Por Paulo Hebmüller, AméricaEconomia Brasil

De Bruxelas (Bélgica)

A compra da Monsanto pela Bayer, anunciada há pouco mais de um ano, não vai diminuir a competição no setor agro, avalia Liam Condon, membro do Conselho de Administração da Bayer e presidente da Crop Science, divisão agrícola da empresa. Para Condon, a entrada de novos players globais no setor – como Google e Bosch – e o surgimento de startups com capacidade de provocar inovação acelerada em áreas como biotecnologia vão tornar o mercado mais difícil nos próximos anos.

“Na próxima década, a inovação na agricultura será bastante diferente daquela que vemos hoje. Não tenho medo de que falte competição. Minha preocupação é que, daqui a dez anos, a Bayer ainda esteja competindo na agricultura”, diz.

A Crop Science investe cerca de € 1 bilhão (R$ 3,74 bilhões) por ano em pesquisa e desenvolvimento para todas as suas atividades, incluindo biotecnologia e sementes. Isso representa aproximadamente 10% do faturamento líquido da divisão.

No Brasil – um dos dois maiores mercados estratégicos da Bayer no mundo, ao lado dos Estados Unidos –, a aquisição da Monsanto está sob análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). No início de outubro, a Superintendência Geral do órgão emitiu um parecer ao seu Tribunal avaliando que a operação gera problemas concorrenciais num mercado já bastante concentrado e com elevadas barreiras de entrada. A decisão final cabe ao Tribunal do CADE.

Para Condon, o foco do interesse da Bayer está na tecnologia e nos produtos da Monsanto. Eles devem ser incorporados possivelmente sob uma nova marca, já que o nome da empresa carrega uma imagem negativa, em escala global, por ser alvo de denúncias que vão de danos à saúde a políticas prejudiciais aos agricultores.

O executivo irlandês concedeu esta entrevista à AméricaEconomia Brasil na semana passada em Bruxelas (Bégica), onde participou da terceira edição do Youth Ag-Summit (YAS). O encontro, promovido pela Crop Science, reuniu cem jovens – cinco deles brasileiros – de 49 países, que foram selecionados a partir de um concurso de redações.

O foco dos trabalhos eram os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e o papel dos jovens em ajudar a alimentar a crescente população mundial – estima-se que, em 2050, o planeta terá 10 bilhões de habitantes.

Ao longo da semana, os jovens assistiram a palestras, fizeram visitas a uma fazenda e outras instituições e foram divididos em dez grupos para montar um projeto relacionado a um dos objetivos. O grupo vencedor ganhou um financiamento de € 10 mil (cerca de R$ 37,4 mil) para a iniciativa e terá a oportunidade de apresentar o projeto a possíveis patrocinadores convidados pela empresa. O próximo YAS será realizado no Brasil em 2019.

Leia a seguir a entrevista:

AméricaEconomia – Apesar da crise, o setor agro brasileiro cresce. Quais são as perspectivas do mercado do país para a Bayer?

Liam Condon – O Brasil, ao lado dos Estados Unidos, é um dos dois maiores mercados estratégicos globais para a Bayer, enquanto a Argentina é o terceiro. Isso se deve particularmente à importância da agricultura e ao fato de ser um país exportador. O Brasil tem sido tradicionalmente um mercado bastante volátil por múltiplas razões, desde as climáticas até as políticas e econômicas. Sabemos dessas idas e vindas no país e fazemos investimentos de longo prazo. Esta tem sido uma fase de forte recessão na economia brasileira, mas notamos que há um crescente descolamento entre a política e a economia. Em geral a instabilidade política significa que a economia também estará muito instável, mas no momento a economia parece estar caminhando relativamente bem em termos gerais, e no setor agropecuário há razões suficientes para que o crescimento continue. Estamos fortemente comprometidos a investir nesse mercado para o futuro. Esperamos um grande crescimento no Brasil e também na Argentina.

AE – Qual a sua opinião sobre a agricultura na região amazônica e a utilização de grandes áreas para plantio ou pecuária, que é um dos principais responsáveis pelo desmatamento?

LC – Investimos muito no tópico da sustentabilidade, e todos os nossos programas no Brasil têm foco em praticar a agricultura de modo sustentável. Penso que há áreas em que, desse ponto de vista, não há muita valia em ampliar a área agricultável em regiões que não são muito férteis. Ao contrário, o foco deveria ser em aumentar a produção nas áreas mais férteis do país. Temos uma opinião muito clara sobre isso: é preciso haver sustentabilidade econômica para o produtor, mas é absolutamente crucial que isso coexista com a questão ambiental.

AE – Há algum investimento específico que a Bayer pretenda fazer no Brasil no próximo ano?

LC – No Brasil, o maior interesse normalmente é na área de fungicidas. Dependendo da estação, inseticidas e herbicidas também são muito importantes. No fim das contas, a coisa mais importante para o produtor é a qualidade da semente. Quanto mais propriedades resistentes tiverem as sementes que oferecemos, melhor. No Brasil, investimos particularmente em novas variedades de sementes de soja mais resistentes a doenças e insetos, combinando isso com proteção das culturas e assistência agronômica. Investimos muito também em digitalização, auxiliando os produtores com o uso de Big Data para que eles tomem as melhores decisões na lavoura. Temos alguns projetos-piloto em andamento no Brasil para auxiliar os produtores a detectar doenças precocemente e fornecendo algoritmos para que saibam exatamente como tratá-las utilizando a menor quantidade possível de insumos, porque do ponto de vista da sustentabilidade essa é uma abordagem melhor do que pulverizar tudo. Temos esses projetos, por exemplo, no Mato Grosso, uma área que realmente precisa de foco em sustentabilidade, e ali a digitalização pode ter um grande impacto.

"A agricultura vive da diversidade, e essa diversidade significa que é importante haver diferentes abordagens. A discussão que fica só no preto ou branco – ou orgânico ou convencional – não ajuda ninguém. Há lugar para todas as formas de agricultura, e deveria haver lugar para todas as tecnologias, desde que sejam seguras e sustentáveis"

AE – O Youth Ag-Summit aborda a necessidade de alimentar um mundo faminto, e em alguns momentos parece que estamos falando de dois planetas diferentes: o da inovação, da ciência e da agricultura digital e outro em que 800 milhões de pessoas passam fome todos os dias. Como podemos integrar esses dois diferentes planetas?

LC – Penso que a ideia de inovação se aplica também aos pequenos produtores e a esse contingente de 800 milhões de pessoas – que muitas vezes são pequenos agricultores, os mais pobres entre os pobres. Mas o tipo de inovação é diferente. Frequentemente ela poderia ser a mais básica – educação, boas práticas agronômicas ou tecnologia em telefonia móvel. Ou poderia ser informação sobre preços, mercados, dados sobre o clima – coisas que consideraríamos básicas em mercados desenvolvidos, mas que seriam muito benéficas e realmente inovadoras nessas outras áreas. A questão é adaptar as inovações aos mercados, de forma que elas atendam também às necessidades culturais ao longo de toda a cadeia de valor. A digitalização pode de alguma forma promover um salto em termos de tecnologia para que pequenos produtores finalmente tenham acesso à informação, que frequentemente é o elemento-chave que lhes falta. Assessoria agronômica, informação sobre preços e acesso aos mercados podem se tornar disponíveis à medida que as tecnologias cheguem às pessoas. Temos que investir nisso.

AE – Em relação à aquisição da Monsanto pela Bayer: de que forma reduzir a competição é benéfico para a segurança alimentar ou a sustentabilidade, por exemplo? Afinal, essa nova empresa pode controlar os preços no setor.

LC – A Bayer é primordialmente uma empresa de proteção de culturas, e a Monsanto é primordialmente de sementes. Há uma pequena sobreposição na área de sementes, e as autoridades regulatórias nos dirão se teremos que fazer uma alienação. Uma vez que a fizermos, do ponto de vista da competição nada realmente muda, porque ainda temos os mesmos competidores na área de proteção de cultivos e na área de sementes. O que também é subestimado hoje é que, devido aos avanços tecnológicos, há grandes empresas entrando na agricultura, como Google e Bosch. Há também muitas startups investindo pesadamente em biotecnologia e trazendo novos produtos para o mercado de forma mais rápida do que nunca antes. Com isso, gera-se uma nova competição da qual o público ainda não se deu conta – mas nós sim (risos), porque estamos competindo com essas empresas.

AE – O senhor poderia dar um exemplo?

LC – A indústria da fertilização é um exemplo que mostra como as coisas estão mudando rapidamente. Ela é uma área muito grande, com poucas empresas, custos altos para os produtores e muitos problemas do ponto de vista da sustentabilidade: grande consumo de energia, emissão de gases de efeito estufa, contaminação da água etc. Porém, segue sendo uma coisa importante para as plantas. Começamos a investir numa pequena empresa de biotecnologia nos Estados Unidos que desenvolveu uma tecnologia baseada em microbioma que permite que as plantas captem e assimilem o nitrato do solo – basicamente, as plantas se alimentam diretamente do solo e não necessitam receber fertilizantes. Se isso realmente funcionar, não será mais necessário utilizar fertilizantes nas plantas. Provavelmente a mesma coisa está acontecendo em relação aos pesticidas. Na próxima década, a inovação na agricultura será bastante diferente daquela que vemos hoje. Não tenho medo de que falte competição. Minha preocupação é que, daqui a dez anos, a Bayer ainda esteja competindo na agricultura.

AE – Haverá espaço para os pequenos produtores com a fusão entre Bayer e Monsanto? Eles terão condições de adquirir esses produtos?

LC – Sim. Os produtores são extremamente pragmáticos e, se oferecermos algo que aumente sua renda e melhore as condições gerais de sua lavoura, eles vão usar, a menos que não seja melhor do que aquilo que já está disponível. Não se trata de haver apenas uma escolha no mercado: há muitas possibilidades. Se não oferecermos mais inovação que ajude os produtores, não seremos bem-sucedidos.

AE – Em termos de biotecnologia, o que veremos nos próximos cinco ou dez anos que fará com que a agricultura seja bastante diferente do que ela é hoje?

LC – Penso que os maiores avanços estão em melhoramentos genéticos, especialmente em tecnologias como a CRISPR-Cas9 [sistema que permite a edição de genes], que já está amplamente disponível e é um pouco diferente daquela dos organismos geneticamente modificados (OGMs), no qual um grupo mais limitado de companhias está investindo. Os maiores desafios provavelmente se referem a como essa tecnologia será regulamentada. Se for da mesma forma que os OGMs, será muito caro trabalhar com ela e provavelmente haverá poucas empresas, como a nossa, que investirão. Essa é uma decisão que as autoridades regulatórias no mundo inteiro terão que tomar. Se tivermos uma regulação com todas as garantias de segurança, mas sem os excessos que existem na área dos OGMs, então praticamente todos poderão utilizá-la e haverá amplo mercado para ela. Essa tecnologia vai ajudar a mudar a face da agricultura, porque seremos capazes de realizar modificações genéticas em múltiplas culturas. Hoje elas são usadas em poucas, porque é muito caro. Isso vai realmente reduzir os custos e aumentar a velocidade do desenvolvimento de novas culturas e da tecnologia. Do ponto de vista da sustentabilidade, será um avanço fantástico, porque poderemos ter culturas mais resistentes a doenças causadas por insetos ou a variações climáticas.

AE – Uma pesquisa feita com consumidoras mostrou falta de confiança nos produtos da Bayer, e o senhor relacionou essa avaliação a questões como pós-verdade e desinformação. Não há necessidade, por exemplo, de comida orgânica?

LC – Penso que a questão da confiança é um problema geral na sociedade. A maioria das pessoas não confia nas grandes empresas, nos governos, nos políticos e mesmo nas igrejas e nas religiões. Não há muita coisa na qual as pessoas acreditem na atualidade. Assim como qualquer provedor de tecnologia, nós enfrentamos essa mesma questão. Nossa posição em relação aos orgânicos é bastante clara: a agricultura vive da diversidade, e essa diversidade significa que é importante haver diferentes abordagens. A agricultura pode ser orgânica, pode ser convencional, com OGMs ou com a nova edição genética, mas isso depende de qual forma se aplica melhor na situação local. A agricultura orgânica utiliza em média muito mais terra e água do que a convencional ou a com OGMs. Então, não pode ser utilizada em todos os lugares. Essa discussão que fica só no preto ou branco – ou orgânico ou convencional – não ajuda ninguém. Temos que ter ambas as opções, ou mais. Há lugar para todas as formas de agricultura, e deveria haver lugar para todas as tecnologias, desde que sejam seguras e sustentáveis.

AE – Voltando à fusão: existe a possibilidade de que o nome Monsanto desapareça, uma vez que há certamente questões de imagem relacionadas a ele?

LC – Certamente. Para falar de modo diplomático, a razão pela qual a Bayer a adquiriu não é a marca Monsanto... Gostamos da tecnologia, das pessoas por trás dos produtos, dos produtos em si, mas o nome da empresa é um problema. Uma vez que o processo todo esteja concluído, provavelmente no início do ano que vem, vamos anunciar como lidaremos com isso.

O repórter viajou a Bruxelas a convite da Bayer