O período da crise econômica não muda as necessidades básicas das pessoas, por isso, há um comportamento inerente ao ser humano: a sobrevivência. Na onda do desemprego surfam os empreendedores – gente que foi demitida, por exemplo, e quer recomeçar diferente. Portanto, ter o próprio negócio se transformou em opção para muitos brasileiros. O segmento de franchising tem se destacado para estes novos investidores, sejam aqueles com capital para uma grande rede ou para uma microfranquia. 

O setor apresentou um elevado desempenho em 2016 – fechou com faturamento de R$ 151,2 bilhões e crescimento de 8,3% em relação ao ano anterior. A projeção para 2017 é de um aumento de 7% a 9% na cifra. Hoje, no Brasil, são mais de 3 mil marcas franqueadoras, que gerem uma rede de 142,6 mil unidades franqueadas. Ao todo, foram criados 1,192 milhões de empregos formais somente no primeiro semestre de 2016, o que ajudou a minimizar o forte abalo do desemprego. O primeiro trimestre de 2017 já se mostra melhor sobre o mesmo período do ano anterior – o resultado foi de R$ 36,8 bilhões em faturamento, frente a R$ 33,7 bilhões no primeiro trimestre de 2016.

Em 2016, o segmento de franchising cresceu 8,3% em relação ao ano anterior e fechou com o faturamento de R$ 151,2 bilhões

Setores em alta
O franchising brasileiro é multissegmentos. São inúmeras redes de alimentação, casa e construção, comunicação, informática e eletrônicos, entretenimento, hotelaria, moda, saúde, beleza e bem-estar, educação e serviços. Dentre todas as opções, algumas vêm se destacando e saltando aos olhos daqueles que pretendem abrir uma franquia.

Um exemplo que Juarez Leão, diretor institucional da Associação Brasileira de Franchising (ABF), apresenta é o segmento de serviços. Para ele, as novas necessidades das pessoas geraram novas demandas de produtos e serviços. “Existe um crescimento muito grande neste segmento, e não é à toa. Com a mulher no mercado de trabalho, por exemplo, se fazem necessários alguns serviços de apoio, desde o transporte das crianças para colégio até mesmo a limpeza doméstica”, explica.

A empresa Maria Brasileira observou este novo nicho de mercado ainda em 2013 e desde então segue a missão de facilitar a vida dos brasileiros. A lista de serviços prestados é ampla: limpeza doméstica, jardinagem, limpeza de piscina, cuidador de idosos, baby sitter, dog walker, entre outros.
“Percebemos hoje que a coisa mais escassa que a população tem é o tempo, e vimos que poderíamos ganhar dinheiro facilitando a vida das pessoas”, diz Felipe Buranello, sócio-proprietário da Maria Brasileira. Hoje, existem 169 estabelecimentos da empresa no Brasil, sendo duas unidades próprias e o restante franqueadas. A expectativa é chegar a 190 até o final de 2017.

Após todo o processo de avaliação do candidato, aprovação e a assinatura do contrato para a abertura de uma unidade, o franqueado precisa fazer um treinamento de cinco dias na matriz, que fica em São José do Rio Preto. “É um período de capacitação em todos os aspectos, teórico, prático, de sistemas e operacionais, para que ele replique na ponta”, comenta Buranello. Embora a contratação dos serviços possa ser feita via aplicativo, e-mail ou telefone, todo franqueado precisa ter obrigatoriamente um ponto comercial. “Tem a nova geração que não quer ligar para contratar um serviço, em um clique quer ter o seu pedido registrado e atendido. Mas ainda tem um público mais tradicional, que gosta de conversar com algum atendente antes de contratar. Por isso é preciso montar a loja”, explica o diretor.

O envelhecimento da população também gerou um novo mercado. “O cuidado em casa para idosos e também para pessoas que fizeram algum tipo de cirurgia tem aumentado. São demandas de novos serviços. É um segmento que está em franco crescimento”, comenta o diretor da ABF.
A criação da Home Angels surgiu exatamente por esta necessidade. Marco Imperador, sócio-diretor da rede, conta que precisou dos serviços de uma cuidadora para sua avó e encontrou dificuldade na época. “Era difícil contratar alguém e, quando encontrava, eram despreparados, eu precisava sempre fazer uma supervisão. Podiam até ser bem-intencionados, mas eram despreparados”. 

Os atendimentos de home care oferecidos pela empresa são contratados por pacotes, de acordo com a necessidade dos clientes. Os cuidadores e supervisores são sempre, obrigatoriamente, técnicos de enfermagem e a unidade franqueada oferece um treinamento técnico específico para cada necessidade dos pacientes e de acordo com sua limitação. Entretanto, o franqueado não precisa ser da área da saúde. “Do franqueado é exigido apenas a função de gestor, muita disposição e principalmente gostar do relacionamento humano. Afinal, nós entramos dentro da casa das famílias”, diz Imperador.

Hoje são 177 unidades da Home Angels no Brasil e a expectativa é terminar o ano com 200. A meta para 2020 é chegar a 400 unidades. “Com as unidades que temos atualmente, nós conseguimos atender apenas 30% da demanda. Para cada dez pessoas que nos ligam do Brasil inteiro, precisamos falar para sete que não temos franqueados localmente. Em muitas cidades temos clientes em potencial e cuidadores já selecionados e cadastrados para trabalhar, mas falta a franquia para fazer a interface”, explica.

Alimentação sempre foi e vai continuar sendo um importante segmento. E, dentro deste setor, algumas áreas registram um crescimento superior. “As pessoas estão cada vez mais em busca de uma melhor qualidade de vida. A alimentação especializada, que também não deixa de ser saudável, tem crescido, como os alimentos veganos e vegetarianos. Atualmente, temos um grande número de pessoas com intolerância a uma série de alimentos, como à lactose e glúten”, exemplifica Leão.

De acordo com um estudo da agência de pesquisas Euromonitor Internacional, entre 2009 e 2014, o mercado de alimentação voltada à saúde cresceu 98% no Brasil. Em 2015, o mercado mundial do setor movimentou mais de US$ 27 bilhões e nos próximos anos deverá crescer cerca de 20%. “A alimentação saudável é uma tendência que já virou realidade no Brasil”, afirma Charles Martins, CEO do Mundo Verde. A rede teve um crescimento expressivo de 2015 para 2016 – 10% no faturamento e o número de franquias foi de 305 em janeiro de 2015 para 381 em janeiro de 2016. Atualmente o Mundo Verde possui 400 lojas distribuídas pelo país e a rede planeja abrir 62 outras até o final do ano. “Nosso objetivo no momento é abrir mais lojas no Brasil e consolidá-las”, comenta o CEO.

O investimento inicial da rede varia entre R$ 300 mil e R$ 400 mil, valor que contempla a taxa de franquia, a montagem, os equipamentos, os treinamentos necessários e o estoque inicial, com retorno de investimento entre 24 a 36 meses. O faturamento mensal da rede é de 48 milhões e a taxa de royalties é de 5%.
Ainda sobre qualidade de vida, o diretor da associação ressalta que o público está muito aberto e à procura de maneiras novas de se exercitar, como academias personalizadas, crossfit, yoga e pilates.

No que tange o envelhecimento da população, estão começando a surgir empresas especializadas com produtos e serviços para a população da terceira idade. “Não é só cuidar do idoso.  A quantidade de pessoas acima dos 60 anos que está superativa é cada vez maior. Não só estão tendo uma longevidade maior, mas estão bem e com mais vigor, com capacidade de compra, porque elas se prepararam para isso”, ressalta Leão, da ABF. Para ele, quando se pensa na terceira idade “tem que ter o olhar bem amplo, porque quando se fala no assunto, a primeira coisa que todo mundo pensa é em um enfermeiro para cuidar do idoso em casa para não precisar ir para o hospital, apenas. É isso também, mas não somente”.

Novos modelos e formatos
Além de multissegmentos, o setor também engloba um leque de formatos para perfis variados de investidores. Recentemente, algo que tem chamado muito a atenção, principalmente daqueles que tem um capital pequeno, mas querem investir, são as microfranquias e os modelos home office. “Vale lembrar que o processo para uma microfranquia é igual ao de um modelo padrão, a única diferença é que o investimento total, incluindo a taxa de franquia e a montagem da loja, não pode ser superior a R$ 90 mil”, explica Leão, da ABF.

Dois fatores contribuem para a maior procura destes formatos. “Muitas redes desenvolveram este modelo para ocupar um espaço, por exemplo, que era de executivos que saíram das empresas e não conseguiram se recolocar no mercado de trabalho, que tinham um capital pequeno e queriam empreender em um negócio”, afirma o diretor da ABF. Uma destas redes que se adaptou foi o Grupo Habib’s. Otaviano Costa, gerente nacional de expansão  da companhia, explica que, embora a excelência dos restaurantes Habib’s seja no formato completo, o investimento acaba sendo muito alto. “É onde o resultado é melhor, mas se partir com o investimento do zero, ela passa dos R$ 2 milhões”.

Ao procurar outras soluções de mercado e chegar a outros pontos comerciais, desenvolveram o mesmo restaurante sem as opções de drive thru e delivery, e o investimento caiu para cerca de R$ 1,5 milhão. Um terceiro modelo é o Habib’s Select, que nada mais é do que uma loja menor, apenas com os principais produtos e com cardápio reduzido. “Eu consigo reduzir o espaço e o investimento para R$ 800 mil”, afirma o diretor. Nesta opção, o valor investido consegue ser 60% menor que a loja padrão.

Costa ainda ressalta que o tratamento interno é dado de forma única, independentemente se o investidor vai abrir o modelo Select ou convencional. “O mais importante é que o Habib’s sabe onde quer estar. Temos um planejamento de expansão, já sabemos o modelo e lugar onde queremos implementar, e damos as diretrizes para o franqueado”. Outro motivo que impulsiona estes novos formatos é a ida para cidades menores. “Antes, as franquias iam para cidades acima de 200 mil habitantes com potencial econômico maior. Ao fazer uma análise de retorno de investimento para cidades de menor potencial, às vezes não cabia uma franquia. Com esses modelos, como o investimento é mais baixo, é possível entrar em cidade de menor porte”, explica o diretor da ABF.

Este fator motivou a NYS Collection Eyewear, rede franqueadora americana de óculos, a se adaptar. A alternativa ao diminuir o tamanho da operação foi fazer um modelo diferente – o home based. “Pensamos em como conseguiríamos levar o nosso produto aos mais de 5 mil municípios brasileiros que não tem shopping. Abrir uma loja em uma cidade de 50 a 100 mil habitantes não vale a pena e também não tem o perfil da marca. Fizemos um estudo de como isso poderia acontecer e criamos a NYS Direct”, conta Cristiane Capella, diretora na marca no Brasil. O modelo é compacto e de venda direta, formatado em uma mala com capacidade para 50 peças.

O investidor do modelo home based tem um treinamento de como chegar ao cliente, principalmente corporativo. “O material de transporte para poder levar tem uma exposição bem interessante, e o principal é que o franqueado não tem um custo fixo”, conta. A meta é fechar o ano com 50 unidades de franquia direta.

Por onde começar?
O modelo de negócio de franquias atrai pelo caminho relativamente mais curto, dado que o ‘pacote’ da empresa reúne basicamente tudo que é necessário para iniciar os trabalhos – cabe ao investidor o empenho para fazer dar certo. Mércia Machado Vergili, diretora da GSPP SP, consultoria especializada no segmento de franquias, orienta que o investidor saiba primeiramente o tamanho da operação que quer montar, de acordo com o capital que se tem em mãos. “É importante, porque existem muitos formatos, desde microfranquias até megafranquias”.

O diretor da ABF orienta que o investidor dê o primeiro passo escolhendo um segmento que ele goste e tenha aptidão. “Tem gente que pergunta para nós qual é a franquia que dá mais dinheiro ou está na moda. Eu posso até falar para você o nome de uma empresa, marca ou segmento que você não tenha afinidade nenhuma, e a chance de você investir e não dar certo é grande”. Leão conta que franquias consagradas no mercado, como O Boticário ou McDonald’s, por exemplo, já fecharam algumas lojas e, quando analisaram o porquê, identificaram que o franqueador abriu a operação sem realmente ter a aptidão para o segmento.

Outra situação é quando a franquia é um plano B e o franqueado não se dedica integralmente ao negócio. Mais um critério que os investidores são orientados a adotar é a análise de quem é associado da ABF. Das mais de 3 mil marcas, apenas 1,1 mil são associadas. “Para admitir uma rede sócia na associação, nós fazemos uma série de avaliações. São documentos, serviços prestados pela rede, manuais de franquia, enfim. Essas redes que estão na ABF passaram por isso”, explica.

Um segundo recorte é conhecer as redes associadas que têm o Selo de Excelência em Franquia. “Nós contratamos todo ano uma empresa de pesquisa que observa a satisfação do franqueado com a rede, se ele abriria de novo o mesmo negócio, se a lucratividade prometida é a mesma, como é a relação com o franqueador, se recebe o devido suporte. De acordo com as notas, acumula-se uma pontuação”. 

Risco menor, mas não zero
O risco ao se abrir um novo negócio precisa estar em pauta já no planejamento inicial. De acordo com o estudo “Sobrevivência das Empresas no Brasil”, divulgado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a taxa de mortalidade de empresas com dois anos de operação é de 23,4%.
Na análise do segmento de franchising, o cenário muda um pouco. Segundo Leão, a taxa cai para 4% para unidades com dois anos de operação. “Temos uma condição de longevidade de negócio maior. Ao executar uma ideia e criar uma marca nova, sem ter reconhecimento de mercado, obviamente o risco é mais alto. Quando olhamos para o setor de franquias, encontramos marcas mais estabelecidas e, consequentemente, o nível de risco diminui e a taxa de sucesso aumenta”, afirma.

Quanto investir
Ao comprar uma franquia, deve-se levar em consideração alguns fatores para entender o valor total de uma unidade. O investimento inicial pode englobar a taxa de franquia, a montagem da loja e os equipamentos, uma possível reforma do imóvel onde será instalada, os treinamentos e o estoque inicial. Além disso, tem o pagamento dos royalties e a taxa de publicidade. Dentro do Portal do Franchising, da ABF, é possível encontrar franquias a partir de R$ 1,8 mil e redes que estão na casa dos milhões. A variação também ocorre dentro de uma mesma franquia, caso ela apresente modelos de negócios diferente, como loja e home office, por exemplo.