As notícias são boas: o clima econômico melhorou em abril na América Latina e as exportações retomaram o caminho do crescimento no primeiro trimestre. Mas existem fatores que precisam de atenção, como a baixa produtividade e a falta de competitividade internacional, que dificultam um ciclo linear e sustentado.

Segundo pesquisa do instituto alemão Ifo e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Indicador Ifo/FGV de Clima Econômico da América Latina avançou nove pontos entre janeiro e abril, para 78 pontos. O Brasil puxou o aumento, junto com outros países, com avanço de 62 pontos para 79. O outro estudo, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), informa que as exportações na América Latina e Caribe subiram 17% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando houve recuo de 2,9%.

Os países latino-americanos exportadores de commodities como minério de ferro e petróleo tiveram melhora no desempenho exportador

A recuperação nas exportações foi motivada, especialmente, pelo aumento nos preços de produtos básicos, de acordo com o BID, que analisou dados de 25 países da região.

Na entrevista a seguir, Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, avalia o cenário.

AméricaEconomia – A América Latina se saiu bem neste primeiro trimestre em relação às exportações, especialmente no setor de ferro e commodities. Isso era esperado?

Lia Valls – No relatório do BID Estimativas das Tendências Comerciais na América Latina e Caribe, de 2017, chama atenção que a melhora do desempenho exportador da América Latina foi liderada pelos países exportadores de commodities, em especial minério de ferro e petróleo. A melhora nos preços desses produtos foi iniciada no final de 2016. No caso do minério de ferro foi associado à expansão do crédito imobiliário na China as expectativas de aumento de investimentos em infraestrutura nos Estados Unidos. Para o petróleo, contribuiu a resolução da Opep de reduzir a oferta do produto.

AE – É possível entender melhor o que esses números sobre a alta nas exportações querem dizer?

LV – O valor exportado na América Latina estava muito baixo. Logo, o aumento de 17% observado no primeiro trimestre parte de uma base deprimida. A alta em valor foi liderada, como já observado, pelo aumento nos preços de algumas commodities. Em termos de volume, o crescimento foi de 2,2%. Além disso, registraram elevado crescimento os países da América do Sul exportadores das commodities minerais e petróleo (Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela). Já em alguns países, como o México, o crescimento foi reduzido (-1,8%).

AE – Que cenário a Sra. observa na competitividade da América Latina em 2017 se comparado com dez anos atrás?

LV – Na pesquisa “Sondagem Econômica da América Latina”, que realizamos em parceria com o Instituto Ifo, da Alemanha, perguntamos duas vezes ao ano quais são os principais problemas que os países enfrentam. Na América Latina, falta de competitividade internacional é sempre citado como um dos três principais problemas em todos os países analisados desde 2004, com poucas exceções.

AE – Nos dados Icomex de maio de 2017, verifica-se que o superávit também se sustentou em commodities, embora “o valor nas exportações tenha sido liderado pela elevação nos preços”. O que isso representa ao Brasil?

LV – O que já observamos. O aumento nos preços supera o do volume. No caso do Brasil, na comparação entre o mês de abril de 2016 e 2017, o volume exportado aumentou 1% e os preços 15,5%. No acumulado do ano até abril entre 2016 e 2017 os percentuais são: preços (15,1%) e volume (8,1%).

AE – A Sra. teria um prognóstico da produtividade e da competividade dos países da América Latina no mundo para os próximos anos?

LV – Não. O que posso dizer é que, no caso brasileiro, há uma grande preocupação com a baixa produtividade na indústria e nos serviços. O setor de serviços representa cerca de 70% do PIB do Brasil e sem elevar a sua produtividade é difícil pensar em um ciclo sustentado de crescimento econômico. Lembramos também que nesse setor a qualificação da mão de obra é fundamental, outro gargalo na economia brasileira.

AE – Quais seriam os países da América Latina que mais se destacariam no longo prazo, na sua opinião? Por quê?

LV – A região é sujeita a instabilidades políticas e econômicas e, por isso, pensar o longo prazo fica um pouco difícil. Em um primeiro momento, as economias do Chile e do Uruguai têm mostrado maior estabilidade. Assim, podem sustentar um crescimento mais estável. No entanto, Paraguai, Peru e Colômbia também têm apresentado boas avaliações. Brasil e México são economias grandes e se conseguirem enfrentar seus problemas domésticos poderão também se sobressair. 

AE – Os números são bons, como considera a pesquisa, mas se restringem a poucos países. Que avaliação a Sra. faz deste comportamento do mercado da América Latina e o que deveria ser feito para mudar o quadro?

LV – Posso dizer, de forma geral, que para melhorar a competitividade internacional a região precisa investir na integração da sua rede de infraestrutura de transportes, energia e telecomunicações.  Além disso, na era digital, investimentos em educação são fundamentais para que a região possa absorver as novas tecnologias.