O Brasil se tornará em dez anos o maior produtor mundial de alimentos e também a maior potência ambiental do planeta. “Seremos uma grande potência agroambiental”, diagnosticou, de forma otimista, o agrônomo e professor Xico Graziano em conferência da série Conversando com quem faz a diferença, na sexta-feira (29), em São Paulo.

Uma das razões para o otimismo de Graziano – que, entre outros cargos, já foi secretário estadual da Agricultura (1996-1998) e do Meio Ambiente (2007-2010) em São Paulo – é o aumento da produtividade brasileira. Hoje, o país é capaz de produzir em 95 milhões de hectares o mesmo que, há trinta anos, tomava 160 milhões de hectares. “Parece que com a crise o Brasil descobriu o agronegócio. Mas o país só não quebrou com a situação trágica atual por causa da agropecuária”, avalia.

Na conferência, Graziano citou aqueles que considera os três principais desafios do agronegócio. O primeiro é o avanço tecnológico. Nessa área, há inovação praticamente todos os dias, apresentando soluções para problemas como gestão da água e uso de organismos vivos geneticamente modificados para combate de pragas, substituindo os agrotóxicos.

Muitos agricultores estão procurando se atualizar – mas nem todos, salientou. O Censo Agro de 2007 mostrou que, dos cerca de 4 milhões de produtores pesquisados, 500 mil respondiam por praticamente 90% da produção nacional. Graziano espera que o novo censo, recém-iniciado pelo IBGE, aponte diferenças.

O professor identifica a mudança de geração como um dos grandes problemas. “A sucessão no campo não está sendo bem preparada e está mais atrasada do que em outros setores empresariais”, lamenta. Um exemplo positivo, considera, vem do Mato Grosso. As novas gerações das famílias que migraram do Sul do país para lá, especialmente a partir da década de 1970, já têm outra mentalidade. Como fruto dessa situação, o estado deu um salto significativo e hoje é responsável por 25% da produção nacional.

“Só tecnologia resolve? Não”, afirma Graziano. “É preciso fomentar o cooperativismo, o associativismo, o companheirismo. Conectar-se, compartilhar”. Ao mesmo tempo, também é necessário garantir a cidadania e os direitos dos pequenos agricultores, defende.

Assunto de agricultor

O segundo desafio apontado por Xico Graziano é o da globalização. “Nesse debate, a escolha é: você quer globalizar ou ser globalizado?”, diz. Para enfrentar o cenário da competitividade global, a única saída é se preparar e melhorar a qualidade da produção.

O terceiro grande desafio é o da sustentabilidade. Aqui, não se trata da oposição entre produzir ou preservar, “mas de produzir e preservar ao mesmo tempo”. “A sustentabilidade não é assunto de ambientalista, é assunto de agricultor”, afirma.

“Quando me perguntam se sou ruralista ou ambientalista, eu digo que sou os dois. Essa oposição é retrógrada, é Brasil antigo”, disse à plateia de empresários, autoridades e estudantes do evento promovido pelo Global Council of Sales Marketing (GCSM) e que tem como media partners as revistas AméricaEconomia e The Winners. “Inventei esse conceito de agroambientalista, mas confesso que ele ainda não pegou”, brincou.

Investimento chinês

Após a conferência de Xico Graziano, o evento abriu espaço para que Milton Luiz de Melo Santos, diretor presidente da Desenvolve SP - Agência de Desenvolvimento Paulista, fizesse um breve relato de sua recente viagem à China.

Santos encontrou-se com representantes de setores públicos e privados e assinou um memorando de entendimento com a CNEEC (China National Electric Engineering Company) para um programa de financiamento de US$ 1 bilhão para plantas geradoras de energia fotovoltaica no estado. A agência trabalha agora para identificar projetos que sejam potenciais candidatos ao financiamento.

Fotos: Beatriz Santos/AméricaEconomia