Começar o ano com notícias boas sempre é auspicioso.

Constatar que os investidores institucionais estão cada vez mais exigindo a prática, nas empresas em que investem, dos conceitos ESG (sigla em inglês para governança socioambiental) nos dá esperança de que em 2018 essas medidas se acelerem mundo afora – inclusive por aqui, na terra onde ainda se dão incentivos ao petróleo (como aprovou o Congresso Nacional ao apagar das luzes de 2017) e à indústria automobilística de motores a combustão, que vive de incentivo desde seu nascedouro.

Se considerarmos que a maioria dos países está com data marcada para mudar a matriz de combustíveis fósseis para combustíveis limpos, o Brasil está firmemente no rumo do passado. Será preciso urgentemente reverter essa trajetória.

Na eletricidade, o mundo caminha a passos largos para a digitalização e a geração limpa e distribuída. Tudo isso para a verdadeira democratização do setor elétrico. Em que pé estamos no Brasil? Ainda estamos engatinhando. Temos cerca de 350 empresas na cadeia de valor da geração distribuída no Brasil – porém, na grande maioria, elas estão em busca de parceiros que utilizem a baixa tensão e façam parte de cadeias de varejo. Todos oferecem uma solução completa (tecnologia, capital e implantação), e em troca querem contratos de 15 a 20 anos e mais um desconto em relação ao que pagam hoje de eletricidade.

Os casos dos depósitos de plásticos no Oceano Pacífico, entre o Havaí e a Califórnia, e também no atlântico mostram que o setor está muito aquém do ideal para a destinação correta desses descartes e sua reciclagem

À primeira vista parece uma oferta irrecusável. Entretanto não é o que se está vendo. É muito difícil fechar-se um contrato por 20 anos no Brasil que ainda temos. Além do mais, tecnologicamente, com o advento das baterias, esse modelo deverá mudar, e muito, em pouco tempo.

Já na digitalização, segundo a Bloomberg New Energy Finance, tanto a Nigéria como a Indonésia e o Chile estão melhor preparados para implementá-la que o Brasil.

Com a tendência mundial de trocar o uso de combustíveis fósseis por combustíveis limpos, temos que prestar atenção num ponto: o foco da cadeia do petróleo passará para a petroquímica, onde cerca de 70% concentram-se na produção de etileno e propileno, usados em plásticos.

A primeira dúvida é: essa cadeia da produção de plásticos será suficiente para rentabilizar a cadeia do petróleo? Se for, teremos outro problema: a expansão da produção de plásticos, que por si só até não é um problema maior, pois a questão é a sua destinação depois de descartados. Os casos dos depósitos de plásticos no Oceano Pacífico, entre o Havaí e a Califórnia, e também no Atlântico, entre Guatemala e Honduras, mostram que o setor está muito aquém do ideal não só para a destinação correta desses descartes, mas muito menos para a reciclagem. Não vou nem me aprofundar no caso da Baía de Guanabara, pois não são só garrafas pets que lá boiam.

Seja como for, a indústria plástica de todo o mundo, e em especial a do Brasil, terá que se adaptar às regras de ESG.

Empresas como a Coca-Cola e a Lego estão ampliando o uso do bioplástico. Porém, de acordo com a Associação Europeia de Bioplástico, a produção mundial ainda gira em torno de somente 1%.

As dificuldades de um país em lidar com os princípios da sustentabilidade são enormes. Se esse direcionamento não partir do líder maior, as dificuldades serão ainda mais significativas. Por isso, existem organizações que congregam Estados – como o R20 (Regions of Climate Action, liderada pelo ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger) e o C40 (fundado e apoiado pelo ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg) –, que estão lutando diariamente para que as regras da sustentabilidade sejam implantadas e impulsionadas.

No Brasil temos a aprovação, por lei, de que a cidade de São Paulo, membro do R20, se enquadre nos requisitos de sustentabilidade da ONU para 2030. Aliás, a lei foi aprovada na Câmara dos Vereadores de São Paulo no mesmo dia em que o Congresso Nacional aprovou o subsídio ao petróleo.

Outro fato que merece ser destacado é o Programa Município VerdeAzul, da Secretaria de Meio Ambiente do estado de São Paulo. Trata-se de um programa único, mundialmente falando, que vem se aperfeiçoando, embora ainda sem os recursos e prioridades que merece. O município paulista de Novo Horizonte conquistou em 2017 o seu tricampeonato. É bastante estimulante verificar que municípios como esse estão conscientes da sustentabilidade.

Agora, a verdade mais verdadeira é que tudo isso jamais poderá ser devidamente realidade no nosso Brasil se não tivermos um cidadão sustentável.

Estamos em ano de eleição. Está nas mãos desses cidadãos sustentáveis o papel crucial para construir um Brasil verdadeiramente sustentável.