Dono de uma retórica bastante otimista, o gerente-geral da Worldpay para a América Latina, Juan D’Antiochia, conversou com a AméricaEconomia sobre a atualidade do cenário de e-commerce e de adquirência em cartões de débito e crédito no Brasil e no mundo, enfatizando o caráter favorável a esse segmento que, mesmo em meio às turbulências políticas no contexto global, jamais parou de se expandir. Em parceria com o Banco Rendimento, a Worldpay, estabelecida no mercado brasileiro desde 2014, conduziu um estudo que mostra o atual nível de confiança dos consumidores brasileiros em relação ao comércio. De acordo com a pesquisa, 82% dos entrevistados acreditam que a maioria das compras será feita pela internet nos próximos cinco anos.

Outros dados apontados pelo levantamento indicam que 75% dos consumidores têm preferência por comprar itens domésticos no ambiente online e que jovens entre 18 a 34 anos representam 56% dos compradores via aplicativo de smartphone.

Nesta entrevista, D’Antiochia destaca a relevância de mercados como a América Latina e Ásia, que juntos podem responder por 75% da participação no comércio eletrônico global até 2022. Apresenta também novidades tecnológicas como os pagamentos a partir de mecanismos de realidade virtual e de dispositivos que se comunicam por proximidade.

AméricaEconomia – Como podemos avaliar o mercado de adquirência no Brasil?

América Latina e Ásia vão responder por 75% do comércio eletrônico global em 2022

Juan D’Antiochia – É um mercado muito aquecido no país. Aliás, esteve aquecido também nos últimos anos, mas foi percebida uma maior aceleração em 2016. Além da nossa entrada nesse segmento, em parceria com o banco Rendimento, vários outros players começaram a operar nesse cenário. O que considero muito positivo é que a entrada de cada um deles se dá com foco em nichos específicos. Em nosso caso, estamos voltados para o e-commerce e omni-channel. Em termos gerais, toda essa diversidade de empresas que atuam no segmento de adquirência estimula o avanço das inovações vistas no mercado, abrindo as portas para outros players. Com isso, podemos esperar para o próximo ano um ritmo acelerado de crescimento.

AE – Para o contexto atual da economia brasileira, como tem sido o desempenho do e-commerce?

JD – Mesmo na fase mais difícil da crise para a economia nacional, o mercado de e-commerce jamais parou de crescer. Agora, com a retomada da economia, as taxas de crescimento foram bem altas. Encomendamos um estudo global sobre os 40 maiores mercados em termos de comércio eletrônico, de onde extraímos pelo menos duas conclusões muito interessantes. O ritmo do crescimento do mercado desacelerou durante a crise [brasileira], mas se manteve em patamares menores, e há também uma expectativa de uma expansão significativa até 2020. Hoje, avaliamos uma movimentação de US$ 65 bilhões, e eu acredito que o Brasil ocupe o oitavo lugar para as transações de comércio eletrônico. Outro fator bastante relevante no panorama mundial é que a China se tornou um mercado ainda maior do que os Estados Unidos para pagamentos eletrônicos. A expectativa é que a América Latina e a Ásia representem 75% do comercio eletrônico global em 2022. 

AE – Como os consumidores brasileiros têm se comportado com relação às compras?

JD – Foi percebida nos últimos três ou quatro meses a retomada do segmento de viagens de maneira muito significativa, mas durante a crise outros setores também avançaram, como varejo e alimentos.

AE – Com relação às estratégias de inovação tecnológica para pagamentos online, quais são as novidades trazidas pela Worldpay?

JD – Creio que duas modalidades merecem ser destacadas. A primeira diz respeito às transações via realidade virtual, devido ao crescimento que essa tecnologia acumulou nos últimos anos, com a difusão de acessórios como os óculos VR, que agora estão disponíveis para os consumidores. Outra novidade que considero importante tem a ver com as máquinas de pagamento e aparelhos celulares que se comunicam através de uma tecnologia determinada pela proximidade. Através de um tipo de engenharia reversa, desenvolvemos um sistema que permite que esses pagamentos sejam feitos apenas pela aproximação do cartão ao celular. É preciso somente baixar um aplicativo na Play Store, lembrando que o aparelho celular deve dispor da tecnologia NFC [da sigla em inglês Near Field Communication, comunicação por proximidade]. 

AE – Quais são os setores que se destacam na modalidade de pagamentos online?

JD – Historicamente, o primeiro segmento que registrou um rápido amadurecimento para essa modalidade de pagamentos foi o de viagens. Atualmente, o setor que tem a maior sofisticação é o de conteúdo digital, superando todas as outras categorias presentes no mercado. O varejo também já está bastante desenvolvido.

AE – O que significa a utilização de soluções end-to-end oferecidas pela companhia para os pagamentos de estabelecimentos online no Brasil?

JD – Isso tem muito a ver com fornecer ao nosso cliente soluções que respondem a todas as necessidades que ele pode ter no ciclo de vida de um pagamento. O pagamento em si começa muito antes do cliente realmente decidir pagar. São vários estágios até a seleção efetiva para a concretização da compra, terminando com o processo de conciliação de recebíveis. 

AE – Como tem sido a atuação da Worldpay nos países da América Latina?

JD – Sem dúvida, o Brasil é o maior mercado, por vários motivos: pelo seu próprio tamanho e por ser o mais desenvolvido em termos de e-commerce e meios de pagamento na região. Numa avaliação atual, o Brasil está cerca de três ou quatro anos à frente dos seus parceiros latinos para as inovações. Nosso projeto está baseado na implementação de soluções regionais para a América Central, Argentina, Chile, Colômbia e México. No caso do Brasil, começamos a atuar por meio de parceiros até termos a nossa própria operação, e estamos iniciando esse mesmo processo para o mercado argentino. As empresas brasileiras demonstram um interesse maior de expansão em países como Argentina e México. Hoje, as soluções para pagamento eletrônico no mercado argentino se mostram pouco desenvolvidas. Esse mercado representa, atualmente, o que foi o brasileiro em 2010 em termos de haver apenas dois adquirentes, um para a bandeira Visa e outro para a Mastercard. Portanto, estamos entrando nesse cenário com a proposta de quebrar o monopólio. 

AE – Entre as nações latino-americanas, quais podem ser destacadas quando falamos em negócios de comércio eletrônico?

JD – Os mercados argentino e mexicano, em termos de volume de comércio eletrônico, são semelhantes, apesar do México levar uma discreta vantagem, por ter aproximadamente três vezes o tamanho da população argentina. O que posso dizer é que há uma parcela de consumidores para esse comércio que ainda me parece pequena diante da população mexicana. Já a Argentina é mais promissora e, de acordo as nossas pesquisas, deve crescer mais rápido que o México nos próximos anos. De qualquer forma, o nosso objetivo é entrar no mercado mexicano, em que já desfrutamos de parcerias. A ideia é expandir os nossos serviços à clientela local. Hoje, o México representa cerca de 13% dos negócios de comércio eletrônico, enquanto a Argentina está próxima a 11% de participação para o contexto latino-americano.

AE – Considerando o panorama das operações globais da empresa, onde se observa um maior dinamismo em fluxo de negócios?

JD – Reino Unido e Estados Unidos são os mais dinâmicos, mas a América Latina tem apresentado um crescimento muito expressivo, ultrapassando a margem de 100% ao ano. No caso da Ásia, estamos num patamar semelhante, com expectativa de superar os mercados já estabelecidos nos próximos quatro anos.

AE – Quais são as perspectivas da companhia para este e os próximos anos?

JD – Apesar de estarmos num mercado com muitos concorrentes, todos ficaram muito surpresos com a velocidade que as operações brasileiras começaram a demonstrar. Estamos nos preparando para um crescimento ainda maior, e a ideia é praticamente dobrar o tamanho da equipe em dois anos. São objetivos muito ambiciosos até 2020. Na América Latina, o Brasil faz parte de uma fatia de alta relevância dentro da operação global da Worldpay. Fizemos maciços investimentos no país desde 2014, quando começamos os nossos negócios em território nacional, empenhando um aporte da ordem de R$ 70 milhões.