No dia 15 de fevereiro o índice Dow Jones apresentou sua maior queda desde 2011: retrocedeu 4,6%. As fortes perdas em Wall Street dispararam o alarme. Vários analistas, além de relatórios como os do Deutsche Bank e do Bank of America Merrill Lynch, anunciaram que as condições para uma crise financeira como a de 2008 estavam se repetindo.

Com o passar dos dias confirmou-se que o retrocesso era mais um ajuste do que uma correção. Apesar disso, mesmo que a economia mundial cresça de maneira sustentável – a ponto de o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter feito projeções de crescimento de quase 4% para 2018 e 2019 –, ficou no ar a lembrança da maneira silenciosa com que a crise financeira de dez anos atrás chegou, além dos diversos sinais semelhantes nos dias de hoje.

Desde então, vozes de todo o mundo tentam descobrir quais são os sinais da tempestade perfeita: superendividamento global, supervalorização de ativos, o Brexit e seus possíveis efeitos, guerra comercial, o populismo e protecionismo de Donald Trump, conflitos geopolíticos.

“Ninguém sabe quando será a próxima crise e quais serão as suas causas. A diferença desta vez é que existem bolhas sendo financiadas com capital e menos com crédito no Ocidente, e isso tem muitas implicações”, afirma o economista espanhol José Carlos Diez, autor de vários livros, entre eles o best seller Hay vida después de la crisis.

A mais recente voz a anunciar a possibilidade de uma crise foi o próprio FMI. Em seu Relatório global de estabilidade financeira, divulgado no final de abril, o fundo advertiu sobre os altíssimos níveis de endividamento, os níveis muito baixos de aversão a risco por parte dos investidores e a inesperada alta da inflação nos Estados Unidos, consequência do agressivo estímulo fiscal lançado pelo presidente Donald Trump. “Tudo isso pode provocar fortes tensões financeiras globais ao forçar os bancos centrais a responder com firmeza”, avalia Tobias Adrian, diretor do Departamento de Assuntos Monetários do FMI.

Donald Trump: estímulo fiscal agressivo e protecionismo. Foto: 123RF

Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o maior hedge fund do mundo, é mais pessimista e projeta que há em torno de 70% de chance de haver uma recessão antes de 2020. Perante esse cenário, os países emergentes e em desenvolvimento – como sempre – ficariam expostos às repercussões relacionadas a um ajuste acentuado das condições financeiras em termos globais. Com previsões desse tipo, cabe perguntar qual o seu nível de preparo para enfrentar essa situação passados dez anos da experiência de 2008.

Injeção monetária

As emissões gigantescas de liquidez geram um problema de excesso de endividamento global e, além disso, uma sobrevalorização dos ativos. Em 2007, a emissão total de dinheiro dos principais bancos centrais somava US$ 5 trilhões, e em 2017 chegava a quase US$ 20 trilhões – um aumento de 400% em dez anos.

“Estamos diante de um crescimento artificial”, diz o economista Ricardo V. Lago, ex-integrante do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento, Banco Mundial e BID. “A ideia inicial da política de injeção monetária depois da crise de 2008 era facilitar um processo de desalavancagem financeira paulatina, evitando-se cair numa recessão e dando-se tempo para colocar em marcha reformas fundamentais. Mas, com a abundância de dinheiro barato, não têm havido nem desendividamento nem grandes reformas”.

Os números atestam o que Lago afirma. O endividamento global, privado e público, é cerca de 40% superior ao registrado antes da crise de 2008. A correlação entre dívida global contra o PIB está em 320%, quando no momento da crise era de cerca de 280%, de acordo com indicadores do Institute for International Finance (IIF). Por sua vez, o FMI advertiu em abril que a dívida disparou, apesar das manobras das entidades reguladoras bancárias das principais potências econômicas – 60% dessa dívida é privada, e 40%, pública.

A metade dos US$ 164 trilhões da dívida global recai em três países: China, Estados Unidos e Japão. “Sem sobra de dúvida, o endividamento global é um dos fatores de risco para uma nova crise, porque 40% desse aumento tem sua origem na China”, diz o economista Willy Zapata, ex-presidente do Banco Central da Guatemala e ex-diretor da Unidade de Desenvolvimento Econômico da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). “Isso se soma à possibilidade de um aumento na taxa de juros como resultado do crescimento das expectativas de inflação”.

Obviamente o problema da crise não se limita apenas às economias avançadas. No ano passado, a dívida externa na América Latina, tanto privada como pública, subiu a US$ 1,47 trilhão – quase 80% a mais do que em 2009, de acordo com dados da Cepal.

“Os setores privado e público necessitam urgentemente baixar os níveis de dívida para melhorar a resiliência da economia mundial e contar com uma maior capacidade de apagar incêndios, no caso de que as condições se tornem adversas”, diz o relatório do FMI. Vitor Gaspar, diretor de assuntos fiscais do fundo, criticou os Estados Unidos dizendo que são o único país avançado que não tem planos de reduzir a sua dívida, uma vez que os cortes fiscais mantêm o endividamento público elevado.

“As políticas monetárias se encontram na armadilha do endividamento que ajudaram a criar”, escreveu William White, presidente do Comitê de Avaliação Econômica e Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), num artigo publicado no jornal Financial Times. “Continuar nesse caminho é ineficaz e crescentemente perigoso, mas retroceder também significa um grande perigo”.

O que White diz coincide com o relatório do FMI: “Um abrupto processo de desalavancagem no setor privado pode ocasionar outra crise financeira no momento em que os tomadores de crédito apertarem o cinto simultaneamente. No caso de uma crise financeira, se a posição fiscal é débil, a profundidade e a duração da recessão resultante se intensificam, porque a capacidade de aplicar uma política fiscal contracíclica é limitada”.

 

“Rapidamente vamos constatar a capacidade de resistência de algumas categorias de devedores frente ao novo cenário da subida das taxas de juros e normalização da política monetária”, diz Ricardo V. Lago. “Os elos mais frágeis da cadeia são o refinanciamento dos vencimentos de títulos sem grau de investimento no mercado de derivados financeiros, já que três quartos do total são derivados de taxas de juros. Então veremos as primeiras tensões”.

Apesar disso, para outros analistas o panorama em relação à dívida não é tão catastrófico. “Não creio que estejamos à beira de uma nova crise de superendividamento global. Isso me parece uma visão catastrofista, como as teorias de conspiração”, afirma o mexicano Jonathan Heath, colunista do jornal Reforma e economista-chefe do México para várias instituições financeiras e consultorias globais. “O mundo fez bastante coisa a partir da Grande Recessão de 2008-2009 em termos de estudar os requisitos para a estabilidade financeira global e para implementar as medidas compatíveis”.

Bolha generalizada

De fevereiro de 2016 a 26 de janeiro de 2018, o índice S&P 500 subiu 57% nos Estados Unidos sem um elemento objetivo que sustentasse esse crescimento, de acordo com muitos analistas. Depois desse período baixou, mas permaneceu em níveis que não correspondem à realidade. “Estamos frente a uma nova bolha generalizada de ações, títulos, bens de raiz, obras de arte, criptomoedas”, afirma Ricardo V. Lago.

Para Willy Zapata, o comportamento atual dos índices de preços das ações nas bolsas é resultado do excesso de liquidez global dirigido a commodities, títulos e empresas existentes. “O valor das empresas é reflexo dos fluxos de benefícios esperados. Hoje vemos um aumento de preços das ações que, em muitos casos, é apenas um reflexo de uma bolha especulativa”, afirma. “Em média, para alguns setores vemos preços em relação com lucros de até vinte vezes o rendimento anual, e isso não é sustentável, mas uma correção de preços na bolsa não necessariamente nos levará a uma recessão”.

De acordo com alguns indicadores de valorização – como a Shiller-CAPE –, a bolsa só esteve tão cara como na atualidade em 1929 e 2000. “A queda nas bolsas, a crescente volatilidade dos mercados e as quedas de credit ratings são sinais premonitórios, e em dez ou quinze meses começarão os defaults”, diz Lago. “Não acredito que voltaremos a ver as cotações de janeiro durante bastante tempo. O mais previsível é que os índices percam 50% a 60% de seu valor quando se completar o ciclo de baixa”.

A esses sinais de tormenta se somam outros, contra os quais as políticas monetárias podem fazer pouco. O relatório A próxima crise financeira, preparado pelo Deutsche Bank, enumera questões que têm preocupado muitos analistas e também instituições como o FMI: o Brexit, no caso de que se rompam todos os laços com a União Europeia; e o Japão, que mantém uma dívida alta e crescimento baixo, e cujo colapso, por se tratar da terceira maior economia do mundo, poderia se tornar uma ameaça global.

E há outra questão que cresce de importância a cada dia: a figura de Trump, que não passa despercebida nos mercados financeiros mundiais. “Embora as consequências do aumento recente do populismo ainda não tenham desestabilizado os mercados financeiros, esse crescimento seguramente aumentará os riscos para a ordem mundial atual”, explica o relatório.

“O possível aumento das medidas populistas e nacionalistas, incluindo o protecionismo, pode causar uma guerra comercial e frear o crescimento global ao romper o funcionamento eficiente das cadeias de valor”, acredita Willy Zapata. “Hoje em dia indústrias como a automobilística e a eletrônica estão entrelaçadas em diferentes países. Até o momento esses aumentos de tarifa ainda não aconteceram e, ainda que haja expectativas negativas, podemos esperar que prevaleçam o senso comum e as negociações multilaterais”.

Para José Carlos Diez, uma guerra comercial pode provocar um estouro desordenado da bolha da bolsa e imobiliária, e ativar de novo a crise bancária. “O maior risco seria um aumento da inflação que force o Fed a acelerar a elevação da taxa de juros”.

Estamos preparados?

“A região não está preparada”, diz taxativamente Juan Carlos Moreno Brid, professor titular da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). “A crise de 2008 foi precedida por uma etapa de aumento na taxa de produtividade, avanços tecnológicos, redução de custos de transporte, tarifas e barreiras ao comércio, que incidiram num aumento sem precedentes da economia global. Na América Latina, a política macroeconômica, por sua parte, havia permitido superávits fiscais e a redução da dívida a cerca de 36% do PIB. A desigualdade também tendia a se reduzir”.

Hoje, afirma Moreno Brid, a situação é diferente. “A região está apenas iniciando sua recuperação (1,3% em 2017), e a dívida subiu a 38% do PIB. É uma situação de debilidade, já que não há espaço fiscal. Ainda que alguns países mostrem níveis altos de reservas, no âmbito estrutural a tarefa não foi concluída e não se aproveitou o momento para a geração de um mercado interno robusto”, diz.

Para José Carlos Diez, a Europa é uma economia com baixo crescimento e com deficiências em sua política econômica para sair da crise – portanto, vulnerável –, enquanto a Ásia depende muito do consumo interno da China e da Índia e cada vez menos do consumo europeu e norte-americano. “A América Latina depreciou suas taxas de câmbio fortemente desde 2014 e os bancos não quebraram porque têm a maior parte dos depósitos e dívidas em moeda local, como acontecia nos anos 90. Isso permite aproveitar de novo o crescimento do comércio mundial e a subida dos preços das matérias-primas. Mas pode ocorrer uma situação parecida com a de 2001, quando a crise tecnológica acabou provocando instabilidade financeira e afetando fortemente a região”, adverte.

O analista mexicano Jonathan Heath é mais otimista sobre o aprendizado e as instituições criadas a partir da crise de 2008. “O BPI, o FMI e as demais organizações mundiais formaram o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês), organismo internacional que persegue a eficácia e a estabilidade do sistema financeiro internacional, criado após a Cúpula do G20 em 2009. No caso específico do México, temos o Conselho de Estabilidade do Sistema Financeiro, que constantemente atualiza seus balanços de riscos. Esses relatórios concluem que estamos bem preparados para enfrentar qualquer risco endêmico”, afirma.

Para Ricardo V. Lago, economista com passagem por várias instituições globais, há uma bolha generalizada de ações e títulos. Foto: 123RF

“Na América Latina, as economias com menor dívida pública e maior posição de reservas internacionais, como Peru e Chile, aguentarão melhor porque poderão enfrentar o temporal sem crises cambiais ou financeiras. Mesmo assim, a crise afetará todos os países”, diz Ricardo V. Lago. “A margem de manobra na região é bem menor do que antes. Os governos estão mais endividados, razão pela qual há menos espaço para políticas anticíclicas e resgates financeiros. Os bancos centrais estão descobertos e as taxas de juros seguem baixas”. Lago conclui que “o entusiasmo sobre o crescimento mundial que vivemos desde meados de 2016 deve ser efêmero. Estamos no final de um raquítico ciclo de alta que se iniciou em meados de 2009, e não no princípio de um novo. Em um ou dois anos os problemas financeiros descritos nos levarão a uma nova recessão mundial”.

 

Flerte perigoso

A resposta à pergunta sobre se haverá uma nova crise parece ser unânime: sim, haverá. O que não se sabe é quando ela chegará e qual será sua origem. O sinal dado pelo FMI colocou em alerta os que desenham as políticas monetárias e fiscais. “O sensato é que os ministérios de Economia e os bancos centrais preparem desde já planos de contingência de políticas fiscal e monetária anticíclicas e também trabalhem cenários com os principais bancos e empresas para antecipar a origem dos problemas”, defende Ricardo V. Lago.

“É preciso tomar medidas fiscais para prevenir bolhas imobiliárias e medidas microprudenciais para evitar um contágio da euforia nos balanços bancários”, diz Moreno Brid. “É preciso haver políticas de longo prazo na América Latina, especialmente de educação e inovação, para aumentar a produtividade e a renda por habitante, e melhorar os salários para evitar a instabilidade social e política que reduz a margem de gestão de crises”.

“A ação decidida dos bancos centrais em 2008 evitou a profundidade de uma grande depressão”, considera José Carlos Diez. “Mas parece que de novo os investidores pensam que no caso de uma crise o Estado voltará a resgatá-los com a compra de dívida, e voltamos a ver excessos como antes de 2007. O crescimento mundial pode continuar por vários trimestres e o homem sempre tropeça na mesma pedra. Mas depois da Grande Recessão deveríamos ter aprendido que é perigoso flertar com ela”.