Quase 50% dos brasileiros com mais de 24 anos não possuem conta bancária, de acordo com estudos realizados pelo Banco Mundial – e, conforme dados de um relatório da Goldman Sachs de 2015, os bancos praticam no Brasil uma das maiores taxas de empréstimos do mundo, apenas atrás de Malawi e Madagascar.

Com base nessas informações, a Airfox, empresa sediada em Boston (Estados Unidos) e fundada em 2016, enxergou a oportunidade de lançar os seus serviços com alternativas que contemplam diversos tipos de transações financeiras baseadas em dispositivos móveis. Por meio de um aplicativo gratuito disponível para Android, a companhia tem como principal objetivo implantar soluções financeiras que agreguem à sua carteira grandes áreas desassistidas e não bancarizadas do país.

A plataforma da Airfox é construída a partir da tecnologia blockchain, que consiste num sistema formado por uma “cadeia de blocos”. Esses blocos ou registros ficam espalhados por vários computadores ao redor do mundo, dificultando o apagamento dos dados. O conjunto de transações colocado em cada bloco é trancado por camadas complexas de criptografia, fator que eleva a confiabilidade e a segurança das operações.

Com isso, é possível oferecer a quem se utiliza desse recurso tarifas acessíveis, taxas de transferência menores e termos de empréstimos mais transparentes. Basta possuir um smartphone para testar a solução, que promete trazer mais economia e eficiência aos usuários, independentemente de já terem uma conta bancária ou cartão de crédito com as instituições tradicionais. Pelo aplicativo é possível acessar uma variedade de serviços financeiros que incluem empréstimos, cartões de crédito e débito, planejamento financeiro e informações sobre taxas de juros.

De acordo com Victor Santos, cofundador e CEO da Airfox, o direcionamento estratégico atual é o de concentrar esforços na implementação de serviços financeiros em território brasileiro – algo em torno de 80% na escala prioritária da companhia, foco que deve ser mantido por pelo menos três anos. “O aplicativo da Airfox dará acesso aos serviços financeiros para um número enorme de brasileiros atualmente excluídos do sistema. Nos Estados Unidos o nosso modelo de negócio é um pouco diferente. Não atuamos diretamente para o consumidor, como no Brasil. Lá, oferecemos serviços para operadoras pré-pagas que servem às classes mais pobres”, diz Santos.

Como funciona

Os usuários brasileiros podem depositar dinheiro no aplicativo por meio do boleto bancário, um serviço pós-pago que permite que um comprador pague por serviços online em mais de 40 mil estabelecimentos em todo o país. Além disso, podem comprar dados móveis e créditos para celulares, pagar serviços, adicionar crédito aos cartões de transporte público e transferir dinheiro para outras pessoas, entre outras funcionalidades.



Foto: Divulgação

Na prática, a integração ao sistema de pessoas que não possuem conta bancária, geralmente pertencentes às classes D e E, pode ser exemplificada da seguinte forma: uma costureira que não possui conta em banco pode receber de seus clientes via aplicativo desde que ela gere um boleto, que pode ser pago por eles em qualquer banco. Assim que o boleto é pago, esses créditos se transformam numa carteira virtual com a qual a própria costureira consegue pagar diversos outros boletos, como contas de telefone, luz, água, entre outros.

Em caráter opcional, os usuários podem adquirir ainda os AirTokens, moeda digital nativa da Airfox, que pode ser obtida após concluídas algumas tarefas como instalar aplicativos ou assistir a vídeos de curta duração e anúncios que servem igualmente para prover o pagamento de contas diversas.

Empréstimos

Outro diferencial sobre a utilização do aplicativo está na possibilidade da solicitação de empréstimos pessoais, para os quais a empresa serve apenas de intermediária entre o credor e o devedor, sem fazer diretamente a gestão do capital. De acordo com Santos, por meio da coleta de dados feita no próprio smartphone do usuário ao instalar o aplicativo, é criado um perfil de risco para conceder os empréstimos, com taxas de juros variáveis entre os usuários de acordo com uma análise de comportamento realizada por um algoritmo.


Empresa já arrecadou cerca de US$ 16,5 milhões em dois anos. A expectativa é de ampliar a base de clientes no Brasil entre 200 mil e 500 mil pessoas em 2018


Victor Santos: aproveitamento de tecnologias como o blockchain ainda está na fase inicial. Foto: Divulgação

“De outro lado, estão os credores de todas as partes do mundo, que ao acessar a plataforma têm instrumentos financeiros para investir o seu dinheiro e receber o retorno esperado”, completa o CEO. Em termos práticos, o brasileiro que for solicitante do empréstimo receberá o dinheiro em reais, mas quem empresta o valor o faz em AirTokens, que posteriormente serão convertidos para o real. O valor da moeda digital se baseia no preço das trocas e será determinado pelo livre mercado.

A companhia já arrecadou cerca de US$ 16,5 milhões desde sua criação. Para os próximos dois anos, pretende fazer um aporte estimado de R$ 25 milhões em suas operações no Brasil. A expectativa de incremento da base de usuários até o final de 2018 gira entre 200 mil e 500 mil clientes ativos. “Acredito que o aproveitamento de tecnologias como o blockchain, que hoje nos serve de base para o trabalho, ainda esteja em sua fase inicial. Mesmo para o mercado norte-americano, que está alguns passos adiante, esse ecossistema ainda não está totalmente consolidado. No Brasil, vejo que carecemos de profissionais que consigam programar nas linguagens requeridas pelo blockchain”, avalia Santos.