Em tempos de festa junina, o título do artigo do mês passado virou piada. Enfim a recuperação econômica. É mentira! Pois é. Aconteceu. O que muito se temia aconteceu. A divulgação do áudio de uma conversa do presidente Michel Temer com um dos donos da JBS voltou a trazer instabilidade política e abortará o atual processo de retomada econômica.

Os riscos eram muitos. Depois de um desgastante processo de impeachment da ex-presidente Dilma, este governo perdeu vários ministros por conta de escândalos de corrupção. Isso sem contar com um outro conjunto de ministros sob investigação. A qualquer momento poderiam aparecer novas denúncias que paralisassem o governo, e os riscos cresciam com as divulgações das delações da Odebrecht e com possíveis delações de Eduardo Cunha, Eike Batista e Antonio Palocci. Mas os irmãos Batista da JBS passaram na frente de todos, a delação deles atingiu em cheio o presidente Temer.

“Os riscos cresciam com as divulgações das delações da Odebrecht e com possíveis delações de Eduardo Cunha, Eike Batista e Antonio Palocci. Mas os irmãos Batista da JBS passaram na frente de todos, a delação deles atingiu em cheio o presidente Temer”

Ainda não está claro qual será o desfecho político da atual crise. Não se sabe se Temer terá condições de seguir como presidente ou se o Brasil terá um novo presidente em breve. Mas uma coisa é clara: dificilmente teremos aprovação da reforma da previdência, que era fundamental para seguir trilhando o caminho da recuperação da atividade econômica.

Se Temer ficar, dificilmente recuperará a governabilidade que tinha antes da crise. Se tivermos um novo presidente, este terá que aglutinar apoio para esta importante reforma, mas terá pouquíssimo tempo, pois em alguns meses o congresso já estará de olho nas eleições de 2018. Assim, a reforma da previdência não avançará ou terá que ser ainda mais desconfigurada (já tinha perdido em torno de 30% dos efeitos financeiros originais) para poder avançar. Com isto, o próximo presidente terá que, já em 2019, se debruçar sobre este importante tema.

Voltando à economia, o PIB do primeiro trimestre, que mostrou crescimento de 1%, confirmou que a recessão de oito trimestres consecutivos se encerrou. Mas, infelizmente, isto já é notícia velha. Os próximos meses mostrarão reversão neste processo, com queda da confiança de empresários e consumidores, impactando negativamente a atividade econômica, que deve voltar a recuar já no segundo trimestre. O cenário da 4E mostra nova queda do PIB este ano, de 0,1%, e baixo crescimento no próximo ano, de apenas 1,2%.

Para que o Brasil retome a capacidade de crescer e gerar empregos, precisamos ter estabilidade política, que só deve vir após as eleições de 2018. Se elegermos um novo presidente que não compactue com a forma antiga e corrupta de fazer política e que, ademais, esteja comprometido com as reformas econômicas e com o processo de ajuste fiscal, o país voltará a apresentar elevada taxa de crescimento, ainda que seja somente a partir de 2019.

Juan Jensen – Doutor em economia pela USP, sócio da 4E Consultoria e professor do Insper (jensen@4econsultoria.com.br)