Com uma capitalização de mercado que supera a empresa energética estatal argentina YPF, o Mercado Livre se transformou na maior plataforma de e-commerce da América Latina, com mais de 138 milhões de usuários. É também uma empresa atraente para investimentos no terreno dos mercados emergentes, especialmente depois do lançamento, no ano passado, da Mercado Crédito, plataforma que oferece serviços financeiros de crédito para pessoas físicas e jurídicas – disponível também no Brasil desde o início de 2018.

Exemplo disso é a recente compra de ações da Mercado Livre por parte da Carmignac, administradora de fundos francesa, que por meio de seu braço Carmignac Emergents aumentou sua participação acionária para controlar 5,49% da Mercado Livre por um valor superior a US$ 628 milhões.

“As empresas de tecnologia são atrativas e sua valorização é satisfatória”, disse David Older, chefe da equipe de renda variável e gestor de fundos dos setores de TI e Mídia da Carmignac, depois da inauguração de seu primeiro escritório nas Américas, em Miami. A escolha da cidade se deu pela localização estratégica para servir de elo entre as Américas do Norte e Latina.

“Nos mercados emergentes, buscamos países com fortes fundamentos macroeconômicos e perspectivas de crescimento, que tenham indústrias de baixa penetração, mas com grande potencial de crescimento no longo prazo”

Referindo-se à presença da Mercado Livre na Argentina, no Brasil, no Chile, na Colômbia, no México e na Venezuela, Xavier Hovasse, diretor de Equities de Mercados Emergentes da Carmignac, diz que esse investimento representa atualmente a única exposição da companhia no segmento. “Enxergamos muito potencial nas fintechs, especialmente no segmento de pagamentos online. Não temos uma fintech específica em vista neste momento, mas sabemos que podemos nos beneficiar do potencial do mercado de e-commerce na América Latina”, explica.

Nos últimos anos, as empresas de tecnologia latino-americanas têm despertado o apetite dos investidores. De acordo com o relatório Tecnolatinas, patrocinado pelo Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e elaborado em 2017 pelas aceleradoras Surfing Tsunamis e NXTP Labs, existem na América Latina mais de 5 mil companhias de base tecnológica em setores como biotecnologia, medicina digital, energias renováveis, segurança de software, tecnologia espacial, fintechs e agricultura. Entre elas, 124 possuem uma valorização mínima de US$ 25 milhões. Seu valor estimado global, de acordo com o relatório, se aproxima dos US$ 38 bilhões. “São cifras que mostram claramente o potencial do setor e constituem uma plataforma promissora para investimentos de dentro e de fora”, aponta o estudo.

Xavier Hovasse: “enxergamos muito potencial nas fintechs”. Foto: Divulgação

Viagens e hotéis

A Carmignac também investiu na Decolar.com, a maior companhia de viagens online da América Latina. “Com uma participação de mercado em 20%, a empresa é a líder indiscutível da região em reservas online. Aproximadamente a metade de suas receitas vem das vendas de passagens de avião, e a outra de reservas de hotel”, diz Hovasse. “Cerca de 30% de todas as reservas de viagens na América Latina são feitas pela internet, enquanto na Europa, Ásia e Estados Unidos a cifra supera 50%”.

O executivo assinala ainda que, dada a baixa concentração do mercado latino-americano, com as dez maiores cadeias hoteleiras arrecadando somente 15% das receitas totais – contra 52% nos Estados Unidos –, “a estratégia da empresa de agregar uma ampla variedade de passagens de avião e ofertas de hospedagem é totalmente convincente”. “O modelo empresarial baseado na intermediação direta da Decolar.com pode gerar muitas entradas de dinheiro, ao mesmo tempo que requer poucos gastos de capital”, diz.

Dessa forma, a tecnologia, ao lado do potencial do ainda incipiente mercado de e-commerce da região, se transformou numa das apostas de investimentos em mercados emergentes para a Carmignac – que gerencia mais de US$ 70,8 bilhões em ativos, dos quais mais de US$ 12,6 bilhões foram investidos em mercados emergentes. Além disso, num mundo de baixas taxa de juros como o europeu, a América Latina passa a ser uma excelente alternativa para obter rentabilidade.

“Nos mercados emergentes, buscamos países com fortes fundamentos macroeconômicos e perspectivas de crescimento, que tenham indústrias de baixa penetração, mas com grande potencial de crescimento no longo prazo, e empresas com forte perfil de fluxo de caixa livre”, diz Hovasse. “Procuramos novas tendências e negócios disruptivos para investimento de longo prazo”, complementa David Older.

Para Alfonso Montero, diretor de investimentos da Credicorp Capital, a América Latina é atrativa como destino de investimento, já que o mercado de renda variável se encontra abaixo de sua média histórica e com perspectiva de crescimento neste ano – principalmente, avalia, no Brasil.

Finanças e política

Além do setor tecnológico, a Carmignac vem identificando oportunidades de investimentos em setores mais tradicionais, como o financeiro, cuja baixa penetração em vários países da região abre muitas oportunidades de investimento.

Na América Latina, a administradora de fundos conta com investimentos na Colômbia, onde tem participação no Banco Davivienda; na Argentina, no Banco Macro; e no México, no Santander e no Grupo Financeiro Banorte. No Brasil, tem participação na área de seguros do Banco do Brasil. No Peru, adquiriu ações da Credicorp e títulos da Intercorp, e avalia ampliar os investimentos nos dois grupos financeiros.

David Older: “procuramos novas tendências e negócios disruptivos”. Foto: Divulgação

“Em países como o México e o Peru, nos quais a penetração bancária é pequena, vemos um bom caminho de crescimento para a rentabilidade do sistema sempre e quando os atores não começarem uma guerra de participação de mercado. As fintechs são vistas como um complemento aos grandes grupos financeiros, e acreditamos que muitas delas serão respaldadas por esses mesmos grupos como uma forma de incrementar a penetração”, diz Montero.

Outro setor com potencial de crescimento é a construção, também na mira da Carmignac. De acordo com a filial mexicana da Moody’s Investors Services, os setores de construção, habitação e materiais de construção da América Latina têm uma perspectiva estável para 2018, com expectativa de que as atividades crescerão em boa parte do continente.

“As receitas de engenharia e construção devem chegar a um crescimento de cerca de 6% até meados de 2019, uma vez que as tendências econômicas vêm melhorando em parte da região e há base para projetos de grande escala”, aponta a Moody’s. “Espera-se que a Argentina e o Peru, por exemplo, se beneficiem de uma recuperação econômica e tenham aumento dos gastos públicos para projetos de infraestrutura”.

De imediato, a Carmignac conta com ações da Cimentos Mexicanos (Cemex) – é o segundo maior investidor institucional da empresa – e da Loma Negra, a maior produtora de cimento da Argentina, com 46% de participação no mercado.

É precisamente a Argentina o país que mais desperta o interesse da Carmignac, devido às políticas ortodoxas do presidente Mauricio Macri. “Vemos agora uma indústria da construção na Argentina que cresce na casa dos dois dígitos, enquanto os bancos obtêm capital. Também temos investimentos nos bancos argentinos”, assinala Xavier Hovasse.

O fator político-eleitoral tem peso fundamental nas decisões sobre investimentos, em especial em países como México e Brasil, que terão eleições neste ano. “O crescimento dos investimentos estará diretamente relacionado aos resultados eleitorais, e isso se deve a candidaturas que são ou de esquerda radical/populista ou da direita capitalista. Assim, uma vitória de Andrés Manuel López Obrador (pré-candidato à presidência por uma coligação de esquerda) no México terá como primeiro impacto um retrocesso nos planos de investimento estrangeiro e local no país”, afirma Alfonso Monteiro, da Credicorp.

“López Obrador é contra a reforma energética e projetos como o novo aeroporto. Ainda assim, pode haver uma oportunidade de que seu discurso seja menos radical – algo similar ao que aconteceu no Peru, quando Ollanta Humala enviou sinais positivos ao mercado”, avalia Hovasse.

Enquanto isso, e agora a partir de Miami, a Carmignac monitora diariamente a conjuntura das principais economias da América Latina para tomar suas decisões de investimentos e obter os maiores rendimentos possíveis.