O continente americano recebeu 207 milhões de chegadas de turistas internacionais em 2017. Na América Central e no Caribe, o crescimento foi de 4%, com claros sinais de recuperação após a passagem dos furacões Irma e Maria. Como assinala Zurab Pololikashvili, secretário-geral da Organização Mundial do Turismo (OIT), o turismo é o terceiro setor de exportação no mundo, e “é essencial para a criação de empregos e a prosperidade das comunidades em todo o mundo”. Pololikashvili afirma ainda que, “à medida que seguimos crescendo, temos que trabalhar de forma mais próxima para que esse crescimento beneficie a todos os membros de cada comunidade de acolhida, alinhando esse trabalho aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas”.

Na América Central, a atividade turística tem sido impulsionada principalmente graças ao apoio dos governos e a acordos como a Declaração de Montelimar e a Declaração de San José. O Conselho Centro-Americano de Turismo (CCT) é formado pelos ministros do setor nos países da região e conta com duas entidades gestoras: a Secretaria de Integração Turística Centro-Americana (SITCA) – ente técnico e gerencial do conselho – e a Agência de Promoção Turística da América Central (CATA).

A missão fundamental da CATA é promover a região como multidestino turístico para os principais emissores de viajantes. O setor turístico centro-americano estabeleceu de forma inclusiva e participativa uma rota de desenvolvimento e trabalho orientada pelo Plano Estratégico de Desenvolvimento Turístico Sustentável da América Central 2014-2018, que estabelece três áreas primordiais: mercado e promoção; política; qualidade e sustentabilidade.

A agência tem focado em desenvolver e executar a estratégia regional de mercado como multidestino em seis principais emissores na Europa: Alemanha, Espanha, França, Holanda, Itália e Reino Unido. Nos últimos anos, a entidade tem estudado cada mercado para criar estratégias particularizadas, com enfoque no longo prazo. “Um dos grandes êxitos da CATA foi unificar a oferta multidestino centro-americana e apresentá-la num catálogo inicial, que tem sido uma ferramenta de promoção e comercialização válida tanto no atacado europeu quanto para os empresários que a utilizam para suas gestões de comercialização”, diz Ana Carolina Briones, secretária-geral da CATA.

“Graças a esse projeto”, continua Briones, “conseguimos reunir a oferta do setor privado com a promoção das atrações de cada destino da região por meio de uma plataforma web inovadora que é a mais completa e integral sobre a América Central. O turista também tem acesso a um aplicativo que pode utilizar durante sua viagem, com ou sem conexão à internet. Temos trabalhado intensamente para colocar a América Central como um destino da moda para os europeus”.

 

“Tão pequena, tão grande”

De acordo com o último Barômetro do Turismo da OIT, as chegadas de viajantes internacionais cresceram 7% em 2017 no mundo todo, alcançando o patamar de 1,322 bilhão. Espera-se que a ascensão continue e que 2018 feche com uma taxa de crescimento entre 4% a 5%. Um relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) aponta que a indústria de turismo e viagens contribui com mais de 10% do PIB global e e responde por um a cada dez empregos no planeta.

Os números atestam a importância do turismo para os países da região. De acordo com dados dos ministérios do Turismo dos países da América Central, Panamá e República Dominicana, 20,3 milhões de visitantes chegaram à região em 2017. Na Costa Rica, o setor é um dos principais motores do desenvolvimento econômico e uma das principais fontes de ingresso de divisas no país. Em 2017, foram quase US$ 3,9 bilhões, o que corresponde a 6,7% do PIB.

“Estrategicamente, a Costa Rica segue um modelo turístico que tem três componentes: sustentabilidade, inovação e inclusão. A mescla desses três fatores gera a diferenciação na qual se apoia o posicionamento da marca turística do país e é o motor que impulsiona o desenvolvimento e a operação de produtos turísticos. Em última análise, isso é o que atrai fluxos importantes de turistas tanto estrangeiros quanto nacionais”, afirma María Amalia Revelo, ministra do Turismo da Costa Rica. “O Plano Nacional 2017-2021 para o setor se baseia precisamente nesse modelo de desenvolvimento que tem toda uma série de ações dirigidas para impulsioná-lo e, consequentemente, para a implementação da estratégia”.

Para Revelo, as condições naturais e sociais com que o país conta, o apoio sustentado do Estado no posicionamento muito claro da marca e o desenvolvimento de um setor privado inovador são alguns dos fatores que permitem à Costa Rica oferecer uma gama turística bastante ampla. “Abarcamos uma oferta de turismo e viagens que inclui espaços de sol e praia, aventura, ecoturismo, esportes, bem-estar e cultura. Essa mescla permite ao turista experimentar diferentes atividades. Isso tem feito com que as viagens de lazer ao país tenham duração média de doze noites, uma das mais altas da região”, comemora.

Soho Cascadas, em San Salvador: foco em estilo, gastronomia, cultura e arte. Foto: Latam Hotel Corporation

 

A ministra ressalta que todos os países estão comprometidos com programas de certificação para a sustentabilidade turística. “A importância da integração do setor em termos regionais se localiza principalmente na promoção em mercados distantes, principalmente o europeu. Nesse mercado temos uma estratégia de promoção conjunta com a marca ‘América Central: tão pequena, tão grande’. Unimos esforços e aproveitamos que muitos turistas europeus valorizam muito mais o fato de fazer uma viagem transatlântica de cerca de doze horas se tiverem a chance de conhecer vários países, e não apenas um”, diz.

Com essa visão, continua a ministra, é possível desenhar uma espécie de “pavilhão” da América Central para as viagens de férias, o que não ocorre na promoção de outros mercados turísticos que se posicionam de forma individualizada. “A integração nos permitiu estabelecer produtos turísticos primários e secundários em cada país de forma que, ao apresentar nossos catálogos de atrações, os países se complementam em vez de competir entre si”, diz Revelo.

 

Crescimento conjunto

De fato, nos últimos anos o turismo proveniente dos Estados Unidos e da Europa tem crescido de forma exponencial. “A criação de novas rotas aéreas que conectam diariamente as cidades mais importantes dos países da região, em especial Panamá e Costa Rica, tem sido um motor do crescimento do número de visitantes e da demanda hoteleira”, aponta Alejandro Antillón Appel, diretor da área imobiliária e de hotelaria da EY Central America. Essa demanda tem gerado o crescimento do setor em todas as suas expressões – operadoras turísticas, hotéis, aluguel de veículos etc.

Hyatt Centric, na Guatemala: exemplo do crescimento da oferta hoteleira no país. Foto: Latam Hotel Corporation

 

“Atualmente, apenas na Península Papagayo, na Costa Rica, estão sendo construídos vários hotéis, com investimentos que vão de US$ 100 milhões a US$ 250 milhões. Além da beleza natural, a Costa Rica oferece segurança e a experiência local de um lugar em que o turista é bem-vindo e tratado com cordialidade e respeito”, diz Antillón.

Juntamente com a Costa Rica, o Panamá é o país da região em que a indústria hoteleira tem se desenvolvido com mais força. “Com opções bastante variadas, os dois países têm uma oferta de serviços hoteleiros muito ampla, que abarca desde hotéis de curta estadia, focados em viajantes a negócios, até resorts cinco estrelas, como o Four Seasons e o Ritz Carlton”, prossegue o executivo.

Todos os países da região têm enfrentado dificuldades e momentos de mudança. O grande desafio é não perder a competitividade e garantir ao turista a permanência das condições que fazem com que sejam destinos atraentes – entre elas, boa oferta hoteleira, infraestrutura adequada e estabilidade política e social.
“Em todos esses aspectos, o trabalho do governo é crucial. Para além de criar incentivos, é necessário que o Estado faça a sua parte na construção da infraestrutura e na agilização e facilitação dos processos de licenciamento e operação dos hotéis e dos demais atores do mercado”, defende Antillón. “Deve manter a segurança e a estabilidade social, apoiar as iniciativas e investir na educação da mão de obra necessária para manter uma oferta qualificada e de primeiro nível”.

Para Javier Navarro, CEO da Latam Hotel Corporation, a Guatemala é outro país que tem tido um crescimento muito interessante em sua oferta nos últimos anos com a chegada de marcas internacionais, como a Hyatt Centric. O desafio para a capital, que tem taxas de ocupação acima de 60%, são os finais de semana, aponta, quando os hotéis devem ajudar os hóspedes a descobrir atrações como concertos, restaurantes, eventos esportivos e culturais etc.

À exceção da própria Guatemala, os países da região contam com pacotes de incentivos para o desenvolvimento turístico. “Todos os países arrecadam um imposto turístico nos hotéis. É importante que se faça bom uso desses recursos. A segurança, a conectividade aérea e a capacitação de todos os atores envolvidos no setor são fatores de importância vital”, destaca Navarro.

 

Mercado imobiliário

O projeto de desenvolvimento hoteleiro da Latam Hotel Corporation na América Central vinha sendo gestado há vários anos. O empresário guatemalteco Fernando Paiz identificou e adquiriu as melhores áreas disponíveis em cada uma das cidades da região em que a cadeia está presente agora. “Estudos de mercado nos apontaram o momento de lançar esse projeto hoteleiro de desenvolvimento corporativo e centros comerciais”, explica Navarro.

O investimento no projeto chegou a US$ 186 milhões. Foram construídos seis hotéis: três com a marca Hyatt Place, dois Hyatt Centric e um com a marca própria Latam, na cidade de Quetzaltenango, na Guatemala, com o objetivo de modernizar a oferta hoteleira em cidades secundárias. Em San Salvador, capital do vizinho El Salvador, foi construído o Soho Cascadas, espaço comercial com as últimas tendências de design, com foco em lifestyle, arte, cultura e gastronomia. Outro empreendimento foi o espaço Agora, em San Pedro Sula, Honduras. “Se Conrad Hilton baseou sua estratégia em ‘location, location, location’, a nossa está fundamentada em segurança, localização, inovação e tecnologia na forma de apresentar cada um de nossos produtos, desde a arquitetura até os detalhes do café da manhã”, descreve Navarro.

Emilio Maldonado, gerente-geral do Paradise Beach Hotel de Roatán, nas Ilhas da Baía, em Honduras, considera que toda a região apresenta um crescimento na demanda e no desenvolvimento da indústria hoteleira. A exceção é a Nicarágua, em que, por conta da crise política, o setor está estancado.

Paradise Beach Hotel, em Roatán, Honduras: valor dos terrenos permite bom retorno aos investimentos, diz gerente. Foto: Paradise Beach Hotel

 

Maldonado descreve Roatán como uma gema no Caribe hondurenho, em que os terrenos não chegam aos altos preços de lugares como Martinica, Grand Cayman ou São Tomás. Os valores no mercado imobiliário, destaca, permitem bom retorno para quem investe nesse tipo de negócio.

A estratégia do Paradise Beach Hotel está centrada em abrir novos negócios, explorando o mercado de turistas costarriquenhos e lhes dando a conhecer o Caribe hondurenho. “Queremos fortalecer a demanda do mercado guatemalteco e começar a investir também no mercado peruano, oferecendo maior conectividade para esse tipo de visitantes. Procuramos fazer nosso valor agregado crescer, desde o momento em que os viajantes chegam ao hotel e ao longo de toda a estadia”, diz Maldonado. Entre as atividades oferecidas aos hóspedes está o Sky Swing, queda livre a uma velocidade de até 80 quilômetros por hora.

Esse destino caribenho ainda tem desafios como o de construir cerca de 2 mil quartos a mais na rede hoteleira e investir em melhores estações de tratamento de água. Apesar disso, a indústria de hotéis já começa a preparar funcionários que ajudem os turistas a viver ótimas experiências de viagem.