A gigante russa Gazprom e a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) – estatal boliviana de petróleo e gás – formaram uma sociedade que vai adquirir, vender e importar gás natural do território brasileiro e exportá-lo a outros países. Um Memorando de Entendimento foi assinado pelo Ministério de Hidrocarbonetos da Bolívia, YPFB, Gazprom Marketing e Trading e Gazprom International B.V.

Sobre esse e outros investimentos, AméricaEconomia conversou em La Paz com Óscar Barriga, presidente da YPFB. Barriga é engenheiro químico e tem especialização em sistemas de gestão de qualidade e em engenharia de reservatórios, produção e exploração de petróleo.

AméricaEconomia – Qual é o objetivo da assinatura do Memorando de Entendimento com a Gazprom?

Óscar Barriga – É estabelecer uma sociedade, primeiro no Brasil, que se encarregará de comercializar nosso gás, o que permitirá iniciarmos a internacionalização da YPFB. Neste início de 2018 consolidaremos uma sociedade que vai trabalhar com vistas a novos acordos após o fim do contrato GSA, que se encerra em 2019. O objetivo é melhorar os preços que temos atualmente.

AE – Quais são os ganhos da YPFB com esse novo cenário?

“Vamos consolidar uma empresa para prover o mercado brasileiro com produtos bolivianos. Os contratos de comercialização serão diversificados em lugares como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e outros”

OB – Isso permitirá ao provedor da molécula de gás, que somos nós, participar de um elo a mais na cadeia produtiva. Fecharemos o ciclo, desde a provisão de suprimentos até a comercialização, eliminando os intermediários comerciais.

AE – Haverá uma diversificação dos contratos de gás?

OB – Em primeiro plano, vamos consolidar essa empresa para prover o mercado brasileiro com produtos bolivianos. Essa empresa, em sociedade com a Gazprom, terá uma cota de volume. Já temos negociações com a Petrobras sobre preço e volume, mas a ideia é diversificar um pouco os contratos que temos, a fim de não depender de apenas um acordo, como até agora, e assim diminuir os riscos. Vamos diversificar nossos contratos de comercialização no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, entre outros lugares.

AE – Em que outros países a YPFB pretende se internacionalizar?

OB – Estamos na etapa de constituir a empresa para iniciar as operações no Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai e no Peru. A YPFB Brasil, num primeiro momento, terá como tarefa a comercialização de GLP, ureia, isopentano e gás natural liquefeito.

AE – Qual será o volume de exportação de ureia granulada para o Brasil?

OB – A comercialização da ureia produzida na planta industrial de Bulo Bulo para o Brasil, nosso mercado por natureza, será especificamente para os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A primeira remessa será de 40 mil toneladas, de um total de 335 mil toneladas por ano. É um marco no processo de construção da soberania econômica do país.

AE – Em que outros mercados da região será comercializada a ureia?

OB – Pretendemos cobrir os mercados do Paraguai, do norte da Argentina e do sul do Peru com a exportação adicional de 110 mil toneladas métricas. Com esses volumes de exportação pretendemos prover de 15% a 30% desses mercados.

AE – Qual é a capacidade de produção da planta?

OB – A planta tem uma capacidade de produção de 2.100 toneladas métricas por dia de ureia granulada. O complexo se compõe de uma planta em que se produz o amoníaco e outra na qual, a partir do amoníaco, se obtém a ureia granulada.

AE – Qual é o montante do investimento estatal na planta de Bulo Bulo?

OB – É um volume que chega a US$ 950 milhões, incluindo a construção da planta, a supervisão da construção, pátio de manobras, vias de acesso, duto para abastecimento de gás etc.

AE – Qual foi a participação da Samsung no desenvolvimento do projeto? Ela continuará envolvida depois da construção?

OB – A Samsung Eng. foi selecionada por licitação. Sua participação não se encerra com o início do funcionamento, mas caberão a ela a operação e a manutenção assistida até abril de 2018.

AE – Os acordos com a Gazprom também preveem a capacitação de profissionais da YPFB. Como isso se dará?

OB – No início de 2018 será executado o acordo assinado entre ambas para formação e capacitação, que tem três etapas: cursos de atualização em tendências internacionais, a cargo de especialistas dos centros de pesquisa da Gazprom; cursos de especialização que serão desenvolvidos na Bolívia para que nossos profissionais tenham a possiblidade de se aprofundar em diferentes áreas como exploração, refino, industrialização, comercialização e todas as áreas relativas ao setor de hidrocarbonetos. Numa terceira etapa, nosso pessoal será capacitado por meio de mestrados e doutorados em universidades russas. Como resultado, no futuro esses profissionais poderão ser operadores das plantas em todas as áreas e de complexos petroquímicos, deixando para trás o papel de ser apenas administradores de contratos.

AE – Quando será implementado o centro de pesquisa do setor de hidrocarbonetos da YPFB em conjunto com a Gazprom?

OB – A premissa mais importante para o desenvolvimento estratégico e para o crescimento sustentável de qualquer país é o desenvolvimento de seu próprio setor científico e técnico. A geração de conhecimento, o desenvolvimento e a criação de tecnologia de ponta, a criação de novos produtos e serviços, o uso eficiente dos recursos disponíveis e a inovação tecnológica são os pilares fundamentais para percorrer o caminho em direção a uma sociedade do conhecimento e da competitividade na exploração e desenvolvimento de nossos recursos naturais.

A YPFB e a Gazprom trabalharam conjuntamente para desenvolver um conceito e uma visão do Centro de Pesquisas Científicas da YPFB, apoiada e sustentada na vasta experiência e no profundo conhecimento da empresa russa e na realidade de desenvolvimento do setor de nosso país que permita atender às necessidades técnicas de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e formação especializada de competências técnicas em todas as operações da cadeia de valor dos hidrocarbonetos. Até 2021 deve estar concluído o processo de implementação de infraestrutura e instalações. A previsão é de que em 2025 o Centro de Pesquisas Científicas se encontre em pleno funcionamento, com o aporte significativo na provisão de soluções técnicas e científicas aos desafios de toda a cadeia produtiva dos hidrocarbonetos, com um importante efeito na geração de conhecimento científico e seu impacto em nossa sociedade, estabelecendo as bases para a soberania científica e tecnológica de nosso país.