Imaginem um grande evento, idealizado pelo engenheiro e economista Klaus Schwab, que ocorre há 47 anos consecutivos, durante quatro dias, com cerca de 400 painéis temáticos diferentes, reunindo a nata da elite política, intelectual, empresarial e sindical do mundo, totalizando 3.500 participantes de mais de uma centena de países, incluindo cerca de 60 chefes de Estado. Tudo isso em um imenso Congress Center e em uma dezena de hotéis na pequena cidade de Davos (estação turística de esqui nos Alpes suíços).

Imaginem agora uma estrutura organizacional perfeita, sem atrasos, e uma infraestrutura impecável de segurança máxima em um evento austero e sem luxos. Um evento onde, a rigor, você, por acaso, pode tomar um cafezinho em pé com um primeiro-ministro, um banqueiro central, um intelectual best-seller, um prêmio Nobel, um Jack Ma, um Elon Musk, um Jeff Bezos ou um filantropo despojadamente calçando tênis, como Bill Gates. Ou, se achar melhor, tentar agendar uma conversa com literalmente qualquer um dos participantes graças ao aplicativo muito bem concebido no qual os participantes também se inscrevem previamente para os painéis de seu interesse, geralmente muito concorridos e com lugares rigidamente limitados.

Imaginem debates muito bem organizados com moderadores top (que já trocaram ideias semanas antes com os painelistas para que não haja surpresas) abordando temas transversais da sociedade, em que ninguém utiliza power point, em discussões sempre de alto nível. Nenhum empresário que participa dos painéis está lá para falar de sua empresa ou de seu novo projeto. Ele participa de um debate de ideias que sejam relevantes para as sociedades em todo o mundo.

O termo “econômico” não expressa com precisão a natureza da maioria dos debates no Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês). Como frequentei o WEF nas suas últimas seis edições, fiz uma conta rápida e identifiquei que apenas 15% dos debates temáticos do Fórum de Davos têm a ver diretamente com questões efetivamente econômicas. Mesmo assim, rarissimamente são debates estritamente macroeconômicos. São temas econômicos que se mesclam com política, com tecnologia e com questões sociais. Claro, há muitas discussões de grande interesse sobre geopolítica mundial com personagens como Xi Jinping, Angela Merkel, Vladimir Putin e Emmanuel Macron, ou com líderes latino-americanos.

A grande maioria dos debates se refere aos impactos das transformações tecnológicas sobre a sociedade

A grande maioria dos debates se refere aos impactos de grandes transformações tecnológicas sobre os países e sobre as sociedades, em particular aqueles decorrentes da revolução digital e cognitiva – inteligência artificial, internet das coisas, computação na nuvem, ciências do cérebro, robótica, algoritmos cognitivos (machine learning), big data, blockchain, impressão 3D, biologia sintética, nanomateriais, novos materiais como o grafeno, neurociência avançada, medicina, agricultura de precisão, sensoriamento, virtualização, estocagem de energia etc. Ninguém se esquece da contribuição seminal de Klaus Schwab no Fórum sobre a Quarta Revolução Industrial.

Geralmente os painéis sobre esses temas em Davos reconhecem que há uma imensa subestimação dos impactos empresariais e sociais da revolução digital e cognitiva em função de sua velocidade e de sua abrangência setorial. Focam nas mudanças profundas nos modelos de negócios de quase todos os setores de atividade. Vários são os painéis sobre as transformações no mundo do trabalho e nos modelos educacionais. Muitos debates sobre as novas formas de governança pública e privada, além de questões urbanas como cidades inteligentes ou mesmo sobre a crise global de representação política, com a digitalização da democracia, que requer inovações institucionais.

Esse é um ponto que se destaca em Davos: o imperativo das inovações institucionais que dialoguem com as inovações tecnológicas, de tal sorte que os riscos de tensões sociais não se exacerbem e o mundo não caminhe para algo sombrio. O tema de 2018 do Fórum é bastante revelador disso: Creating a shared future in a fractured world (“Criando um futuro compartilhado em um mundo fraturado”).

Finalmente, o Fórum Econômico Mundial oferece muitos painéis literalmente fora da caixa, como a psicologia do populismo, mindfullness, questões de gênero, mundo pós-verdade, redes sociais e privacidade como um bem de luxo, longevidade, transumanismo, fotossíntese artificial, importância dos games etc.

Em resumo, o que o Fórum Econômico Mundial de Davos propõe às elites mundiais é um efetivo pensamento sistêmico (systemic thinking) que permita uma leitura mais abrangente dos macrossistemas que afetam o processo de decisão em todos os planos.

Octavio de Barros - Economista, cofundador da Quantum4 Soluções de Inovação, presidente do conselho do Instituto República e membro do conselho de empresas e instituições (octaviodebarros@quantum4.com.br)