Por Natalia Vera, de Bogotá*

No último mês de junho, mais de 100 mil mexicanos haviam se inscrito na Escola do Voto da plataforma de cursos online Platzi. Nos cinco módulos do curso, os alunos conheceram detalhes sobre temas como a formação das nominatas de candidatos e os casos que configuram crime eleitoral, o que certamente influenciou seu voto nas eleições gerais do país, realizadas no início de julho.

A Platzi não é uma plataforma especializada em eleições: oferece um leque de mais de 100 cursos em 24 carreiras das áreas de tecnologia, marketing e comunicações, e se transformou numa das startups com maior potencial de crescimento na América Latina. Nasceu em Bogotá em 2010, e quatro anos depois tornou-se a primeira startup da região escolhida pela Y Combinator, a incubadora do Vale do Silício de onde saíram empresas como Airbnb, 
Dropbox e Reddit.

Atualmente, o empreendimento – surgido da parceria do colombiano Freddy Vega com o guatemalteco Christian Van der Henst e dirigido a partir de San Francisco, nos Estados Unidos – conta com 500 mil alunos. A expectativa é chegar a mais de um milhão até o final deste ano.

Assim como a Platzi se transformou numa das plataformas de educação online mais reconhecidas do mundo, outras startups que têm a cidade colombiana como selo de origem vêm abrindo caminho em ecossistemas de negócios mais sofisticados e com maior capital para investir. É o caso da Rappi, plataforma de serviços de entregas criada por três colombianos e que, de acordo com analistas do setor, caminha para se tornar a primeira empresa unicórnio do país.

Esses e outros casos atestam os resultados da decisão tomada por Bogotá há alguns anos de apostar nos empreendimentos de alto impacto. Para conseguir isso, a cidade criou organizações que, em conjunto com o setor privado, procuram intensamente por projetos inovadores. É o caso da Invest in Bogotá, agência encarregada de atrair investimento estrangeiro à capital, que incorporou um forte enfoque em tecnologia, além de prospectar setores tradicionais (como infraestrutura, indústria e serviços).

Juan Gabriel Pérez, da Invest in Bogotá: cidade definiu estratégia de especialização inteligente

“Nos doze anos de fundação da agência, ajudamos a concretizar 300 projetos. Um em cada três projetos de investimento estrangeiro direto que chega a Bogotá passa por nós”, diz Luisa Fernanda Mesa, gerente de promoção de investimentos da Invest in Bogotá. “São iniciativas que equivalem a US$ 2 bilhões de capital e geraram 30 mil empregos com a chegada de empresas como HBO, Mercado Livre e Price Smart”.

Para Juan Fernando Anzola, oficial de investimento sênior da agência, essa atração de capital estrangeiro se deve em grande medida à mudança de imagem do país, graças ao processo de pacificação com os grupos guerrilheiros, o que vem gerando confiança e segurança entre os investidores. “Há alguns anos, a Colômbia era considerada uma espécie de Somália na América Latina, mas agora somos um lugar atraente na região”, diz. “Como país, triplicamos o investimento estrangeiro, que era de US$ 2,5 bilhões durante os anos 1990, e hoje está em mais de US$ 12 bilhões. Em relação a Bogotá, que concentra 60% dos empreendedores do país, o ambiente é propício para impulsionar o empreendedorismo, e isso é o que a cidade está procurando. As condições estão dadas: há inovação, ideias, financiamento e diferentes entidades que estão trabalhando para nos converter numa cidade que seja referência para isso”.

Ecossistema fortalecido

Capital e centro econômico e industrial da Colômbia, Bogotá tem cerca de 8,1 milhões de habitantes, 16% da população do país. Entretanto, responde por 25% do PIB nacional – sozinha, tem uma economia maior do que nações latino-americanas como Uruguai, Paraguai, Costa Rica ou Bolívia, entre outras.
O crescimento rápido e pouco planejado acarretou à capital colombiana problemas típicos das cidades do continente em áreas de infraestrutura e serviços públicos. Um dos casos emblemáticos é o dos transportes e mobilidade urbana. O chamado TransMilênio – inspirado no modelo de Curitiba – é um dos eixos do transporte público, operando com linhas de ônibus articulados que trafegam em faixas exclusivas. Implantado no final da década de 1990, o sistema foi projetado para uma capacidade de 1,8 milhão de passageiros por dia e atualmente está sobrecarregado, transportando cerca de 2,4 milhões de usuários.

Esse quadro também está no horizonte da Invest in Bogotá, que se envolveu na constituição das parcerias público-privadas para a construção da primeira linha do metrô de Bogotá, um investimento estimado entre US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões. O ramal terá 15 estações ao longo de 24 quilômetros de extensão e utilizará linhas elevadas. O processo de pré-qualificação para as empresas interessadas em participar das obras acaba de ser aberto. A licitação e as contratações devem estar concluídas no começo do segundo semestre de 2019. A construção terá início logo a seguir, com previsão de entrada em funcionamento do sistema em 2024.

Outra entidade ligada a esse ambiente de investimentos na capital é a iNNpulsa – integrante do Ministério do Comércio, Indústria e Turismo –, que fomenta a inovação e ajudou na inflexão para o caráter de novos negócios da Colômbia. “Por meio de nosso programa Aldea, procuramos fortalecer o ecossistema empreendedor do país melhorando seus indicadores e fornecendo o acompanhamento necessário para que essas empresas possam se consolidar, ganhar escala e se converter em atores positivos para o desenvolvimento econômico da Colômbia”, afirma Juan Carlos Garavito, gerente-geral da iNNpulsa. “Esse é, sem dúvida, um dos nossos programas mais importantes. Por meio dele, temos contato direto com os empreendedores, conhecemos suas necessidades em primeira mão e identificamos os pontos em que precisam de ajuda”.

A Endeavor, rede global de empreendimentos de alto impacto que se instalou na Colômbia em 2006, é outro ator que participa ativamente do cenário. A rede conta com 78 empreendedores à frente de 45 empresas no país, gerando mais de 11 mil empregos diretos.

“Os empreendimentos têm crescido de maneira significativa, e já há casos latino-americanos muito exitosos. Isso demonstra que os grandes investidores começam a aplicar recursos nas empresas da região. Temos visto nos últimos anos algumas novas iniciativas nesse sentido”, disse Adriana Suárez, diretora-executiva de Endeavor Colômbia, durante a conferência Scale Up Endeavor 2018, realizada em maio em Bogotá. “É crucial seguir consolidando o ecossistema, independentemente das ações do governo [o novo presidente do país, Iván Duque, tomou posse no início de agosto]. Para isso, é necessário que surjam mais empreendimentos exitosos como a Rappi, a Bodytech ou a Platzi”.

Fundos abertos

Durante muitos anos, uma das principais barreiras para que os empreendimentos colombianos ganhassem escala foi o financiamento. “Antes, as empresas podiam se financiar somente de forma privada, por meio dos familiares ou do sistema bancário, com juros elevados. O financiamento era muito escasso. No início dos anos 2000, cerca de 90% das startups colombianas não passavam do segundo ano. Isso fazia com que os negócios se concentrassem em setores tradicionais como agroindústria e manufatura, percebidos como de menor risco”, lembra Juan Fernando Anzola, da Invest in Bogotá.

Capital colombiana deu a largada para construir seu sistema de metrô, que terá 15 estações

Hoje o panorama é diferente. “Os fundos de venture capital dos Estados Unidos procuram financiar iniciativas fora de seu país porque veem o potencial de inovação que está se dando na América Latina, e a Colômbia não é exceção”, aponta Ricardo Ortiz, presidente da Siigo, empresa colombiana do setor de software. “O dinheiro existe, e é necessário que existam também boas ideias alicerçadas em empreendimentos com alto potencial de sucesso”.

Para a Endeavor, a América Latina é um mercado importante, mas pouco conhecido entre os investidores globais. “Temos dois fundos com um total de US$ 120 milhões para investir somente nas empresas da Endeavor. Até o momento, investimos US$ 35 milhões em mercados latino-americanos como Brasil, México, Argentina, Chile e Uruguai. Na Colômbia, financiamos quatro empresas: Bodytech, Platzi, Rappi e Ofi”, relata Allen Taylor, diretor da Endeavor Catalyst. “Mesmo assim, para a maioria dos fundos, a América Latina ainda não está no mapa. Eles pensam mais em mercados como os Estados Unidos, especialmente a Califórnia, ou em países como China, Israel e Índia, que têm ecossistemas mais desenvolvidos”.

Empresas regionais também têm dirigido o olhar a Bogotá. É o caso da argentina Almundo, plataforma omnicanal de viagens e turismo que se instalou em setembro de 2017, depois de investir US$ 2 milhões em seu hub tecnológico. “Em Bogotá a inovação e o empreendedorismo são coisas permanentes”, ressalta María Oriani, gerente da Almundo na Colômbia. “A aposta se deve ao fato de que o turismo é o segundo setor mais importante do país. Além disso, vimos muitas facilidades para a nossa entrada, conseguimos constituir a empresa em pouco tempo e encontramos muito facilmente os talentos de que precisávamos tanto em termos comerciais quanto tecnológicos, o que fez com que o processo de instalação fosse muito ágil”.

As grandes empresas locais também querem destinar recursos para novos empreendimentos na cidade. É o caso do grupo Argos, que por meio de seu programa de corporate venture busca investir em empresas que ajudem a melhorar a produtividade da indústria da construção. “Cerca de 80% das companhias do setor da construção estouram seu orçamento, e em torno de 20% delas atrasam seus projetos. Com esses indicadores procuramos inovação ou empreendimentos que aumentem a produtividade de nossos clientes, e todos os nossos produtos e serviços miram nesses objetivos”, afirma Juan David Penagos, diretor de novos negócios do Grupo Argos.

“Esperamos que neste ano países como Estados Unidos, Espanha, Alemanha e Brasil, que historicamente têm sido grandes aliados comerciais da cidade, sigam apostando em fazer investimentos na capital”, afirma o diretor-executivo da Invest in Bogotá, Juan Gabriel Pérez. “A partir da agência seguimos promovendo a chegada de projetos estratégicos de investimento estrangeiro em setores que a cidade definiu como prioritários dentro da Estratégia de Especialização Inteligente de Bogotá-Região, uma iniciativa liderada pela prefeitura da cidade e pela Câmara de Comércio de Bogotá, da qual também participaram organizações públicas, setor privado e academia”.

Mesmo que tenha iniciado esse processo um pouco mais tarde em relação a outras capitais latino-americanas – por conta dos efeitos da violência e do narcotráfico –, o caminho de Bogotá já está traçado. A velocidade para percorrê-lo dependerá dos atores envolvidos nesse ecossistema crescente.

*Colaborou Paulo Hebmüller, de Bogotá e São Paulo