Desde que Bolsonaro foi apontado como favorito para vencer as eleições no Brasil, os efeitos de sua possível eleição – confirmada no segundo turno – na região sul-americana já eram percebidos por importantes políticos chilenos. De apoio ao candidato até a proposta de lei para penalizar os políticos beneficiados pelas fake news, o Chile tem acompanhado de perto os rumos da política brasileira.

O presidente chileno, Sebastián Piñera, logo após os resultados do primeiro turno no Brasil, elogiou publicamente a proposta da agenda econômica de Bolsonaro, afirmando que reduzir o déficit fiscal, promover a abertura econômica e realizar privatizações são medidas necessárias ao Brasil – apesar de reconhecer as falas homofóbicas e machistas do candidato. Ao final do segundo turno, foi um dos primeiros a parabenizar Bolsonaro e na manhã seguinte ligou para o presidente recém-eleito convidando-o para visitar o Chile. No mesmo dia, o futuro ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Onyx Lorenzoni, confirmou que o primeiro país a ser visitado será o Chile.

O Brasil é o principal receptor de investimentos chilenos, cerca de 36,2% do total investido no mundo de 2010 a 2017, segundo a DIRECON (órgão responsável por assuntos econômicos da chancelaria chilena), e vem trabalhando junto ao Chile pela aproximação entre Mercosul e Aliança do Pacífico.

As eleições sul-americanas têm sido marcadas por campanhas que criam discursos polarizados entre o candidato de direita e o candidato de esquerda, em que este último é atrelado ao bolivarianismo e à situação atual da Venezuela

Bolsonaro recebeu apoio também de outros políticos ligados à direita chilena durante a corrida presidencial. Líderes da bancada evangélica no Chile, Eduardo Durán e Francesca Muñoz, do partido Renovación Nacional (RN), enviaram uma carta de apoio a Bolsonaro, pois percebem que compartilham das mesmas convicções.  O senador Iván Moreira, da Unión Democrata Independiente (UDI), que já defendeu a ditadura de Pinochet, declarou que os expressivos votos a Bolsonaro se devem ao rechaço à corrupção e à miséria promovidas pela esquerda no Brasil, principalmente pelo Partido dos Trabalhadores.

A manifestação mais expressiva, contudo, foi a de José Antonio Kast, que obteve 8% dos votos nas eleições presidenciais de 2017, embora as estimativas apontassem apenas 2% das intenções de voto. Kast, que apoiou Piñera no segundo turno das eleições chilenas, viajou ao Brasil em outubro para se encontrar com Bolsonaro e discutir as propostas econômicas, as visões acerca do desenvolvimento nacional, a estratégia digital de campanha e os possíveis vínculos de corrupção entre os governos de Michelle Bachelet e Dilma Rousseff. Foi acompanhado dos senadores Jacqueline van Rysselberghe e José Durana, da UDI. Kast afirmou que a vitória de Bolsonaro representava a derrota da “esquerda corrupta” e o triunfo do “sentido comum” na América Latina, e seguirá trabalhando para que triunfe no Chile também.

De outra parte, Bolsonaro recebeu críticas de figuras ligadas à esquerda chilena, como o presidente do Partido Socialista (PS), Álvaro Elizalde, o senador Alejandro Navarro (PS), que propôs a “Lei Bolsonaro” para punir candidatos que utilizem fake news nas eleições, e inclusive políticos da coalizão oficialista “Chile Vamos”: Jaime Bellolio (UDI) e Francisco Undurraga (Evópoli).

Assim como argumentado anteriormente pelo Observatório de Regionalismo, as eleições sul-americanas têm sido marcadas por campanhas que criam discursos polarizados entre o candidato de direita e o candidato de esquerda, em que este último é atrelado ao bolivarianismo e à situação atual da Venezuela – por exemplo, o discurso de que o Chile se transformaria em uma “Chilezuela” com a eleição de Alejandro Guiller para a sucessão de Bachelet.

Nesse sentido, alguns políticos ligados à RN e à UDI encontraram em Bolsonaro uma figura e um discurso semelhantes aos desses partidos, o que poderia reforçar o ideal direitista do país e alavancar uma candidatura forte para 2021. A isso, somam-se as eleições internas da UDI em dezembro deste ano, nas quais a senadora Rysselberghe concorre à presidência do partido.

São apoios relevantes, pois procuram costurar cenários a longo prazo. Não existe reeleição no Chile; logo, Piñera não poderia candidatar-se nas eleições de 2021. Ainda é demasiado cedo, no entanto – apenas sete meses de gestão – para apontar quem será o seu sucessor, mas é possível cogitar que Kast se destaca como um nome plausível se souber se aproveitar dos ganhos do governo Piñera e da relação bilateral entre Brasil e Chile a partir do próximo ano para repetir o efeito Bolsonaro em terras chilenas.

A autora é mestranda em Relações Internacionais do PPGRI San Tiago Dantas e pesquisadora da Rede de Pesquisa em Política Externa e Regionalismo (REPRI)