos e por isso registra adesão crescente ao longo dos últimos anos”, considera José Sérgio Bordin, diretor da Bradesco Consórcios.  

Situação do crédito
De modo geral, a participação do crédito na economia brasileira é muito baixa no comparativo internacional, representando 48% em maio deste ano, segundo o Banco Central, o que indica que há lugar para crescer. A ampliação do acesso das famílias e empresas ao mercado de crédito passa necessariamente pela resolução de questões estruturais, tais como os elevados spreads praticados no país, por sua vez, devido a problemas como os muito substanciais índices de inadimplência, altos custos operacionais associados ao ambiente de negócios brasileiro; elevado volume de direcionamento compulsório de crédito e de subsídios creditícios e, ainda, ambiente competitivo no setor bancário. 

Todos estes fatores elencados são limitantes ao aumento do crédito tanto sobre a parcela bancarizada da população, quanto ao próprio processo de bancarização das famílias. “No curto prazo, espera-se que a melhora da economia reative as concessões, mas os volumes devem continuar muito abaixo dos praticados em anos anteriores. Nossas projeções para as concessões de crédito livre à pessoa física são de: +3,1% em 2017 e +5,5% para 2018. Para pessoa jurídica, as estimativas são de -2% em 2017 e de +10% em 2018. Ambas as projeções são em termos reais, descontando a inflação”, avalia João Morais, economista especializado em crédito da Tendências Consultoria Integrada.

Ao longo da última década, após acumular expansão, a situação de crédito no Brasil aponta uma expressiva desaceleração nos últimos anos. Em um processo que se iniciou em 2014, com a diminuição das operações para pessoa jurídica, dados de um exercício interno disponibilizados pela Tendências Consultoria Integrada a partir da compatibilização de diferentes séries históricas, apontam que as concessões de crédito livre para pessoa jurídica são as mais baixas desde 2000, desconsiderando concessões para financiamento imobiliário e desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – a avaliação é referente a valores de maio deste ano. 

Tais resultados, estão diretamente relacionados com a crise econômica e o excessivo endividamento no período anterior à crise, com efeitos sobre spread, inadimplência e propensão da demanda e oferta no mercado. Em 2017, as últimas informações econômicas apontam para recuperação das concessões à pessoa física, em especial para crédito pessoal e financiamento de veículos – o que evidencia o início de um processo de recuperação do consumo das famílias.

Bons tempos
No Brasil da década de 1960, nascia o sistema de consórcios. Embalado pela recente instalação da indústria automobilística em território nacional, quando a realidade da oferta de crédito era bastante escassa, funcionários do Banco do Brasil conceberam a ideia de formar um grupo de amigos com a finalidade de constituir um fundo de aquisição de automóveis para todos os que participassem da arrecadação de recursos.

Em uma ação inovadora para os padrões da época, eles se uniram e cada um contribuiu com uma parcela do valor do carro e como solução mais justa, decidiram sorteá-lo. Estava lavrado, assim, um mecanismo de concessão de crédito isento de juros com o propósito da aquisição de bens e serviços. A origem do consórcio teve relação direta com a indústria automobilística e durante muito tempo este segmento foi o seu único produto. Em 1967, o sistema despertou o interesse do poder público que estabeleceu normas sobre depósito de recursos captados de consorciados devido à sua popularização.

O mecanismo consorcial também atraiu a atenção de outros países e, em meados da década de 1960, começaram a surgir empresas de consórcios em diversos pontos da América Latina como Argentina, México, Paraguai, Peru, Venezuela e Uruguai. Ao longo da década de 1970, o sistema de consórcios ganhou tutela legal através da Lei 5.768/1971. Outros grupos de produtos surgiram nos anos 1980 como eletroeletrônicos, onde os televisores e videocassetes eram os itens mais desejados. Motocicletas e os chamados veículos pesados também foram acrescentados ao sistema.

A partir de 1988, o mecanismo passa a ter sua importância econômica e social reconhecida na Constituição Federal e, em 1991, passa a ser fiscalizado e regulado pelo Banco Central do Brasil. Nos anos subsequentes, foi agregado entre os produtos consorciais o segmento imobiliário. Também neste período, o mecanismo chegou à Europa e, em países como Portugal, Espanha e o Leste Europeu – aqueles direcionados para a livre formação de mercado aos moldes capitalistas. Já em 2008, houve a edição do que pode ser considerado como marco legal do sistema de consórcios através da Lei 11.795/2008, voltada exclusivamente ao mecanismo. E por fim, o espectro contemporâneo é caracterizado pela gama altamente diversificada de produtos e serviços passando por caminhões, ônibus, embarcações, aeronaves, kits de casas pré-fabricadas, construção e reformas.