O período de grandes transformações disruptivas que vivemos será lembrado pelas próximas gerações como a Era da Inteligência Artificial, ou o início da supremacia das redes neurais, vencido o antigo paradigma que sempre desafiou a ciência e a tecnologia na eterna busca de se aproximar do cérebro humano.

As ciências relacionadas ao comportamento humano começam a ter uma gravitação fundamental. Desta vez, caracterizadas basicamente pela disrupção causada pelos dados como os grandes protagonistas dessa revolução que muda tudo. Há pouco tempo, 95% das empresas do mundo eram feitas de tijolo e argamassa (brick & mortar), que pensavam exclusivamente em como vender um produto, sob um vínculo produto/cliente. O conceito agora é de solução/plataforma, que aborda questões muito mais complexas, tais como: do que meu cliente, com nome e sobrenome, gosta? O que ele compra? E mais importante: o que ele deixa de comprar?

O cliente como entidade central ganha luz própria, graças à tecnologia, e a partir daí vai se descontruir a cadeia de valor. Todos os brick & mortar que fabricam produtos terão que reelaborar sua cadeia de suprimentos e sua cadeia de valor, agora considerando a forma como compram, como manufaturam, como vendem e distribuem, sua logística.

Não se trata apenas do canal digital, que ainda é pouco significativo, uma vez que o comércio eletrônico não supera os 15% do volume global de vendas, enquanto 85% dos consumidores ainda compram na loja física. O que importa não é quem vai vencer a guerra do comércio, mas quem vai conseguir obter a convergência de todos os canais (omnichannel).

Sabemos que não é simplesmente a compra de novas tecnologias que irá salvar a empresa. Será preciso mudar o modelo de negócio e o próprio trabalho. É uma mudança de atitude, habilidade e alinhamentos

Dados são a nova moeda não apenas sobre o comportamento dos clientes: são decisivos na gestão da empresa. Todos os traços digitais (log de execução) são capturados pelas novas ferramentas, que reúnem um conjunto de soluções para gerenciar as informações. Os softwares de mineração de dados usam os traços digitais para reconstruir o que acontece numa organização. Mostram as variantes, desde o fluxo de processo mais comum até uma visualização completa de todas as operações em execução.

O melhor vem depois de automatizar e acompanhar em tempo real as operações. Ter processos adequados ajuda a melhorar o desenvolvimento das empresas para obter a maior produtividade, rentabilidade e clima laboral. A tecnologia aprende automaticamente como  a empresa funciona e detecta as vulnerabilidades ocultas. Soam alarmes quando detectadas ineficiências e desvios do processo-alvo que geram custos ou prazos desnecessários para entregar e receber pela venda.

Pode-se agir antes para corrigir o tempo perdido devido a estrangulamentos, desvios desnecessários e intervenções, ou onde surjam problemas de conformidade. A tecnologia analisa os tempos de processamento para detectar gargalos e mostra, de forma flexível, o tempo de processamento de todas as variantes de processo e as etapas individuais envolvidas. Ao capturar todas as informações da empresa num sistema único e escalável, a tecnologia ajuda a reduzir em até 70% o seu tempo de análise.

Uma tendência irreversível: os dados passaram a ter valor intrínseco e fazem parte da cadeia de valor das empresas. Já existe um mercado de compra e venda de dados, além de empresas especializadas em utilizar as informações extraídas dos bancos de dados dos varejistas na montagem de estratégias para testar novos produtos de consumo, programas de fidelidade, ações de marketing etc.

As grandes redes já fazem uso comercial dos dados. Mas a imensa maioria das empresas ainda nem sabe que pode capturar e consolidar esses dados e transformá-los em dinheiro por meio de um negócio paralelo ou programa específico.

A monetização ocorre, por exemplo, quando o varejista vende informações úteis sobre sua base de clientes para outras empresas, interessadas em criar uma base de dados para montar programas de fidelidade, orientar os fabricantes de bens de consumo sobre produtos que não podem faltar para abastecer o mercado, quantidades, perfil de quem compra, regiões. Mais: essas informações podem ainda ajudar a entender melhor as características do cliente para oferecer produtos adequados.

Outra vertente surgiu com o advento de plataformas que utilizam tecnologias para analisar dados obtidos sobre a movimentação dentro das lojas pelo rastreamento do sinal wi-fi do smartphone, mais a combinação com informações do PDV e até de dados de navegação de aplicativos mobile, para cruzar dados e entender o que o cliente está buscando.

Nos casos em que ele comprou, a tecnologia permite o oferecimento de novos produtos e aumentar o cross selling; nos casos em que não houve a compra, formata e envia promoções com os produtos que foram vistos ou que despertaram maior interesse, a fim de maximizar a conversão de vendas. Esses dados ficam todos armazenados num grande Big Data, permitindo novas ações comerciais no futuro. Hoje já temos todos os tipos de ferramentas que predizem o comportamento do consumidor e tendências imediatamente com base nos dados. O lado bom é que novos empregos são criados para pessoas que são capazes de desenvolver uma ligação bem-sucedida entre o mundo real e plataformas digitais, e as empresas serão mais sustentáveis.

A economia passou a ser um Data Driven Business. De acordo com uma pesquisa do IDC, em 2019 uma em cada 10 empresas utilizará os dados como elemento central do serviço que presta. As empresas já podem recorrer às plataformas externas na nuvem para tomar decisões com base em dados mais precisos. A melhor maneira de prever o futuro, como ensina o consultor Peter Drucker, é criá-lo.

Já existem ferramentas que tornam obsoleta a bola de cristal. Temos plataforma de serviço de análise de dados avançada na nuvem (BaaS - Business Analytics as a Service), a fim de auxiliar as empresas de diversos segmentos (indústria, varejo, bancos) a decidir quais ações tomar tanto para aumentar rentabilidade como para direcionar o negócio. Entre os benefícios inovadores estão acesso aos principais indicadores de negócio por setor; dados setoriais comparativos (benchmark); modelos preditivos prontos para serem instalados; integração com outros aplicativos e infraestrutura ágil e escalável.

Convém perguntar: o que virá depois da atual explosão da transformação digital? Já sabemos que não é simplesmente a compra de novas tecnologias que irá salvar a empresa – e apenas digitalizar os negócios já não é mais suficiente. Será preciso mudar o modelo de negócio e o próprio trabalho. É uma mudança de atitude, habilidades e alinhamentos. Não é uma mudança fácil, uma vez que abrange pessoas, que são o ativo mais importante, envolve resistências e desafia sua capacidade de desenvolvimento e incorporação de novas habilidades.

Por se tratar de uma mudança cultural, ela deve estar associada à cultura de cada organização – não funciona copiar a concorrência. Há ainda um forte agravante: a velocidade. Hoje os tempos de desenvolvimento de produtos caíram drasticamente, para apenas seis semanas. Embora a tecnologia disponibilize tudo muito rápido e isso seja uma oportunidade, é também uma ameaça, pois meu competidor, seja grande ou pequeno, possui provavelmente o mesmo acesso que eu.

Equipes colaborativas e multidisciplinares são fundamentais frente ao desafio da urgência e de ter respostas e novos conceitos ágeis e de small improvement; de entregar e melhorar sempre; de construir rápido e descartar com a mesma rapidez ideias que não tenham condições de ser bem-sucedidas.

Com a rápida transformação digital dos negócios, os próximos três anos serão fulminantes para as empresas nascidas analógicas, muito mais do que tem ocorrido nos últimos 50 anos. Quem não se adaptar vai sair do mercado. E, contrariamente às mudanças anteriores, como a adoção da eletricidade ou ferrovias, a digitalização é baseada na evolução de vários componentes – entre eles semicondutores, redes de comunicação, computador, engenharia, análise de dados, dispositivos de acesso, robótica, inteligência artificial e sensores, com impacto determinante na produção de bens e serviços provocada pela incorporação massiva de novas tecnologias. Isso implica uma reestruturação das cadeias de valor mediante introdução de comunicações, aplicações, plataformas e conteúdo tecnológico, bem como do trabalho.

O que vemos agora, com a combinação de diversas tecnologias disruptivas (internet das coisas, Big Data, cloud, analytics) é uma nova forma de pensar e, no fundo, uma revolução. A transformação digital – também chamada de digitalização da produção e da cadeia de valor ou internet industrial – pode ser definida como o conjunto das diversas mudanças associadas à adoção generalizada de tecnologias digitais nos processos produtivos, com a consequente mudança nos modelos operacionais e na dinâmica do funcionamento do mercado.

Em breve, será comum haver produtos conectados, como se tivessem cérebros – como a cafeteira elétrica ter autonomia para fazer o pedido de reposição do café; caminhões sem motoristas para entregas com logística definida para otimizar roteiros; lojas sem caixas, com o débito no cartão na saída; pizzarias robotizadas desde o pedido até a produção e entrega. O uso da telemetria praticamente coloca a empresa no piloto automático.

Já temos redes neurais que permitem a previsão de demanda com base no uso inteligente de grandes volumes de dados de clientes em tempo real. A plataforma utiliza algoritmos matemáticos para executar grandes volumes de transações de dados do cliente e eventos externos, tais como previsões meteorológicas, concorrência de preços e campanhas promocionais, para sincronizar automaticamente a demanda em conjunto com os sistemas de planejamento, ajustando e otimizando a cadeia de fornecimento das plataformas de execução.

Nesse contexto, o verdadeiro desafio consiste em transformar as pessoas e seus padrões de pensamento, e em como as organizações precisam avançar para tirar proveito de todas essas mudanças. Se tudo mudou, os negócios não podem mais ser conduzidos como antes. Não basta  investir em novas tecnologias: é necessário fazer a integração da cadeia de valor de forma rentável e lucrativa.

Há muita tecnologia no mercado – falta ganhar dinheiro com elas. Não existe mais a opção de ignorar o que precisa ser feito, como o redesenho organizacional que permita analisar os dados para tornar os negócios mais rentáveis.

Estamos entrando no quarto grande ciclo de transformação da humanidade e do conhecimento, impulsionado pela aquisição e gestão de dados; mas é necessário modificar os sistemas de negócios para capitalizar a tecnologia disponível.