A retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã é possivelmente a decisão mais relevante em política externa tomada pela administração Trump em pouco menos de um ano e meio no poder. A reação das outras partes do acordo a partir de agora será uma oportunidade de compreendermos o estado das relações internacionais no século XXI.

A primeira reação importante será a do próprio Irã. Dois caminhos são possíveis nesse momento: declarar o acordo morto e retomar o seu programa nuclear, ou tentar uma negociação com as demais partes envolvidas – França, Inglaterra, Alemanha, China e Rússia.

No primeiro caso, caminharemos para a beira do precipício, com o aumento dos riscos de mais uma guerra no Oriente Médio. A julgar pelos escritos passados do novo assessor de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, essa possibilidade não pode ser descartada.

Bolton foi um dos maiores entusiastas da guerra contra o Iraque em 2003 e já defendeu que os Estados Unidos atacassem a Coreia do Norte e o Irã. Em 2015, por exemplo, quando a administração Obama negociava o acordo que Trump abandonou, ele escreveu um artigo para o New York Times intitulado “Para impedir a bomba do Irã, bombardeie o Irã”. Mais claro, impossível. Se o Irã escolher rejeitar o acordo, saberemos se Bolton mudou de ideia de 2015 para cá. 

Entretanto, a julgar pelas declarações do presidente iraniano Hassan Rouhani, o caminho mais provável será o Irã tentar perseguir a continuidade do acordo sem os Estados Unidos. Nesse caso, devemos observar qual será a resposta de europeus, chineses e russos. No caso europeu, o que está em jogo é a própria relevância da Europa como atora nas relações internacionais.

Em crises anteriores, como a Guerra do Golfo em 1990 e a Guerra do Iraque em 2003, os europeus foram incapazes de dar uma resposta conjunta e acabaram se dividindo. As instituições europeias foram irrelevantes e cada país agiu de acordo com seus interesses nacionais.

A Guerra do Iraque serviu para demonstrar o tamanho da fissura que separa os países europeus em política externa, com uma parte, como Inglaterra e Espanha, apoiando a ação dos Estados Unidos e outra, notadamente França e Alemanha, se opondo. Caso os iranianos busquem uma continuidade do acordo com os europeus, esses terão que decidir se estariam dispostos a contrariar os interesses dos Estados Unidos, o que seria visto pelos iranianos como uma vitória diplomática. Os norte-americanos, por sua vez, terão que avaliar se aplicarão medidas punitivas aos europeus por continuarem a cooperar com o Irã.

China e Rússia, por outro lado, apontadas explicitamente pela administração Trump como adversários geopolíticos dos Estados Unidos, devem se opor fortemente às pressões da Casa Branca. Enquanto os russos vendem jatos militares para o Irã, a China é agora o principal parceiro comercial do país, com crescimento constante desde 2015, incluindo acordos em diversas áreas, como petróleo e linhas de crédito para financiar projetos de infraestrutura.

Dessa forma, a questão iraniana será mais um elemento de atrito entre Washington, Moscou e Pequim, com os dois últimos enxergando crescentes oportunidades para contestar a liderança norte-americana. Isso torna ainda mais crucial saber como os europeus reagirão. Caso decidam conjuntamente por manter os termos do acordo, testemunharemos a formação de um bloco sino-russo-europeu em oposição aos Estados Unidos, em torno de um tema crucial para a segurança internacional. Não é o tipo de coisa que se vê todo dia.

Se isso acontecer, como responderiam os Estados Unidos? Fica claro que a questão iraniana coloca um desafio muito mais amplo para a estrutura do sistema internacional daqui para frente.

O complexo jogo de xadrez da política internacional é jogado em múltiplos tabuleiros simultaneamente. Trump fez o primeiro movimento. A comunidade internacional aguarda a resposta dos outros jogadores.

Carlos Gustavo Poggio – Professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e coordenador no NEPEU - Núcleo de Estudos sobre a Política Externa dos Estados Unidos