Harmonizar num determinado espaço uma série de cores entre objetos, peças e obras de arte. Ordenar formas e texturas concebidas ao longo de diferentes contextos históricos. A decoração de ambientes e o seu significado no mundo moderno estão atrelados à ideia de ampliação do conforto e bem-estar doméstico e corporativo.

Historicamente, a democratização do ato de decorar ocorreu a partir do século XVIII na Europa, com o advento da Revolução Industrial inglesa, que possibilitou a produção em série de mobiliários e objetos diversos frequentemente utilizados para o embelezamento de ambientes, quebrando assim o paradigma que restringia as práticas decorativas apenas à nobreza. Com a consolidação da classe média urbana europeia, a partir do século XIX, itens como tecidos, lampadários, papéis de parede e mobiliários já podiam ser encontrados em lojas de departamento ou encomendados pelos correios. Esses símbolos suntuosos e inspirados nos modelos decorativos da nobreza fizeram despertar nas classes emergentes o interesse pelo consumo de luxo.

No Brasil, a vinda da família real portuguesa, no início do século XIX, foi determinante para o início da atividade decorativa, já que, por ordem da realeza, foram trazidas de Portugal as mobílias, tapetes e acessórios em razão da impossibilidade local de se atender à demanda e também pela falta de referências em mobiliários alinhados com outras bases da decoração mundial da época.

Chegada da família real portuguesa, em 1808, foi determinante para o início da atividade no Brasil

A evolução histórica da decoração brasileira tem relevância mais acentuada a partir do início do século XX e considera uma ligação bastante íntima entre as artes plásticas, a arquitetura e o design de móveis. Entre as décadas de 1950 e 1990, observou-se um expressivo crescimento de profissionais voltados à área, com a consagração de nomes como Carolina Szabó, Léo Shehtman, Lina Bo Bardi e Sig Bergamin, entre outros. No final dos anos 1990, foi oficializado no Brasil o termo Design de Interiores, que permanece como definição vigente para essa área de atuação profissional, instituída pelo Ministério da Educação.

De encher os olhos

De acordo com a última pesquisa divulgada pelo Euromonitor, o faturamento estimado para 2017 no segmento de mobiliário doméstico brasileiro foi de R$ 43,7 milhões. Na comparação com o ano anterior, que teve faturamento de R$ 44,2 milhões, houve um leve decréscimo de 1,1%. As expectativas para o encerramento do ano de 2018, no entanto, são mais animadoras e devem atingir um eixo positivo orçado em 2,4%.

Na série histórica que considera o intervalo entre 2011 e 2021, incluindo valores consolidados e previstos, o pico de faturamento ocorreu em 2014, com uma soma que ultrapassou os R$ 53 milhões, apresentando a maior taxa de variação percentual em crescimento (8,7%) em relação a 2013. O estudo aponta ainda que, até 2021, o ramo de mobiliário doméstico no Brasil deve crescer lentamente, beirando patamares próximos a 4,6%.

Considerada a maior mostra de arquitetura, decoração e paisagismo das Américas, a 31ª edição da Casacor São Paulo, em 2017, recebeu durante os seus dois meses de funcionamento mais de 100 mil pessoas que transitaram entre os 69 ambientes assinados por 103 profissionais. O número de visitantes foi 15% maior em relação ao ano anterior. Foram realizados mais de 160 eventos dentro da mostra, envolvendo patrocinadores, parceiros, arquitetos e cerca de 180 marcas presentes no projeto.

O potencial sustentável do evento também pode ser traduzido em números. Em mais de 520 toneladas de resíduos gerados durante a montagem e o período da mostra, houve o reaproveitamento de 95% dos refugos e uma redução do consumo de água de quase 5% em relação a 2016.

A Casacor surgiu em São Paulo e depois ganhou edições em outras capitais brasileiras. Foi uma iniciativa da brasileira Yolanda Figueiredo e da argentina Angélica Rueda, que fizeram uma viagem a Buenos Aires com o propósito de visitar a exposição Casa FOA, onde encontraram amigos que lhes sugeriram a organização de um evento de decoração em terras brasileiras. Para a mostra inaugural, foram preparados 22 ambientes decorados por 25 profissionais, recebendo cerca de seis mil pessoas durante os 20 dias de exibição. O evento expande suas franquias ano após ano pelas cidades brasileiras e também conta com edições internacionais em Miami (EUA), Quito (Equador), Lima (Peru), Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), Assunção (Paraguai) e Santiago (Chile).

Universo acessível

Tudo planejado para a total imersão dos clientes que se viam porta adentro das lojas. A disposição dos amplos espaços repletos de ambientes aconchegantes foi desenhada nos moldes de um labirinto, onde se revela uma surpresa a cada curva do trajeto. Uma das maiores varejistas do Brasil, inaugurada em 2004, a Etna possui em seu portfólio mais de 20 mil produtos e trabalha com o conceito one-stop-shop, que reúne num só lugar tudo o que seus clientes precisam no segmento de móveis e decoração. Com 13 lojas espalhadas pelo Brasil, a empresa também disponibiliza seus itens através do comércio eletrônico.

O segmento de móveis é o mais procurado pelos consumidores, e corresponde a mais de 50% das vendas, com destaque para os estofados (sofás e poltronas, entre outros), mesas e cadeiras de jantar, mesas de estar e racks. “Com relação às vendas, notamos um aquecimento do mercado em 2017. Somando apenas os resultados do primeiro semestre, alcançamos um total maior que o mesmo período de 2016. A retomada do fôlego do varejo neste ano nos deixa com boas expectativas. Algumas medidas tomadas pelo governo foram fatores decisivos para esse aquecimento do mercado, a exemplo da redução da taxa de juros e da restituição de contas inativas do FGTS”, afirma Daniela Maia, diretora executiva da Etna.

Desde 2016 a empresa adota o conceito “Pronto para Levar”, um serviço em que o cliente consegue levar na hora a mercadoria adquirida para montar em casa, atendendo a uma parcela de consumidores que não querem ou não podem esperar pela entrega do produto. Para a diretora executiva da Etna, o imediatismo gerado pelo mundo conectado se reflete claramente nos hábitos de consumo, favorecendo esse tipo de opção.

“Outros fatores decisivos para alavancar as vendas foram o início da operação em plataformas de marketplace e a parceria com o Grupo Pão de Açúcar, inserindo espaços com produtos Etna nas lojas do grupo. Até o final de 2017, estaremos em 30 unidades do Extra e do Pão de Açúcar. Pretendemos reforçar também nossa atuação no comércio eletrônico neste ano”, comenta.

Tradição e encanto

A marca celebra em 2018 seus 38 anos de existência. Em 1981, Cecilia Dale inaugurou sua primeira loja em São Paulo com a proposta de trabalhar um mix de produtos variados para a casa. Desde então, com 12 estabelecimentos ativos pelo país, a empresa é responsável pela decoração natalina de pelo menos 26 shoppings espalhados pelo Brasil. Vicente Giffoni, sócio diretor da Cecilia Dale, conta que desde 1999 a companhia é designada para ornamentar o vão central do Shopping Higienópolis, localizado numa área nobre da cidade de São Paulo, com todo o aparato decorativo de Natal.

“Atravessamos uma boa fase entre os anos de 1993 e 2006, alcançando uma ótima expansão e obtendo uma média anual de crescimento que variava de 5% a 10%. Trabalhávamos fortemente com importações de procedência europeia e norte-americana, mas também abrimos posteriormente um canal com a Ásia. Nos últimos quatro anos, abandonamos as importações e passamos a fabricar os itens no Brasil”, explica Giffoni.

Toda a movelaria comercializada pela rede é originária da região Sul do país. De acordo com o diretor, tornou-se mais compensador fazer negócios com as indústrias nacionais, que melhoram a sua competitividade diante de um cenário de crise, facilitando o crédito nas transações. Os produtos campeões de vendas são os estofados de couro, mas também há muita procura por itens natalinos, que nos últimos três meses do ano têm uma participação muito expressiva nas receitas.

“Percebemos uma melhora econômica ainda muito modesta, apesar dos índices divulgados pelo governo, que mostram uma possível retomada. Apesar do clima difícil para a economia, conseguimos fechar 2016 com 7% de crescimento, à custa de sacrificar a margem de lucro para investir em publicidade. É possível que tenhamos uma média de 10% de crescimento em 2017. Para 2018 está prevista a abertura de mais uma loja no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, e queremos expandir também o número de decorações natalinas”, diz Giffoni.

Conforto estilizado

De origem iraniana, Kamyar Abrarpour, CEO da empresa By Kamy, iniciou há 40 anos sua atuação no comércio de tapetes. Apaixonado pelo universo da arte têxtil e dos trabalhos manuais, seguiu a tradição de sua família e agregou alguns de seus conhecimentos em gestão empresarial e finanças. A marca, que completou 30 anos em 2017, priorizou o trabalho autoral de grandes designers nacionais e internacionais através de pesquisas culturais, que trouxeram ao Brasil obras que se tornaram prestigiosas tendências.

A empresa, que tem quatro endereços em pontos premium na cidade de São Paulo e uma revenda na capital carioca, desenvolve um trabalho voltado à pesquisa de novas técnicas, ideias, cores e texturas. Segundo Abrarpour, o melhor cenário para a empresa no aspecto financeiro se deu entre os anos de 2010 e 2013, com crescimentos da ordem de 7% a 10%. De 2013 até os dias atuais, o aumento do Custo Brasil dificultou a paridade do fluxo de investimentos/vendas, que tem relação direta com o crescimento e a lucratividade.

A marca investiu em 2017 praticamente o dobro do que foi aplicado no ano anterior para que pudesse se manter num patamar estável, evitando o decréscimo. Os estados brasileiros com maior resultado consolidado em vendas são Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

“O foco atual é ampliar horizontes mundo afora, o que já está em andamento. Um produto como o tapete normalmente se limita à beleza da composição e, para a marca, existe uma necessidade de ir além, mostrar o que está por trás de suas linhas e estampas, como técnicas e conhecimentos, que envolvem muitos fatores. Além das lojas físicas, operamos pelo sistema de e-commerce com abrangência nacional. Fecharemos 2017 com uma margem de 2% de crescimento”, revela o CEO da By Kamy.

Sustentabilidade em revestimentos

Uma empresa centenária no ramo da produção de cerâmicas: a atividade foi transmitida do avô, imigrante italiano da Toscana, para filhos e netos, que aprimoraram as técnicas de produção reutilizando lâmpadas fluorescentes na fabricação de seus produtos, aderindo à tendência de reciclagem e mitigação dos impactos ambientais. Desde 2005, a Lepri passou a atuar no mercado de finas cerâmicas rústicas e ecológicas, alcançando um desempenho financeiro significativo entre os anos de 1992 e 2013.

Com duas lojas na capital paulista que comercializam produtos para casa, louças de mesa, vasos e filtros de água, entre outros, os briques ou tijolinhos de argila para fachadas ainda ocupam um lugar de destaque na preferência da clientela, que também solicita versões mais elaboradas e coloridas do mesmo produto. Nas lojas é possível encontrar produtos cujo preço varia entre R$ 15 e R$ 500. Em 2016, a empresa registrou um acréscimo no faturamento de 10% a 15% em relação ao ano anterior. No ano de 2017, houve uma retração da ordem de 5%.

“Temos investido na capacitação das nossas equipes nas fábricas e nas lojas. Acreditamos que essa seja uma iniciativa estratégica para alavancar nosso crescimento, que esperamos retomar, chegando a 15% ao final de 2018”, expõe José Lepri, diretor da companhia.

Tendência corporativa

Especializada em mobiliário residencial e corporativo, a Novo Ambiente, fundada em 1980, investe na promoção dos trabalhos de designers consagrados no país e no exterior, contando com algumas das principais marcas do design mundial, como Herman Miller, Vita Home, Alessi, entre muitas outras, e também uma extensa lista de profissionais relacionados a elas. Entre eles, estão os trabalhos de Philippe Starck e Marcel Wanders, Marcelo Rosembaum e Amélia Tarozzo.

Presente em cinco endereços da capital carioca e um na cidade de São Paulo, a empresa começou a profissionalizar seu canal corporativo em movelaria em 2007, oferecendo produtos nacionais e importados. A expertise adquirida inicialmente no atendimento ao setor imobiliário e também às produções de cenários de novelas abriu caminho para o contexto atual, no qual os maiores clientes estão nos segmentos bancário, em grandes escritórios de multinacionais e empresas de tecnologia.

De acordo com Bruno Crosman, sócio da Novo Ambiente, a relevância do setor corporativo passou a representar 60% das receitas da companhia. Os 40% restantes dizem respeito ao nicho residencial, principalmente a partir dos anos em que a crise econômica apresentou maior latência até a atualidade. “Entre 2008 e 2013, o ritmo de crescimento da empresa se manteve em dois dígitos, marcando um ótimo período de expansão. Hoje, trabalhamos com itens que podem variar de R$ 300 a R$ 80 mil. Um dos produtos mais procurados é a cadeira Aeron, da Herman Miller. Em 2017, a previsão de crescimento é de cerca de 7% em relação ao ano anterior”, afirma.

Novo e antigo

Numa rua tranquila da região central da cidade de São Paulo, um amplo galpão cuidadosamente estruturado e decorado com uma mistura singular de objetos e móveis garimpados em diversas partes do mundo mantém uma ambiência com características que vão do chique ao exótico.

Alessandro Bergamin, arquiteto e proprietário do Studio Bergamin há cinco anos, começou a carreira trabalhando com o tio, o renomado arquiteto Sig Bergamin, no desenvolvimento de móveis e personalizações. A diversidade de itens presentes na loja é fruto de sua própria curadoria entre antiguidades, peças novas com ares retrô e artigos étnicos. Segundo Alessandro, é bastante comum em sua loja a solicitação de peças e móveis por arquitetos e decoradores que desejam fazer produções em imóveis novos ou reformados, permitindo a seus clientes a visualização do espaço decorado. Pelo menos 80% dos produtos acabam sendo adquiridos dessa forma.

Os itens vendidos na loja podem variar de R$ 50 a R$ 15 mil, e o ticket médio está avaliado entre R$ 600 a R$ 800. “Minha proposta inicial era oferecer objetos inusitados, que pudessem proporcionar um tom de descoberta e ao mesmo tempo serem acessíveis. Experimentamos uma trajetória de crescimento ao longo destes últimos cinco anos, mas também precisamos mudar estratégias para continuar nossa evolução. Crescemos em torno de 10% entre 2016 e 2017. Foi quando decidi apostar nos objetos decorativos de maior liquidez, pois diante do cenário de crise as peças de maior valor agregado não são as mais buscadas pelos clientes”, observa Alessandro.