Por Paulo Hebmüller, de São Paulo

 

“Mesmo que não pareça importante para aqueles cuja vida passa diariamente por uma série de pequenos mas significativos ajustes, a Quarta Revolução Industrial não consiste em uma pequena mudança – ela é um novo capítulo do desenvolvimento humano”, escreve Klaus Schwab em seu novo livro, Aplicando a Quarta Revolução Industrial (Edipro). A obra foi lançada na edição latino-americana do Fórum Econômico Mundial (FEM), realizada em março em São Paulo. Mestre em Administração Pública e doutor em Economia e Engenharia, Schwab, nascido na cidade alemã de Ravensburg há 80 anos, é conhecido por ter criado em 1971, com sua esposa, Hilde, o FEM – cuja faceta mais conhecida são os debates anuais realizados em Davos, na Suíça.

“A seção latino-americana do FEM mostrou que existe grande alinhamento sobre uma ‘agenda de futuro’ tanto para países emergentes, como o Brasil, quanto para economias e sociedades maduras”, avalia Octavio de Barros, economista-sócio da Quantum4 Soluções de Inovação. Barros frequentou o evento de Davos nos últimos seis anos e colaborou para o encontro de São Paulo.

Para além de um fórum de debates, o FEM é um conjunto de iniciativas nos mais diversos campos, explica Schwab. “A mensagem essencial é que os grandes desafios do nosso mundo não podem ser resolvidos apenas por governos ou empresas: precisamos cooperar para encontrar soluções comuns por meio de processos de trabalho colaborativos”, defende.

Devemos procurar formas de explorar as oportunidades relacionadas ao avanço tecnológico, mas ao mesmo tempo assegurar que elas sejam aceitas pela sociedade. A desigualdade precisa ser enfrentada urgentemente

Nesta entrevista exclusiva, concedida durante sua participação no evento de São Paulo, Schwab fala de alguns desses desafios, como a desigualdade, a ascensão de novas potências como a China e a necessidade de que os acordos globais sejam baseados em regras claras. Sobre o Brasil, afirma que é um país “que não utiliza o seu potencial” e “não consegue multiplicar os seus tesouros ocultos”.

AméricaEconomia – Quais são os grandes desafios que o senhor identifica para a humanidade no futuro imediato?

Klaus Schwab – Identifico três grandes desafios. O primeiro: estamos mudando de um mundo unipolar para um mundo multipolar, com a ascensão de potências políticas e econômicas como a China, a Rússia, a Índia e possivelmente o Brasil. Não é apenas um mundo multipolar, mas multiconceitual, porque diferentes governos têm diferentes perspectivas sobre como pactos de alcance global devem ser implementados. Será um mundo muito mais caracterizado por conflitos, fricções e diferentes interesses.

O segundo desafio é a revolução tecnológica. Estamos numa era de avanços tão rápidos que governos e indivíduos não conseguem mais lidar com eles. Temos que procurar formas de explorar todas as oportunidades relacionadas ao avanço tecnológico, mas ao mesmo tempo assegurar que elas sejam aceitas pela sociedade.

O terceiro desafio que vejo é a falta de inclusão. Temos definitivamente não apenas grandes diferenças entre países, mas também dentro dos países. Essa questão precisa ser enfrentada urgentemente.

AE – Como o senhor vê especificamente o futuro da Quarta Revolução Industrial?

KS – Há dois anos e meio escrevi o livro no qual descrevo essas noções [A Quarta Revolução Industrial, Edipro]. Olhando para trás, fico muito impressionado com a velocidade com que essa revolução se desenvolve. Por exemplo, há dois anos e meio não se falava de fato em blockchain, e coisas como carros autônomos ou uso intensivo de drones ainda pareciam ficção científica. A Quarta Revolução Industrial está entrando de forma muito acelerada na nossa realidade cotidiana. Em geral falamos só da indústria 4.0, ou seja, da digitalização dos processos de produção, mas essa revolução significa muito mais: significa a transformação não apenas da forma como fazemos negócios e como conduzimos a economia, mas também a transformação da sociedade – e possivelmente, como temos visto em alguns países, da política.

AE – Como fazer com que os benefícios de toda essa tecnologia alcancem as populações e os países mais pobres?

KS – Devemos ver a Quarta Revolução Industrial como uma oportunidade para ajudar os países a dar um salto e ingressar numa nova era. O desenvolvimento de muitos países da África, por exemplo, foi prejudicado pela falta de comunicações ou eletricidade, para os quais eram necessários grandes investimentos. Hoje você pode criar um sistema de produção e distribuição de energia por meio de painéis solares, o que permite que uma pequena vila rural numa área remota tenha acesso não apenas a uma fonte de energia, mas também à comunicação wireless. Ao redor do mundo, o conhecimento provê soluções em saúde, inclusão financeira etc. Esse é o lado positivo.

No lado negativo, a inteligência artificial e os drones, por exemplo, podem causar bastante dano se utilizados por pessoas mal-intencionadas. Temos que criar as estruturas necessárias – e o FEM criou um centro para a Quarta Revolução Industrial – para assegurar que estejamos conscientes das potenciais consequências negativas da tecnologia para a sociedade e para que possamos prever como lidar com elas.

AE – O senhor considera que há um risco grande de desemprego por conta dessa revolução?

KS – Sim. Como aconteceu em todas as revoluções no passado, teremos uma completa reformulação no mercado, porque muitas funções nas áreas de produção e serviços serão substituídas por robotização, inteligência artificial, digitalização etc. – mas também haverá novos empregos e funções. O FEM tem se ocupado desse tema. O desafio é não só como requalificar, mas como aprimorar esses trabalhadores, porque os novos empregos provavelmente vão requerer novos níveis de competência em relação aos antigos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há de 5 milhões a 10 milhões de motoristas profissionais em táxis, caminhões, ônibus etc., e também o mesmo número de pessoas que trabalham como caixas no setor do varejo. Essas profissões podem desaparecer. Minha opinião é de que estamos nos movendo da economia de produção para uma nova forma que chamo de “economia do cuidado”: a produção será feita principalmente por robôs, por automatização e pela impressão 3D, e as pessoas encontrarão novas oportunidades em questões de cuidado, como tomar conta das populações mais velhas, sendo mentores dos jovens etc.

Temos que desenvolver novas formas para a economia do amanhã, porque ela também será afetada diretamente pelo compartilhamento. Compraremos menos produtos: veja o Airbnb, ou o fato de que muitos jovens já não possuem carro próprio, mas utilizam apenas o Uber. Temos que pensar não na extrapolação do que vemos hoje, mas num contexto completamente novo que será moldado pela Quarta Revolução Industrial.

AE – Como podemos enfrentar a questão da desigualdade, que de acordo com alguns estudos vem crescendo no mundo?

KS – Quando criei o FEM, em 1971, tínhamos quatro bilhões de pessoas no mundo, e cerca de dois bilhões viviam na pobreza. Hoje somos mais de sete bilhões, e menos de dois bilhões vivem na pobreza. Fizemos um progresso substancial nos últimos anos, e não devemos nos esquecer disso. É claro, porém, que uma só pessoa vivendo na pobreza já seria demais.

Apenas redistribuir renda não é suficiente nem sustentável. Na minha opinião, a chave para atacar a desigualdade é criar um sistema educacional no qual todos tenham a chance e a oportunidade de adquirir as habilidades para criar para si um nível de vida decente, particularmente em relação às habilidades e competências requeridas na Quarta Revolução Industrial. A educação é a chave, e temos que prover aos jovens a capacitação necessária nesse novo mundo. Há alguns países que estão realmente transformando o seu sistema educacional, e acredito que o país mais adiantado a esse respeito é Singapura.

AE – Muitos governantes e chefes de Estado participam regularmente do FEM. Em que medida os debates e ideias do fórum se transformam em políticas públicas nos diferentes países?

KS – Em primeiro lugar, o impacto não vem apenas da participação de chefes de Estado ou de grandes lideranças empresariais. O que realmente importa é que, sob os eventos, corre um grande fluxo de iniciativas. O FEM tem hoje cerca de 800 colaboradores, com trabalhos em projetos específicos. O FEM foi reconhecido como uma organização internacional, o que significa que temos o mesmo status de organizações como a Cruz Vermelha Internacional ou o Comitê Olímpico Internacional e que podemos fazer acordos com governos.

A mensagem essencial é que os grandes desafios do nosso mundo – meio ambiente, migração etc. – não podem ser resolvidos apenas por governos ou empresas: precisamos cooperar para encontrar soluções comuns por meio de processos de trabalho colaborativos. O FEM provê uma plataforma e a liderança para que esses esforços consigam resolver problemas de uma forma muito pragmática.

Dou um exemplo de uma iniciativa do tipo: lançamos no mês de março, com líderes das áreas de viagens, turismo e saúde, uma plataforma para atuação imediata em caso de irrupção de uma nova doença infecciosa como SARS ou gripe suína. A ideia é criar instrumentos para reagir em termos de decisões, coordenação e comunicação. Quando houve o surto de gripe suína no México, em 2009, muitos países fecharam suas fronteiras, o que teve grande impacto na indústria mexicana do turismo. Com uma plataforma como essa, podemos atuar de forma muito mais apropriada. Esse é apenas um dentre centenas de exemplos de esforços e trabalhos nos quais o FEM tem se envolvido. É dessa forma que as discussões que temos se traduzem em resultados muito práticos.

AE – O senhor mencionou a questão da migração. Como governos e instituições podem trabalhar em conjunto para dar respostas à atual crise dos refugiados?

KS – Em relação ao que está acontecendo na Europa, temos que cuidar dos refugiados sírios de acordo com o que está estabelecido na Convenção de Genebra. No caso dos migrantes econômicos, vindos principalmente da África, a melhor maneira de lidar com a questão é ajudar esses países no seu desenvolvimento e assegurar que essas populações não sintam que são forçadas a migrar para a Europa.

Criamos no FEM uma iniciativa chamada Grow Africa, por meio da qual ajudamos países africanos a melhorar a produção agrícola com três objetivos: primeiro, ter uma produtividade maior; segundo, ser mais ambientalmente amigável; terceiro, assegurar a criação de empregos nas áreas rurais, porque há uma grande migração de pessoas saindo das áreas rurais para as favelas nas cidades. Quando falamos de refugiados, temos que olhar a raiz do problema e atacá-la.

AE – Em alguns países há também o crescimento da xenofobia. Como lidar com esse problema?

KS – Hoje, mais do que antes, as pessoas se sentem muito inseguras em relação ao futuro. Eu diria que não temos mais aquela divisão do passado entre o que era chamado de direita e de esquerda: a linha que nos divide está muito mais relacionada com aqueles que querem preservar o passado e se opõem à mudança e aqueles que aceitam a mudança. Porém, quando você aceita a mudança, tem que aceitar também as reformas que a preparam. Em vários países, a questão dos refugiados é muito manipulada de uma forma populista: dizem às pessoas que, “se não tivéssemos esses estrangeiros aqui”, a vida delas seria muito melhor.

AE – Um líder como Donald Trump nos Estados Unidos ajuda ou atrapalha nos esforços de cooperação global?

KS – Quando esteve em Davos neste ano, o presidente Trump utilizou a frase “America first, but not alone” [em tradução livre, “os Estados Unidos em primeiro lugar, mas não sozinhos”]. Penso que cada país defende os seus próprios interesses, o que é muito natural. Muitos dizem que precisamos de mercados abertos; para mim, muito mais importante é que tenhamos um sistema global baseado em regras claras que não sejam determinadas unilateralmente. Os acordos que negociarmos têm que levar em conta o contrato social dentro dos países.

AE – Como o senhor vê o papel da China como uma nova liderança política e econômica global?

KS – O papel da China vai crescer, e o país vai estender sua influência, como vimos na iniciativa One Belt, One Road. A China realmente reconheceu a importância da Quarta Revolução Industrial, e o presidente Xi Jinping sublinhou isso quando esteve em Davos no ano passado. Muitos tinham a percepção de que a China era um país em desenvolvimento, e em certos aspectos ainda é, mas ela se tornou um competidor formidável e possivelmente uma liderança em muitas das novas áreas da tecnologia.

AE – Como o senhor avalia o Brasil na atualidade?

KS – Estive pela primeira vez no país na década de 1970, quando o Brasil passava por um grande crescimento e todos falavam do chamado “milagre econômico”. Voltei muitas vezes, e então já ouvia expressões como “a década perdida” [os anos 1980]. O Brasil é um país muito criativo, com empreendedores muito bons, recursos naturais, agricultura, muito potencial como destino turístico etc.

Eu diria que o Brasil não utiliza o seu potencial. Conhecemos as razões, várias delas discutidas aqui no fórum: burocracia, corrupção, obviamente a desigualdade etc. Mas penso que algum progresso tem sido feito, como a reforma trabalhista e o combate à corrupção com a Operação Lava Jato. Tenho muita esperança de que seja eleito um presidente para os próximos quatro anos que realmente reconheça que, para realizar de forma completa o seu potencial na era da Quarta Revolução Industrial, o Brasil não pode voltar para conceitos ultrapassados do populismo, mas tem que continuar a fazer reformas como as da Previdência, do sistema educacional e outras.

Acredito que o Brasil poderia ter uma taxa de crescimento de 5% a 8% ao ano. A Índia, onde as decisões também são difíceis, alcançou um crescimento além de 7%. Eu me pergunto por que isso não é possível no Brasil, que tem mais condições do que a própria Índia, porque tem mais recursos naturais e potencialidades fantásticas. Visitei, por exemplo, a Embraer e fiquei muito impressionado com a sua produção. Por que não multiplicar todos esses tesouros ocultos que o Brasil tem?

AE – Alguns setores têm muita esperança nos resultados do tratado de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, cujas negociações já levam quase duas décadas. Como o senhor vê o papel desses acordos?

KS – Penso que não são apenas tecnicalidades que fazem com que esses acordos levem tanto tempo para ser resolvidos: há também uma falta de vontade política comum. Espero que o acordo seja assinado nos próximos meses, o que vai estimular muito o comércio e as relações industriais entre a Europa e a América Latina. A assinatura desse tratado seria muito importante, e um sinal muito encorajador, num mundo com um número crescente de guerras comerciais. 

AE – O senhor acredita que o diálogo entre instituições como o FEM e outras organizações internacionais é um caminho que pode ajudar a encontrar soluções para os grandes problemas da atualidade?

KS – Como disse antes, as grandes questões do futuro, como o problema das emissões de CO2, não podem ser resolvidas apenas pelos governos. Claro que é importante haver um acordo como o Tratado de Paris, mas no fim das contas a sua implementação tem que ser feita principalmente pelo meio empresarial e econômico. A Quarta Revolução Industrial pode fazer uma tremenda diferença nesse ponto. A tecnologia será necessária para ajudar na solução dos problemas ambientais a tempo para que se alcancem os objetivos estipulados na Agenda 2030, mas isso exige cooperação de governos, setor privado e sociedade civil.

Às vezes digo que o FEM é a organização internacional do século 21, por três razões. A primeira é que somos completamente não políticos. Temos uma junta diretiva muito ativa, com representantes de organizações internacionais e líderes empresariais, mas sem influências políticas de governos. A segunda razão é que temos um estafe muito qualificado, mas não procuramos pelas soluções por nós mesmos: oferecemos uma plataforma e convidamos as pessoas mais capacitadas para discutir cada tema e debater as soluções. A terceira é que, no mundo complexo de hoje, não podemos pensar em soluções isoladamente. Temos que colocar cada questão dentro de um ecossistema mais amplo. Se você quer tratar de cibersegurança, por exemplo, tem que olhar para o desenvolvimento de tecnologias como o 5G e ao mesmo tempo analisar as questões legais, entre outros aspectos. Você precisa de muitos atores diferentes que têm que estar juntos para que de fato se resolva um problema de múltiplas dimensões.

AE – O senhor é otimista em relação ao nosso futuro?

KS – Sim, sou muito otimista, porque a humanidade pode moldar a mudança. Em geral olhamos apenas para o curto prazo: os governos estão mais e mais absorvidos pelo gerenciamento de crises e não têm tempo para, de uma forma construtiva, desenvolver visões do futuro e preparar a população para ele.

Olhando novamente para 1971, temos que ver o importante progresso que fizemos em questões-chave como redução da pobreza, melhoria da educação, redução do analfabetismo, aumento da expectativa de vida, melhoria das condições de saúde e redução da mortalidade materna. Estou certo de que continuaremos a fazer progresso.

Pela primeira vez na história a humanidade tem a capacidade, e ao mesmo tempo o risco, de se autodestruir. Podemos fazer isso por meio de uma guerra nuclear, de curta duração e efeito imediato, mas podemos fazer também no longo prazo – por exemplo, se não tomarmos conta do meio ambiente. Mas acredito nas forças construtivas da humanidade. Apesar de todos os desafios, creio que temos a capacidade de fazer o que é certo.