Há cerca de três meses foi publicado nos Estados Unidos um estudo sobre o panorama político da sociedade americana intitulado: Hidden Tribes (“Tribos Escondidas”). O relatório, da organização More in Common (disponível aqui), oferece diversos dados interessantes que, considerando o contexto brasileiro atual, deveriam nos levar a uma profunda reflexão.

Os pesquisadores dividem a sociedade americana em sete “tribos” políticas, às quais dão as seguintes denominações: ativistas progressistas, liberais tradicionais, liberais passivos, politicamente desengajados, moderados, conservadores tradicionais e conservadores devotos.

Nos dois extremos, ativistas progressistas e conservadores devotos tendem a ser os mais engajados politicamente. Os primeiros são majoritariamente jovens e cosmopolitas; os últimos, mais velhos e patrióticos. Um é praticamente a imagem invertida do outro.

Em linhas gerais, a narrativa da polarização política enxerga a sociedade como um grande embate entre esses dois polos. Tal narrativa é reforçada pelo fato de que são justamente essas duas tribos as mais ativas na era das mídias sociais. O perfil típico da primeira tribo seria uma estudante universitária de algum curso no campo das ciências humanas. O da segunda seria o tio dela, engenheiro aposentado. Claramente não é uma receita para uma festa de família tranquila.

A impressão que se tem, acompanhando o debate político atual nos Estados Unidos, mas também no Brasil, é que a maioria da sociedade se encaixaria numa das tribos nos extremos do espectro descrito pelo relatório. Entretanto, apesar de mais vocais, os pesquisadores identificaram que ativistas progressistas e conservadores devotos são, na verdade, as menores tribos em termos numéricos. E não por pouco. Juntos, os dois grupos somam apenas 14% da sociedade americana, compondo respectivamente 8% e 6%. Isso significa que a esmagadora maioria está entre esses dois polos, com os politicamente desengajados à frente, constituindo 26% da população.

Ao conjunto dos 86% que não estão nem em um nem em outro polo, os pesquisadores classificam como a “maioria exausta”. Essa maioria tende a ser ideologicamente mais flexível e mais pragmática em questões pontuais. Sua exaustão vem da frustração com os rumos do debate político atual e da política em geral, e da sensação de que não possuem voz nesse debate. Ao passo que os politicamente desengajados tendem a ser tragados pela polarização do “nós versus eles”, a chave para uma possível superação desse cenário estaria no fortalecimento das vozes das outras tribos, que tendem a ser mais favoráveis a acordos ou a meios-termos.

Apesar da More in Common ser uma organização recente, seus pesquisadores já haviam conduzido estudos parecidos em países europeus com resultados análogos. Evidentemente a sociedade brasileira é muito diferente da americana ou da europeia e ainda faltam estudos como esse para a nossa realidade. No entanto, não parece desmedido assumir que, caso um estudo semelhante fosse conduzido no Brasil, a distribuição entre as tribos não seria muito diferente.

Os autores do relatório chamam a atenção para o fato de que o grande desafio da fragmentação política e do tribalismo é que eles tendem a gerar um ciclo vicioso. Uma vez que o tribalismo predomina num país, debates sobre temas importantes passam a ser moldados pelas identidades tribais – ou seja, o debate político some para dar lugar a conflitos tribais. Soa familiar?

 

Carlos Gustavo Poggio Teixeira - Pesquisador visitante na Universidade de Georgetown (EUA). É professor dos cursos de graduação em Relações Internacionais na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a Política Externa dos Estados Unidos (NEPEU)