Na semana passada, mais uma cúpula do G20 entrou para a história. Ela foi marcada, primeiro, pelo desconforto dos Estados Unidos diante de uma agenda predominantemente defendida pelos países europeus e pelo mundo emergente, e, segundo, pela tentativa de mapear o futuro das relações de Donald Trump com importantes players como Rússia e China.

Às margens do encontro, que reunia os líderes dos vinte países mais industrializados do mundo, protestos impediam o deslocamento por diferentes regiões de Hamburgo, na Alemanha. Há registros de que pelo menos 160 policiais tenham sido feridos e que 70 pessoas tenham sido presas. “Bem-vindos ao inferno” e “o G20 não é bem-vindo” diziam alguns dos cartazes dos manifestantes.

Protestos desta natureza não são novos. Eles acompanham o processo de globalização desde os anos 1990, quando se falava em “fim da história”, “fim da geografia” ou mesmo sobre a consolidação de um “mundo plano”. O debate sobre a capacidade transformadora da globalização ganhou tanta força, que chegou a admitir o agrupamento de teóricos em basicamente duas vertentes: dos globalistas e dos céticos. Para estes grupos, há contradição quanto à gênese, formação e designação do processo, bem como sobre várias questões cruciais que o envolvem: a expansão das relações comerciais e financeiras, o surgimento de novos atores transnacionais, o multilateralismo, os processos de integração regional, a propagação de princípios ocidentais como liberalismo e democracia, a ameaça da homogeneização cultural e os mecanismos de governança global. 

De forma geral, para os críticos, a globalização aprofunda desigualdades estruturais entre o norte e o sul do planeta e também cria entraves à soberania e à legitimidade dos Estados nacionais ao passo que sua autoridade política seria suprimida e afetada por novos sistemas regionais e globais de poder, gerando spillovers sociais e institucionais. De forma simples, os países enfrentariam constrangimentos vindos de fora para dentro.

Do ponto de vista doméstico, trata-se de um novo momento para a democracia e suas instituições. Do ponto de vista internacional, parece que precisaremos voltar a discutir governabilidade antes de querer falar em governança

É sobre este ponto, justamente, que parece incidir a novidade deste G20. Em 2017, os dilemas da globalização seguem em pauta, mas, dessa vez, sugerem ser necessário incluir preocupações cuja natureza vem na direção contrária: de dentro para fora. Isso porque, em vários casos, os problemas dos países parecem ter menos a ver com a imposição de “interesses internacionais” sobre si e mais a ver com a degradação de suas lideranças internas.

Nos Estados Unidos, Trump tem a menor taxa de aprovação desde que a série histórica é produzida - 40%. Na Alemanha, às vésperas da eleição legislativa de setembro, o Partido Conservador não está seguro de que Merkel conseguirá conquistar um quarto mandato. Na Inglaterra, Theresa May, que há um ano teve aprovação análoga a de Margaret Thatcher e Tony Blair, hoje é quase tão impopular quanto Jeremy Corbyn, seu oponente do Partido Trabalhista. Na França, após uma eleição que condenou o establishment político, Macron enfrenta resistências para emplacar sua agenda de reformas. No Brasil, em meio a denúncias de corrupção e medidas impopulares, Temer amarga 7% de aprovação.

As razões para esse cenário variam de acordo com cada realidade local e regional de cada país. Além disso, não se pretende dizer que o plano externo seja irrelevante para moldar as agendas individuais. Sabemos dos desafios inexoráveis que vieram, em escala global, com a revolução tecnológica e da comunicação. Reconhecemos que há questões sistêmicas que se impõe sobre a comunidade internacional: ameaças à saúde, problemas relacionados à desigualdade (incluindo fome e pobreza), migrações, mudança climática, segurança energética e terrorismo, por exemplo. Sobre cada uma dessas agendas existe um enorme mosaico de vontades que deseja se impor.

No entanto, seria desonesto ignorar que, hoje, boa parte dos dilemas nacionais estão ligados, antes de qualquer coisa, a uma profunda crise de legitimidade, articulação e representação política. Mundo afora, assistimos a um processo de polarização ideológica e de descrédito dos sistemas de poder estabelecidos. Ao mesmo tempo, vemos políticos e partidos cada vez menos hábeis para criar consenso e responder de forma eficiente às demandas de suas sociedades.

Não há saída fácil. Do ponto de vista doméstico, trata-se de um novo momento para a democracia e suas instituições. Do ponto de vista internacional, parece que precisaremos voltar a discutir governabilidade antes de querer falar em governança.