“Queremos principalmente intensificar nossas relações comerciais e, ao mesmo tempo, levar o quanto antes as negociações em curso com o México e o Mercosul a uma conclusão”, diz o contrato que sela a nova coalizão de governo na Alemanha entre o bloco conservador, composto pela União Democrata Cristã (CDU), União Social Cristã (CSU) e Partido Social-Democrata (SPD).

O texto destaca haver “muito em comum” entre a União Europeia e a América Latina, além dos “interesses estratégicos” mútuos.  Seria isso muito? Ou muito pouco? Ou isso reflete simplesmente o valor que a América Latina atualmente tem para a Alemanha e a Europa?

“Tivemos a eleição de Donald Trump, a guerra na Síria, a crise dos refugiados e, mesmo assim, todos os anos é realizada uma viagem de delegação de alto nível à América Latina”, destaca o deputado social-democrata Niels Annen, rejeitando alegações de que a América Latina não seja mais tão interessante para Berlim.

Em 2015, o então ministro do Exterior alemão e hoje presidente Frank-Walter Steinmeier foi o primeiro no cargo a visitar Cuba; em 2017, ele também esteve na Colômbia, e o político Tom Koenigs, do Partido Verde, havia sido antes nomeado pelo governo alemão enviado especial ao país.

Especialmente no caso da Colômbia, o SPD se vê com especial responsabilidade. Annen se preocupa com o alto número de assassinatos de ativistas da paz e ameaças de morte aos candidatos do recém-formado partido das Farc.

Mas o político social-democrata não quer falar muito sobre os problemas na Colômbia e na região, preferindo lembrar os interesses comuns da América Latina e da União Europeia.

“Pensamos de maneira muito similar, especialmente em questões de política climática ou multilateralismo”, afirma. “A América Latina foi ativa nas negociações do Acordo de Paris e costuma apoiar os esforços das Nações Unidas”, sublinha, acrescentando que, por outro lado, a América Latina não compartilha mais dos mesmos interesses que EUA e China.

Oportunidade

Bert Hoffmann, diretor do Instituto de Pesquisa sobre a América Latina (Giga), em Berlim, vê isso como uma oportunidade: “Esse poderia ser um impulso político para novas iniciativas conjuntas da UE e da América Latina. E também é algo que o governo alemão deve aproveitar para projetos internacionais”.

América Latina e Europa poderiam, por exemplo, colaborar muito bem na área de governança da internet. “Ambas são regiões com um alto padrão de educação que não só veem perigos na digitalização, mas também grandes oportunidades econômicas”, enfatiza Hoffmann.

Ele lembra também o fator demográfico, já que a América Latina é um continente jovem, com idade média nos países de 20 a 30 anos. Muitas pessoas entre Tijuana e a Terra do Fogo são “nativos digitais”, ou seja, cresceram em um mundo digital.

Entretanto, Bert Hoffmann não acredita em um rápido avanço quando o tema é acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, negociado há 20 anos. “Sobretudo a França está bloqueando. O governo francês se sente em obrigação de proteger seus agricultores”, ressalta. Segundo ele, caso o acordo se concretize, os europeus teriam que competir com a carne da América do Sul, e muitos agricultores na França temem perder essa batalha.

Entretanto, como reagir diante eleições como as que ocorreram em Honduras, que foram possivelmente manipuladas? No final do ano passado, o Tribunal Superior Eleitoral em Tegucigalpa declarou o presidente em exercício, Juan Orlando Hernández, o vencedor das eleições de 26 de novembro, apesar de numerosas irregularidades e dúvidas sobre a transparência do pleito.

No entanto, o governo alemão não questionou a legalidade da votação e se disse contra um embargo de armas, como o existente em relação à Venezuela.

Para Heike Hänsel, vice-líder da bancada parlamentar do partido A Esquerda, isso é um escândalo. “É bizarro. Especialmente depois de analisar as respostas dadas ao nosso questionamento sobre o tema, no qual o governo confirma mais de meia dúzia de denúncias sobre a ação estatal após as eleições em Honduras em novembro passado, mas rejeita quaisquer consequências”, diz a deputada.

Acima de tudo, Hänsel reclama do contraste em relação ao tratamento dado à Venezuela, onde novas sanções são sempre apoiadas. “E a liderança e o judiciário hondurenhos sequer responderam aos apelos para investigar as circunstâncias que envolvem as numerosas mortes violentas durante manifestações”, acrescenta.

Niels Annen, do SPD, não acredita que o governo alemão use dois pesos e duas medidas ao lidar com um governo supostamente de direita, como em Honduras e com um regime supostamente de esquerda, como na Venezuela. “Se isso correspondesse à realidade, jamais Frank-Walter Steinmeier iria a Cuba. Mas ele fez isso, num momento em que isso ainda era assunto controverso”, destaca. “A Alemanha também cooperou de forma estreita com o governo de esquerda no Brasil, até que este foi derrubado sob circunstâncias duvidosas”, diz Annens.

Diálogo difícil

Além do México, da Colômbia e de Honduras, o governo alemão deve olhar nos próximos anos especialmente para Venezuela e Cuba. Niels Annen enfatiza que os canais com Caracas nunca foram interrompidos nos últimos anos. “Deputados alemães estiveram lá repetidamente e tentaram manter conversações com o governo e oposição, mas isso é extremamente difícil”, reconhece.

Já em relação a Cuba, o social-democrata acredita que as coisas sejam mais fáceis, não só devido à diplomacia ativa nos últimos quatro anos. “Tivemos visitas de alto nível do ministro do Exterior, do ministro da Economia e de outros representantes do Parlamento. O governo alemão realizou esforços intensos para esse diálogo.”

Além disso, a União Europeia fechou um acordo de cooperação com Cuba. Através dele, empresas estatais cubanas são assessoradas sobre como podem se reformar. E desde outubro de 2017 há um escritório que oferece apoio em Cuba para empresas alemãs que desejam investir no país.

Bert Hoffmann, do Giga, também lembra que até mesmo um Instituto Goethe quase foi inaugurado em Cuba, não fosse o cancelamento do projeto ter sido determinado pelo lado cubano.

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