O Brasil lembra um continente. Território imenso e gente de diversas etnias. Clima generoso. Por que não dá certo na política?

Muitos sustentam que faltou ao país um inverno mais rigoroso, que obrigasse o povo a se precaver. Seis meses de neve significam vida civilizada em boa parte do planeta. Outros chegam a afirmar que faltou guerra de verdade. Quem enfrenta luta cruenta aprende a respeitar a vida. A verdade é que não tivemos guerra, nem temos inverno. Talvez por isso o descaso em relação à natureza e ao próprio semelhante.

No momento em que a nacionalidade pensa em quem vai votar em 2018, talvez seja interessante dizer aquilo de que o Brasil necessita e que nem sempre figura no discurso eleitoral, conduzido pelos marqueteiros que fazem de qualquer candidato um obediente seguidor de ordens, baseados em pesquisas convencionais e nas prestigiadas pesquisas qualitativas.

Começo pelo óbvio. Uma república de quase 40 partidos não pode funcionar. O chamado governo de coalizão obriga o eleito a entregar fatias saborosas da administração pública a pessoas que um chefe não receberia em sua casa – pessoas que nunca fariam parte de seu grupo íntimo de amigos. Aquilo passa a ser um feudo que vai refletir o pensamento do partido e os seus interesses mais diretos, nem sempre – ou quase nunca – afinados com o interesse coletivo. 

Quando o partido se desentende com o indicado, a troca se faz de maneira imediata e impolida. Quantos ministros e secretários de governo se viram exonerados por telefone? Ou tomaram conhecimento de sua saída pelo Diário Oficial?

Ninguém acredita que os políticos possam reformular a lei em seu desfavor. Mesmo porque eles transformaram os cargos eletivos numa atraente profissão. Quem ousaria propor que o parlamento – em todos os níveis – fosse uma ocupação espontânea e não onerosa? Isso já foi assim. Se um industrial fosse eleito, continuaria a viver de seu trabalho na indústria. O mesmo para o médico, o professor, o militar, o pastor, o agricultor. Por isso, na antiga Grécia, apenas quem pudesse oferecer seu tempo e talento para o povo podia ser eleito e participar da gestão da vida pública. Voltar a pensar nisso seria interessante. 

Outra coisa precisa ser analisada com seriedade: o Brasil da Constituição Cidadã não cabe no PIB. O déficit cresce e se tornará insuportável em brevíssimo tempo. Urgente enxugar a máquina. Ela é inflada, anacrônica, ineficiente e dispendiosa. Pergunte-se ao homem comum se ele está satisfeito com os serviços de saúde, segurança, educação, transporte, mobilidade urbana, saneamento básico e outras necessidades. Os tributos de primeiro mundo não coincidem com serviços públicos de quinta categoria.

E por que não assumir que temos Estado demais? Em todos os níveis. Basta fazer uma análise serena e consistente de quanto arrecadam os estados-membros e qual a receita dos municípios, e se chegaria a uma triste conclusão: somente oito estados sobreviveriam. Os demais são sustentados pela população que produz. Muitos já se sobrecarregam com a migração interna e não conseguem manter suas estruturas, pois auxiliam aquelas das entidades federativas deficitárias.

Uma verdadeira reforma administrativa imporia o retorno à categoria de território daquele estado-membro sem condição mínima de subsistência e a reversão ao status de distrito dos milhares de municípios criados ao sabor da má política.

A alternativa seria uma autêntica reforma tributária de que o Brasil se ressente: se o constituinte – o poder soberano por excelência – quis fazer do município uma figura política da assimétrica Federação brasileira, então os tributos devem ser distribuídos proporcionalmente. A cidade, espaço onde as pessoas residem, precisa dispor de mais recursos para atender a tudo aquilo que o brasileiro reivindica, num gradual esvaziamento da União, que deveria ser apenas uma coordenação do sistema, nunca um sorvedouro que exige sacrifício de todos, sem qualquer retorno. 

Se o dinheiro da República fosse compatível com a dimensão ideal de um governo federal, talvez não tivéssemos passado pela crise contínua – o que é um contrassenso, já que crise é algo transitório por natureza. O volume imenso da arrecadação da União fez com que os políticos sem caráter se sentissem atraídos e, afinal, caíssem nos braços da corrupção mais tenebrosa de que o planeta tem notícia. 

O Brasil também precisa que a educação seja levada a sério. Como fazer com que a cidadania compreenda a sua responsabilidade e não permaneça à espera de que o governo cuide sozinho do sistema de ensino, que é de todos?

Cada eleito tem que pôr a mão na massa, não no discurso ou na instrumentalização do sofrido profissional do ensino para usá-lo como massa de manobra eleitoral – mas para prestigiá-lo e estar com ele, ombro a ombro, na busca do ideal possível.

Hoje estamos muito mal em todos os aspectos. A educação está no discurso, mas na prática o setor é encarado como hostil, verdadeiro “caso perdido”. Não é assim. Ainda existe gente séria em todos os campos. Com uma característica homogeneizante: ninguém mais acredita na política partidária, que, se quiser recuperar a confiança perdida, tem de enfrentar os grandes males da coisa pública brasileira. 

As qualidades para os próximos eleitos não diferem muito daquilo que se considera essencial para o educando no século XXI: empatia, capacidade de trabalho, entusiasmo, idealismo, ética, generosidade, compreensão de tudo o que é necessário para sobreviver na selva. 

Muitas vezes, tem-se a sensação de que a selva urbana servida de móveis de estilo e equipamentos hi-tech seja mais perigosa para o bicho homem do que a imaginária floresta real. Nesta, os animais selvagens não a eliminam, respeitam os recursos naturais e intuem que precisam daquilo para viver. Infelizmente, o bicho homem é o predador de si mesmo, do próximo, da natureza, do Criador. É o que explica a reiteração de fenômenos que tendem a confirmar à população a desvalia de uma vida político-partidária participativa, fazendo-a prometer que vai votar em branco, anular o voto e renegar todos os quadros que se apresentam como potenciais candidatos. 

Não é bom que isso aconteça. Por isso, quem tem juízo, que tenha também coragem para dizer o que deve ser dito e o que tem de ser ouvido.