O jovem se apresenta, dá boa tarde e dispara a pergunta: “Senhor presidente, durante a sua gestão muitas empresas foram privatizadas. Quais áreas você acha que não devem ser privatizadas?” Na mesa, logo à frente do grupo de estudantes e professores, Fernando Henrique Cardoso situa o contexto das privatizações ocorridas em seu governo [1995-2002] e encerra afirmando que “tem que misturar, tem que balancear”. “Você não vai ter num país moderno nunca a possibilidade de o mercado regular tudo. Não vai regular. Você tem que ver qual o benefício que o povo tem nesses negócios e qual é o interesse geral. É o governo que tem que olhar para o benefício geral”, conclui.

A cena se passou em outubro deste ano, na sede da Fundação Fernando Henrique Cardoso, no centro de São Paulo. Os estudantes que estiveram no encontro participam dos projetos da Associação Comunitária Despertar, ONG que atua há mais de vinte anos na periferia da zona sul da cidade, e ao longo de quase uma hora perguntaram ao ex-presidente sobre temas como economia, Amazônia, Petrobras e violência. A íntegra da conversa está disponível no site da fundação na internet (fundacaofhc.org.br) e também num canal do Youtube.

O encontro faz parte da série Diálogos com um presidente, uma das iniciativas regulares mantidas pela Fundação FHC. Criada em 2004 – inicialmente como instituto, passando a fundação em 2010 –, a instituição cumpre fundamentalmente dois papéis, de acordo com a definição do próprio Fernando Henrique: de uma parte, preservar um imenso e variado acervo composto de textos, cartas, livros, anotações, fotografias, objetos, vídeos etc. acumulado em suas muitas décadas de atuação como sociólogo, professor, senador, ministro e presidente. De outra, funcionar como “um lugar de debates sobre a democracia e o desenvolvimento” e “contribuir para ampliar a compreensão e disseminar conhecimento sobre o País e seus desafios, com os olhos abertos para o mundo”.

À frente da organização dos debates organizados pela fundação está o cientista político Sergio Fausto, que trabalhou com o ex-presidente durante seus mandatos em Brasília e hoje responde pela superintendência-executiva da instituição. Ao longo do ano, são realizados cerca de 40 seminários e mesas-redondas que exploram um leque de temas ligados fundamentalmente aos propósitos originais citados na definição de FHC.

É preciso aperfeiçoar a democracia representativa, e as novas tecnologias de comunicação e informação são ferramentas que potencialmente oferecem essa possibilidade, acredita o superintendente da fundação FHC

“Temos uma grande concentração nas áreas de política e economia do Brasil e política e economia internacionais, mas não nos restringimos a esses temas”, explica Fausto. Questões como desenvolvimento sustentável, a relação entre agronegócio, meio ambiente e desenvolvimento econômico, utilização de recursos naturais e energia “são nossos temas permanentes”, completa.

No cenário internacional, estiveram na pauta recente dos seminários – apenas para dar alguns exemplos –, a discussão sobre a vitória de Emmanuel Macron para a presidência francesa e suas relações com o nacionalismo e o populismo; as eleições parlamentares da Argentina; e a situação política e econômica da China. Numa perspectiva que situa o Brasil em cenários globais, um seminário no começo de dezembro comparou os métodos e instrumentos legais para a delação premiada utilizados aqui e nos Estados Unidos.

Internet e mobilizações

Assim como os temas não se restringem ao Brasil, os convidados para compor as mesas também podem vir – e frequentemente vêm – do exterior. “Pensamos na qualidade e na diversidade de ideias e opiniões sobre os temas tratados”, explica o superintendente-executivo, salientando também o caráter não partidário na definição de assuntos e conferencistas. A participação nas programações é gratuita, bastando fazer inscrição prévia na internet, e o conteúdo dos debates é disponibilizado na íntegra na rede.

Outra iniciativa da Fundação FHC destacada por Sergio Fausto é a Plataforma democrática, mantida em parceria com o Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, com sede no Rio de Janeiro. Por meio dela são concretizadas pesquisas, publicações e seminários sobre as transformações da sociedade e da política na região e no sistema internacional. Em seu site (www.plataformademocratica.org) é possível encontrar um vasto acervo em vídeo e texto.

“Um dos temas nos quais a Plataforma tem se concentrado é o impacto da internet, em particular das novas mídias sociais, na comunicação política e nas formas de organização política”, ressalta. Essa discussão está presente em títulos como Internet e mobilizações sociais: transformações do espaço público e da sociedade civil e Ativismo político em tempos de internet, à disposição para download.

“Quando fazemos isso, queremos estabelecer um diálogo com vários públicos, inclusive com gente que não está na política, mas de alguma forma quer influenciá-la – geralmente os jovens. A ideia é elaborar estudos sobre esses grandes temas para os quais ninguém tem respostas prontas e oferecer análises que ampliem o alcance da reflexão sobre a crise da democracia representativa”, diz Fausto. “Da nossa perspectiva, não acreditamos em substituí-la por outras formas supostamente superiores. Mas evidentemente é preciso aperfeiçoar a democracia representativa, e não tenho dúvida de que as novas tecnologias de comunicação e informação são ferramentas que potencialmente oferecem essa possibilidade”.

“Um homem que acumula”

A lei 8.394 começou a ser gestada no período de José Sarney [1985-1990] e foi promulgada em dezembro de 1991, no mandato de Fernando Collor. Seu objetivo é dispor sobre “a preservação, organização e proteção dos acervos documentais privados dos presidentes da República”. No papel, parece claro – mas, como em tantos outros casos da legislação brasileira, na prática a teoria é outra.

Que o diga a antropóloga Danielle Ardaillon, curadora do acervo mantido na Fundação FHC. “A lei já coloca uma dúvida por tratar de acervo privado de um homem público”, diz. Como os documentos emanados da Presidência e dos ministérios devem ficar sob a guarda da Casa Civil e ter posteriormente como destino o Arquivo Nacional, cabia definir o que seria o acervo privado. No caso de Fernando Henrique, a fundação é responsável por tudo aquilo que o próprio ex-presidente quis conservar – e é muita coisa. “Fernando Henrique é um homem que acumula. Não sabe jogar nada fora”, define Danielle.

O acervo tem cerca de 300 mil documentos, que vão de papéis, livros e anotações a parte das cartas enviadas pela população durante o seu governo, passando por fotos, vídeos, gravações de todos os pronunciamentos e entrevistas ao longo do mandato, condecorações e presentes até todo um universo referente à vida familiar e privada de Fernando Henrique e Ruth Cardoso, sua primeira esposa (falecida em 2008), incluindo cerca de 14 mil volumes da biblioteca do casal. Há ainda muitos documentos do pai e do avô do ex-presidente, que também tiveram envolvimento com a política.

“Um documento não está aqui por acaso, mas porque o seu dono ou destinatário quis guardá-lo. A Ruth, por exemplo, conservou um caderno da mãe com modelos de pontos de tricô. Cada documento diz algo de quem o guardou e significou alguma coisa em algum momento”, diz Danielle. “O presidente teve muita visão querendo fazer isso porque tem a noção da história. Ele nasceu numa família que participou ativamente da história do Brasil”.

O futuro do passado

Danielle trabalha com FHC desde 1978, organizando sua correspondência e documentação como sociólogo, professor e membro de entidades e organizações que ele integrou ou liderou no Brasil e no exterior. Também é a responsável pela transcrição das fitas gravadas pelo próprio Fernando Henrique em seu governo, base dos três volumes já lançados dos Diários da Presidência (Companhia das Letras) – estava acostumada, portanto, a lidar com o perfil “acumulador” do ex-presidente. À frente de um acervo oficial, entretanto, era preciso criar uma forma de arquivar todo o material nos moldes exigidos pela legislação e no perfil do novo instituto.

Para se aprofundar no assunto, a antropóloga visitou fundações de políticos e ex-presidentes, especialmente dos Estados Unidos, onde conheceu instituições criadas para receber a documentação de nomes como Jimmy Carter, John Kennedy e Ronald Reagan, entre outros. A curadora se amparou então em historiadoras e arquivistas experimentadas para criar uma metodologia de classificação e descrição de documentos específica para acervos privados de homens públicos. “É uma metodologia bem respeitada. Já temos um nome no mundo dos arquivos, e isso é meu orgulho”, destaca.

Cerca de 90 mil documentos do acervo estão disponíveis para acesso na internet. As consultas físicas na sede são permitidas somente para pesquisadores. Visitantes podem conhecer exposições como Um Plano Real, que retrata o processo de estabilização da economia nos anos 1990, e ver as coleções de charges publicadas na imprensa durante os mandatos de FHC. São aproximadamente 7 mil visitantes por ano.

Uma das preocupações de Danielle Ardaillon – francesa naturalizada brasileira, viúva de um paraibano, mãe, avó e agora bisavó de brasileiros – é com a manutenção, preservação e conservação dos documentos, até porque a tecnologia muda frequentemente os suportes, e mídias mais recentes, como as fitas VHS, se deterioram com velocidade muito maior do que antigas fotografias em preto e branco, cuja heroica resistência atravessa as décadas. “No arquivo você trabalha o futuro do passado”, justifica. O superintendente-executivo Sergio Fausto completa: “A ideia do presidente é de dar perenidade a esse acervo, se resguardando para eventuais riscos no momento em que o grupo original que o criou, ele à frente de todos, não estiver mais aqui”.

O administrador de uma agenda atribulada

Uma espécie de dínamo a fazer rodar as engrenagens dos bastidores da fundação, George Legmann é outra personalidade que acompanha o ex-presidente há muito tempo. Além de gerir a agenda privada de palestras de Fernando Henrique desde a saída do Planalto, sua empresa de marketing cultural cuida das publicações de FHC e do ex-presidente americano Bill Clinton na América Latina.

Legmann trata das relações com os patrocinadores e apoiadores das iniciativas realizadas na atribulada agenda da Fundação FHC. “O Legmann tem uma dedicação enorme à fundação. Digo com toda a sinceridade, porque isso é absolutamente verdadeiro, que não seríamos o que somos sem o seu empenho e sua competência”, atesta Sergio Fausto.

Ao lado do superintendente-executivo, também está sob a responsabilidade de Legmann a interlocução da fundação com membros da sociedade consular de todo o mundo acreditados na cidade de São Paulo, segunda maior entidade do gênero no planeta.

Na vida privada, George Legmann se empenha na causa de testemunhar sobre o Holocausto e participa de encontros e atividades de sobreviventes do horror nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Sua família, de origem húngara, foi deportada para os campos de concentração da Alemanha em abril de 1944. Sua mãe estava grávida, e ele nasceu meses depois no campo de Dachau, próximo a Munique. Foi uma das poucas crianças a ter saído com vida, nos braços da mãe, de um campo de concentração quando da libertação pelas tropas aliadas.

Legmann chegou ao Brasil aos 16 anos, vindo da Romênia, para onde os pais haviam retornado após o fim da guerra, e estudou na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI). Mudou-se depois para a Suíça, onde completou os estudos e fez pós-graduação em Marketing Cultural. De volta ao Brasil, radicou-se em São Paulo. “George sempre falou onde nasceu, mas ver tudo isso confirmado e sentir a dor do Holocausto é impressionante. Acho muito importante que as testemunhas falem e sejam ouvidas”, disse FHC numa reportagem publicada sobre Legmann no jornal O Estado de S. Paulo.

Manutenção é feita com patrocínios e doações

Enquanto um instituto é uma sociedade de direito privado na qual os sócios definem seus objetivos e rumos, uma fundação está submetida à curadoria de órgãos como o Ministério Público para que seu patrimônio e recursos sejam aplicados em função daquilo que seus estatutos determinam. Essa foi a principal razão para a transformação do Instituto FHC em Fundação FHC, em 2010.

A manutenção financeira da instituição se dá basicamente com doações para o fundo patrimonial – na forma de endowments – e patrocínios para a programação de seminários e debates. Não são aceitos patrocínios de empresas públicas ou estatais. Já os recursos para a manutenção da equipe de doze pessoas responsáveis pelo acervo e a estrutura de tecnologia da informação e banco de dados são captados em projetos via Lei Rouanet.