Por Beatriz Santos, de São Paulo

Para Maria Lúcia Tereno, vice-presidente global de Recursos Humanos da Boehringer Ingelheim, multinacional farmacêutica com sede na Alemanha, “diferentes pensamentos geram opiniões variadas, que podem levar a diferentes e inovadoras ideias”.

A executiva iniciou sua trajetória na companhia em setembro de 2001 como gerente de produtos sênior na área de Saúde Humana. Em 2003, foi a primeira profissional feminina brasileira a receber a promoção para trabalhar na área de marketing global na sede alemã, em Ingelheim.

Após ser promovida a diretora executiva regional para o Japão e a Austrália, trabalhou no projeto People Strategy, que se tornou a base estratégica global de Recursos Humanos da empresa. Na ocasião, Maria Lúcia foi convidada para compor o escritório global de Diversidade e Inclusão da Boehringer Ingelheim.

Em entrevista exclusiva à AméricaEconomia, a executiva fala sobre as dificuldades para chegar ao topo sendo mulher, a política de inclusão de gênero tanto na sede quanto nas afiliadas e a nova era no mercado de trabalho.

AméricaEconomia – Você atualmente é vice-presidente global de RH de uma grande multinacional, mas acredito que, sendo mulher, tenha passado por alguns obstáculos para chegar ao topo. Quais foram as maiores dificuldades para chegar onde chegou?

Maria Lúcia Tereno – De uma maneira geral, na sociedade, as mulheres ainda precisam provar constantemente o seu potencial para ocupar cargos de liderança. Assim, a trajetória até os cargos executivos pode ser um pouco mais demorada. Para mim, o segredo foi conquistar o meu espaço num ambiente predominantemente masculino por meio do pensamento lógico e racional, mas mantendo a minha identidade e ressaltando uma importante qualidade de liderança: a inteligência emocional, que hoje é um diferencial importante para gestores em qualquer área.

AE – Como está a Boehringer Ingelheim em relação à presença das mulheres em cargos de liderança e no quadro de colaboradores em geral?

"É preciso criar um ambiente em que as ideias sejam incentivadas, ouvidas e valorizadas"

MLT – Globalmente, entre os 50 mil funcionários, há um bom equilíbrio em termos de gênero: cerca de 50% dos colaboradores são mulheres. Já no nível executivo sênior global, esse número é de aproximadamente 15%, e estamos trabalhando para aumentá-lo cada vez mais.

Na Boehringer Ingelheim, focamos na diversidade de pensamento, que inclui tanto elementos como gênero, nacionalidade e diferentes gerações, como também o que chamamos de diversidade adquirida, composta por experiências internacionais, cross-funcionais e até mesmo de outras indústrias. É essa diversidade que resulta em soluções inovadoras, justamente o que buscamos todos os dias para atender às necessidades de nossos clientes. Esse trabalho deve ser constante: estamos comprometidos em aumentar a diversidade na empresa, principalmente no nível executivo, tendo estabelecido medidas internas e objetivos de longo prazo para isso.

AE – Por ter operações em todo o mundo, a empresa tem uma força de trabalho bastante diversificada. Como se dá a questão da inclusão nesse sentido? Existe algum código de conduta que venha da matriz?

MLT – Aumentar apenas a diversidade de pensamento para gerar inovação não é o suficiente. É preciso estabelecer um ambiente em que as ideias são incentivadas, ouvidas e valorizadas, criando, na prática, a inclusão. Na Boehringer Ingelheim, acreditamos que, ao desenvolvermos uma cultura de inclusão, podemos nos beneficiar da diversidade de pensamento. Assim, para tratar desta temática tão importante para todos os colaboradores, o escritório global de Diversidade&Inclusão (D&I) da empresa está priorizando programas e iniciativas dentro dessa área.

AE – Como tem sido a experiência multicultural da companhia, dada a sua atuação em diferentes mercados?

MLT – A empresa possui operações em mais de 40 países e mercados. Portanto, a diversidade cultural é enorme entre os colaboradores. Atualmente, queremos investir na identificação desses talentos nos diferentes mercados em que atuamos, criando, assim, um pipeline para desenvolvê-los. Tanto a sede da nossa empresa quanto as afiliadas estão comprometidas com esse objetivo.

AE – Qual é a relação da temática da diversidade e da inclusão com a inovação?

MLT – Nós enxergamos a diversidade como um benefício coletivo e não individual, pois as chances de gerar ideias inovadoras dentro de um grupo diverso são maiores do que dentro de um grupo homogêneo. Quanto mais diversidade de pensamento há dentro de uma cultura de inclusão – aquela em que os colaboradores são ouvidos e valorizados –, maior será o número de soluções inovadoras criadas e destinadas ao nosso público consumidor. Costumo dizer que diversidade é o mix, e inclusão é fazer o mix dar certo.

AE – Como a diversidade pode ajudar na evolução constante das ideias dentro das companhias?

MLT – Acredito que diferentes pensamentos geram opiniões variadas, que podem levar a diferentes e inovadoras ideias. Trata-se de pensar “fora da caixa”. Uma cultura de inclusão, em que líderes promovem e valorizam essas diferenças, garante a evolução constante das ideias dentro das empresas, ajudando até mesmo a entender públicos-alvo, muitas vezes diversos em sua própria essência.

AE – Vivemos hoje uma nova era no mercado de trabalho, com novos modelos que se diferenciam dos anteriores, como a jornada de trabalho flexível. Qual a tendência para o futuro? Como a Boehringer Ingelheim vem trabalhando essa questão?

MLT – A globalização, o desenvolvimento demográfico da força de trabalho e a digitalização são tendências que impactam o mercado de trabalho, transformando-o. A Boehringer Ingelheim conta hoje com quatro gerações que estão trabalhando juntas, com diferentes expectativas e estilos de atuação.

Para mantermos nossa atratividade aos diversos talentos, incentivando a motivação e o engajamento, criamos opções customizadas e flexíveis, não apenas quanto à jornada de trabalho, como também relacionadas a outros benefícios que atendam às necessidades de nossos colaboradores de diferentes gerações. Investir no bem-estar e na qualidade de vida do funcionário aumenta a motivação, trazendo resultados positivos para o coletivo.

AE – Os processos de contratação de novos colaboradores também têm mudado nos últimos anos?

MLT – A área de contratação é fundamental em qualquer empresa. Na Boehringer Ingelheim, buscamos maneiras de recrutar talentos diversos, olhando não só para a experiência profissional do candidato, como também para o potencial em termos de agilidade de aprendizado e liderança.