O Brasil acordou risonho em 2019. Esperançoso de que a lição das urnas viesse a renovar a confiança nos destinos deste solo tão privilegiado e tão desrespeitado.

O recado da cidadania foi muito explícito. Os espaços mais esclarecidos disseram “basta” para a velha política – aquela dos profissionais que estão a serviço de seus próprios interesses e só no discurso incluem o bem comum.

A política partidária é uma das grandes decepções brasileiras. Dezenas de partidos disputam o butim do Fundo Partidário e com ele se eternizam pseudolideranças cuja tarefa é a autopreservação. Não existe possibilidade alguma de se detectar quase quarenta concepções de governo, daí a falácia desta República de quase quarenta partidos.

Recado dado, será que haverá coragem para as medidas inadiáveis?

O Brasil gasta muito mais do que produz. O déficit público é astronômico. O Parlamento ainda deixou bombas de efeito imediato para a nova administração. Não se conseguiu aprovar a inevitável reforma da Previdência. Ao contrário, houve uma corrida à aposentadoria, como se o fato de se reconhecer “direito adquirido” suprisse a falta de recursos para satisfazer proventos e pensões. Sem uma profunda reforma estrutural da Previdência Social, em breve não haverá dinheiro para pagar aposentados e pensionistas. E daí? O que acontecerá?

O quadro é real e os cálculos são atuariais. Todas as administrações públicas continuam a inflar as estruturas funcionais. O gasto com pessoal é insensato. Até porque a maioria dos serviços públicos padece de ineficiência, é muito dispendiosa para a sua pífia qualidade e não há como eliminar a suspeita de falta de lisura.

Também não vejo quem aponte para um outro problema grave. Quantos municípios brasileiros têm condições de se sustentar? A volúpia emancipatória conferiu autonomia administrativa a populações que melhor estariam servidas se conservassem o status de distritos.

A circunstância de terem sido “promovidas” a municípios, entidade da Federação brasileira eufemisticamente chamada “assimétrica”, só gerou mais despesas para o povo. Prefeituras com todas as secretarias, cada qual com sua estrutura e seus veículos. Câmara Municipal com vereadores, assessores e funcionários. Veículos oficiais e tudo o mais. Só falta a Justiça municipal, para onerar ainda mais a população.

O mesmo se diga de Estados-membros. De acordo com os dados fornecidos pelo Ministério da Fazenda, apenas oito são capazes de responder por seus encargos. Os demais dependem da contribuição desses oito. São Paulo, que acolhe brasileiros de todas as paragens e estrangeiros de todo o planeta, não vê retorno compatível com seu dispêndio. E, desde 1932, é a unidade mais prejudicada da Federação em termos de representatividade.

O voto paulista vale menos do que o sufrágio de um estado que até há pouco era território. Há um limite para o número de deputados federais, que impede a população paulista de uma representação compatível com a densidade demográfica bandeirante. Em solo paulista não vale a regra “um cidadão, um voto”. Aqui vigora o “um cidadão, meio voto”. O mesmo ocorre com Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro.

É quase impossível acreditar que haja espaço para uma reforma política suficiente para corrigir as disparidades. Menos ainda que haja condições para reduzir o tamanho da União. Ela, que deveria ser apenas uma coordenação dos Estados-membros, passa a ser a grande gastadora. Aquela que amealha tributos de todos os brasileiros e devolve a conta-gotas, deixando à míngua milhões de indivíduos desassistidos. Sem saúde, sem segurança, sem educação, sem infraestrutura, sem trabalho, sem moradia, sem saneamento básico.

Aqueles que fizeram a sua mensagem chegar às urnas têm o compromisso de acompanhar o desenvolvimento das novas gestões e de cobrar a observância dessas diretrizes. A democracia representativa está em fase falimentar em quase todo o mundo. É uma das grandes angústias contemporâneas, ao lado do aquecimento global e de seus impactos na vida de cada ser humano e dos efeitos da devastadora 4ª Revolução Industrial.

A alternativa é lutar pela implementação da democracia participativa. Dá trabalho, preocupa, aflige e faz sofrer. Mas não há outro remédio. Sem ela, tudo continuará como sempre foi. A política a atender a interesses pessoais e partidários. A administração pública inflada e ineficiente. O brasileiro entregue ao abandono e ao deus-dará.

Um fenômeno que precisa ser analisado com serenidade é o da influência das redes sociais. O poder instantâneo de comunicação mostrou-se superior à mídia espontânea, ao tempo de TV na falácia da propaganda eleitoral gratuita, à velha política dos comícios, dos cartazes, dos “santinhos”. Que elas continuem a influenciar as consciências, para que o brasileiro aprenda a intervir com vontade na fiscalização do governo.

Quem paga a conta é quem tem direito a exigir serviço público garantidor da observância do supraprincípio da dignidade da pessoa humana, alicerce norteador da vida brasileira desde 5 de outubro de 1988.