A indústria financeira é um setor dinâmico da economia global e constantemente passa por mudanças, choques, crises e oportunidades. Um dos importantes papéis desempenhados pelo CFA Institute, entidade global que reúne mais de 145 mil profissionais de investimento em 160 países, é promover a discussão sobre o futuro dessa indústria. No estudo intitulado “Future State of the Investment Profession”, publicado em abril, o CFA Institute identifica megatendências que afetarão as finanças globais, incluindo o envelhecimento populacional, o uso intensivo de tecnologia, desequilíbrios econômicos, incerteza política e maior conscientização sobre o uso de recursos naturais. Quatro cenários são identificados no estudo e servem como base para entender as possíveis mudanças na indústria financeira diante dessas tendências em um horizonte de cinco a dez anos.

O primeiro cenário trata da “Disrupção pelas Fintechs”. A inovação tecnológica seguirá seu caminho inexorável e a infraestrutura regulatória buscará manter-se a par da evolução dos mercados. A gestão ativa de recursos encolherá e dará espaço a sistemas e máquinas inteligentes na análise de dados. Serviços financeiros ficarão mais personalizados e digitais. Robo-advisors e outras figuras ainda pouco difundidas se tornarão ferramentas preferidas para a decisão e execução de investimentos. Um número cada vez maior de players baseados na Ásia-Pacífico ganhará participação no mercado com o uso intensivo de tecnologia.

“No estudo intitulado “Future State of the Investment Profession”, publicado em abril, o CFA Institute identifica megatendências que afetarão as finanças globais, incluindo o envelhecimento populacional, o uso intensivo de tecnologia, desequilíbrios econômicos, incerteza política e maior conscientização sobre o uso de recursos naturais”

O segundo cenário é denominado “Mundos Paralelos”. Segmentos distintos por geografia, geração e classe social demonstrarão um engajamento diferente com o mundo e com as finanças em particular. Com as melhorias no nível de educação, saúde e telecomunicações, mais inovação terá lugar na sociedade. Produtos de investimentos passarão a ser mais personalizados e direcionados para segmentos demográficos específicos, e as redes sociais terão um papel fundamental na relação entre investidores e os canais de investimento. No lado político, conflitos intergeneracionais e entre classes sociais distintas vão se fazer evidentes em temas como globalização, nacionalismo e populismo.

O terceiro cenário se chama “Menor por Mais Tempo”, em referência a três fenômenos importantes para as finanças: baixas taxas de juros, baixos retornos para os investidores e baixas taxas de crescimento econômico. Endividamento, envelhecimento populacional, crescimento desacelerado na China e reformas trabalhistas limitadas pesarão sobre as economias no futuro próximo. Sistemas de pensão sofrerão com déficits nos planos e maior longevidade, com a consequente necessidade de se trabalhar por mais tempo. Instabilidade política e social se conectarão e produzirão sentimentos negativos sobre temas como emprego, imigração e desigualdade social.

O quarto e último cenário é talvez o mais esperançoso de todos e se chama “Capitalismo com Propósito”. Governos criarão condições para um sistema capitalista socialmente consciente e alinhado com o crescimento da riqueza da sociedade como um todo. Bancos centrais e reguladores focarão em tornar confiáveis às instituições participantes do mercado, em gerir problemas sistêmicos e em reduzir riscos de crises financeiras. Os mercados serão cada vez mais eficientes e justos, principalmente por meio da inovação tecnológica, com os provedores de serviços financeiros observando cada vez mais princípios ambientais, sociais e de governança.

Tais megatendências e cenários são bastante plausíveis. Eles se tornarão realidade? É difícil dizer, mas é também preciso reconhecer que haverá mudanças importantes na indústria financeira, e os quatro cenários desenhados pelo CFA Institute apontam caminhos possíveis que precisam ser conhecidos pelos profissionais do setor. No médio prazo, sobreviverão na indústria apenas aqueles indivíduos e organizações preparados para o futuro das finanças.

Mauro Miranda, CFA – Presidente da CFA Society Brazil