A eleição presidencial está chegando ao final e muito provavelmente, se não houver fato novo relevante, de acordo com as pesquisas Jair Bolsonaro será o próximo presidente do Brasil. Bolsonaro tem pouco conhecimento sobre economia e terceirizou essa agenda para Paulo Guedes, economista com formação em Chicago, de linha liberal. A agenda a ser implementada, para colocar o país de volta aos trilhos, precisa não só do direcionamento das reformas econômicas, mas também lidar com as restrições políticas, além de requerer boa articulação para que elas sejam aprovadas. Assim, por aspectos relacionados a esses pontos, já podemos esperar que teremos anos difíceis pela frente.

Já comentei diversas vezes neste espaço a necessidade da reforma da Previdência. Sem uma reforma dura e abrangente, é impossível qualquer ajuste fiscal duradouro. Os detalhes da reforma de Bolsonaro ainda serão apresentados, mas membros de seu provável núcleo de governo já descartaram o conteúdo da reforma de Temer, aquela que havia sido aprovada na comissão especial da Câmara dos Deputados em 2017. O deputado Onyx Lorenzoni, cotado para assumir o Ministério da Casa Civil, afirmou recentemente que a reforma de Temer é “uma porcaria”.

A reforma a ser apresentada à sociedade precisa ter impacto financeiro similar àquela formulada no governo Temer. Combater apenas privilégios é insuficiente para lidar com o crescente déficit, que está calcado no envelhecimento da população. Não temos como fugir de uma reforma que contemple idade mínima, regras de transição duras e unificação dos regimes público e do INSS, além é claro, de combater privilégios, como o dos militares.

Na agenda tributária, as poucas declarações dadas por Paulo Guedes vão no sentido contrário do que realmente precisa ser feito. Diminuir a quantidade de alíquotas e criar uma CPMF turbinada vai piorar o nosso caótico sistema, tanto em relação à eficiência econômica quanto em relação à progressividade. Aqui, deveríamos avançar sim na simplificação, mas em direção a um grande e abrangente imposto sobre valor agregado.

Estas são apenas algumas considerações econômicas. Há que considerar ainda as restrições políticas e habilidades de articulação frente a um Congresso eleito que é ainda mais fragmentado que o atual. A negociação junto ao Congresso será realmente fundamental e estará presente em todos os momentos. Nesses pontos pairam muitas dúvidas de como será um governo Bolsonaro.

Assim, as atuais escolhas da sociedade nos trazem um cenário em que o mais provável é que o conjunto de reformas avance lentamente, com um desenho longe do ideal. Diante disso, a economia seguirá crescendo pouco, ao redor de 2% ao ano, em ritmo insuficiente para reduzir de forma significativa a taxa de desemprego.

De qualquer forma, desejo sorte e juízo ao nosso próximo presidente, e que as surpresas sejam mais positivas que negativas.