Hambúrguer in vitro

O que parecia ficção científica há alguns anos atrás, hoje é uma realidade de poderia chegar às gôndolas dos supermercados em cinco anos.

A demanda por carne está em alta há no mínimo duas décadas e é previsto que, até 2050, o crescimento demográfico e da renda irão acentuar a tendência de consumo de proteína animal. Essa projeção cria desafios para a oferta – na qual os países latino-americanos têm uma alta participação - tanto em termos de produtividade como de qualidade ambiental.

Oferta e demanda no contexto da produção mundial de carne

A produção mundial de carne tem crescido desde a década de 1990 em um ritmo acelerado que mostrou uma tendência a se estabilizar em 2% ao ano e mesmo nos últimos três anos, mostrar sinais de estagnação. Embora esse dinamismo estivesse alicerçado no crescimento global, a produção de carne teve um aumento de 35,2 quilos por pessoa ao ano, em média, devido em grande parte à incorporação de proteína animal por parte das novas classes médias em países como China e na Índia.

Produção tem se concentrado ainda mais nos países emergentes que, entre os anos 2000 e 2017, passaram a dominar de 57% a 63% da produção mundial, com 3,4 pontos percentuais devido exclusivamente às economias latino-americanas, sobretudo o Brasil.

De forma paralela à dinâmica da produção, o comércio mundial de carne tem mostrado crescimento superior ao do comércio global, com uma taxa média de 3,5%, frente a 2,4% em média, anualmente, entre 2011 e 2017. Esta tendência tem muito a ver com um aumento no percentual da produção que acaba sendo destinado para a exportação.

A exportação de carnes é dominada por países sul-americanos, Índia, Austrália, Nova Zelândia e Canadá, que juntos respondem por 72% da oferta, enquanto a importação está concentrada na União Europeia, nos Estados Unidos, no Japão e, cada vez mais, na China.

Uma alternativa inovadora: a exportação de carne sintética

A carne sintética é visto como uma nova opção para a produção de carne tradicional. Um dos modelos, desenvolvido pela MosaMeat, é o cultivo de células musculares, que são extraídas de vacas vivas, para fazer crescer vários tipos de cortes de carne em ambientes de laboratório.

O CEO da empresa, Peter Verstrate, afirmou em um simpósio organizado pelo Instituto para a Integração da América Latina (Intal) e do Instituto de Tecnologia Agrícola da Argentina (Inta) que sua proposta é “encontrar soluções realmente transformadoras" em relação ao impacto ambiental, segurança alimentar e bem-estar animal. A reunião, realizada em cinco de maio, em Buenos Aires, serviu como um treinamento para mais de cem funcionários e pesquisadores do setor e abordou a questão pela primeira vez no país.

Ao considerar que 18% das emissões de gases de efeito estufa estão relacionados à pecuária e que a produção de 100 gramas de carne bovina ocupa sete m² de terra cultivável e requer 2.000 litros de água, as preocupações com a sustentação do modelo atual de produção diante do aumento da demanda parecem ter bases sólidas.

Embora o custo da carne sintética seja alto, sua evolução demonstra que, em alguns anos, poderia se tornar competitivo – produzir 1 kg passou de US$ 350 mil em 2013, quando foi feito o primeiro hambúrguer sintético, para US$ 64 em 2017. Isso torna plausível que esteja disponível nos supermercados como bem premium em cerca de cinco anos.

Além de ter um preço competitivo e uma escala potencial enorme, o grande desafio da carne sintética é a aceitação dos consumidores. De acordo com os dados da Intal , apenas 8% dos latino-americanos têm uma opinião favorável em relação à carne artificial.

É provável que ambos os esquemas de produção vão coexistir. No entanto, esse tipo de disrupção nos mercados tradicionais de países em desenvolvimento como os do ALC, nos quais o setor da pecuária tem um peso enorme na balança exportadora coloca em evidência, nas palavras de Federico Trucco, diretor-executivo da Bioceres, a necessidade de "construir uma agricultura baseada no conhecimento". A chave é encarar o desafio.