Iniciamos a semana com a turma da FNP em Barcelona com uma agenda técnica e institucional muito bacana. A cidade é referência em cidades inteligentes e isso se deve a um bom planejamento, que começou há mais de 20 anos. Barcelona possui 15 mil habitantes por km2, índice que contribui para gerar mais eficiência em infraestrutura urbana e nas diferentes políticas públicas adotadas.

A primeira visita do dia foi na TMB, empresa que opera o transporte público (metrô e ônibus) da região metropolitana de Barcelona, um dos principais benchmarks de mobilidade pública na Europa e no mundo.

Atendendo a uma população de 3,2 milhões de habitantes em uma área de 636 km², a TMB apresentou seu plano para de se adequar às demandas e exigências futuras, trabalhando em dois eixos principais:

1 - Combate ao aquecimento global e redução da poluição, diminuindo em 40% as emissões de gás carbônico até 2030 e chegando à emissão zero em 2050. Para alcançar essas metas será preciso dobrar a utilização do transporte público, que deve passar a ser abastecido apenas com energias limpas e renováveis e com consumo eficiente. Entre as iniciativas para atingir esses objetivos destacam-se a implantação de linhas de metrô automatizadas, 100% elétricas e com sistema de frenagem regenerativa, que aumenta a eficiência energética.

Guarulhos está buscando incluir tecnologia e sustentabilidade em suas iniciativas de mobilidade e, através de uma parceria com a Agência Francesa de Desenvolvimento, deve iniciar estudos de potencialidade para a implantação de VLT no início de 2019

2 – Rede de transporte público totalmente integrada: o usuário deve ser capaz de realizar os deslocamentos de seu dia a dia utilizando somente o transporte público e em tempo razoável. Para isso é preciso promover a interligação física eficiente entre os diversos modais que compõem o sistema público de transporte, a unificação das tarifas e bilhetes na região metropolitana e garantir 100% de acessibilidade em todos os modais. O foco é incentivar a adesão ao transporte público através de um serviço que atenda de forma eficiente as necessidades de cada cidadão.

Guarulhos está buscando incluir tecnologia e sustentabilidade em suas iniciativas de mobilidade e, através de uma parceria com a Agência Francesa de Desenvolvimento, deve iniciar estudos de potencialidade para a implantação de VLT no início de 2019. A primeira fase desses estudos será entregue sem custos à prefeitura, sendo realizada através de uma cooperação técnica com especialistas da ONG francesa CODATU e técnicos de carreira do município ligados às áreas de inovação, mobilidade e urbanismo.

Esse projeto irá considerar a interligação dos diversos sistemas de transporte público urbano e interurbano, considerando o potencial que um equipamento como esse tem para promover uma revitalização urbanística em seu entorno.

O VLT também contribui para a redução do nível de emissões de poluentes por ser 100% elétrico, promovendo um menor impacto no entorno e a melhoria na qualidade de vida da população.

A segunda visita foi ao Ecoparc Montcada i Reixac, planta que realiza o tratamento mecânico biológico (TMB) de 12% das 1,6 milhões de toneladas de resíduos produzidos anualmente na região metropolitana de Barcelona, totalizando cerca de 200 mil toneladas/ano.

Sua função é reaproveitar os resíduos orgânicos através de diferentes tipos de tratamento: triagem de materiais recicláveis, compostagem e produção de biogás. Dos resíduos tratados são recuperadas cerca de 8,5 mil toneladas de materiais recicláveis como papel, vidro, plástico, tijolos e sucata.

A matéria orgânica processada produz anualmente 31,2 mil toneladas de composto orgânico, que pode ser utilizado para substituir os fertilizantes químicos. A digestão da matéria orgânica gera 10,6 milhões de metros cúbicos de biogás por ano, aproveitado nas usinas para geração de energia elétrica, o que, além de dar uma destinação útil a algo que seria simplesmente jogado fora, também evita emissões de metano, um gás de efeito estufa com uma capacidade de aquecimento global 21 vezes maior do que o dióxido de carbono, subproduto da sua queima.

Guarulhos produz cerca de 363 mil toneladas de resíduos domiciliares por ano, que são enviados para disposição final em aterro sanitário, recuperando 5,6 mil toneladas (cerca de 1,5%) através da coleta seletiva (dados SNIS 2016).

Estão em andamento duas novas iniciativas para melhorar o gerenciamento dos resíduos sólidos da cidade: novo processo de licitação para contratação de empresa de coleta, ampliando significativamente a coleta seletiva e implementando um pátio público de compostagem; e a criação de uma central de triagem mecanizada com capacidade de 100 toneladas/dia, permitindo uma separação mais eficiente dos resíduos recicláveis, projeto desenvolvido em parceria com a GRU Airport.

Por fim, revisitamos o 22@, projeto de referência em revitalização urbana ligada à inovação. Tivemos a oportunidade de visitar o distrito de inovação em nossa missão de 2017, também acompanhando a missão da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP). 

Mas como já dizia o pensador sobre o homem e o rio, quando revisitarmos o 22@, nem nós somos os mesmos e nem o 22@ é o mesmo. O projeto vem evoluindo e gerando resultados, mantendo sua proposta de reconfiguração urbana e conciliando interesses públicos e privados. “Espaço público gera valor para áreas privadas”, como ressaltou Joan Clos, ex-prefeito de Barcelona e responsável pelo projeto de desenvolvimento urbano 22@.

É importante destacar a evolução constante que tem sido desenvolvida na governança da iniciativa, que consegue se manter de forma resiliente apesar das naturais intempéries típicas dos regimes democráticos e da salutar alternância de poder, algo essencial para projetos que visam objetivos de longo prazo. Eles têm amadurecido um modelo de gestão com participação efetiva dos clusters envolvidos no dia a dia do distrito, que atuam através da Comissão de Coordenação 22@. A Comissão de Coordenação inclui representantes de redes de empresas, universidades e centros de P&D, associações de bairro e fabricantes locais, assegurando sua participação na visão de futuro do projeto, visando uma trajetória ascendente.

O modelo do 22@ é uma inspiração para a nossa iniciativa de planejamento de longo prazo para uma Cidade mais Humana, Inteligente e Sustentável: Guarulhos 2040. Sabemos que, para ser resiliente, a visão de futuro precisa ser apropriada pela população, e a maneira natural para que isso ocorra é a participação desde a fase de planejamento até a fiscalização da execução dos projetos estratégicos.

Visando à resiliência da iniciativa, também foi criado o Núcleo Guarulhos 2040, composto por técnicos de carreira do município com competências em diversas áreas e que devem ser capazes de incorporar e multiplicar o conhecimento a ser adquirido durante este processo, mantendo-o como know how da cidade. Esse núcleo está atento à Agenda 2030 da ONU e também acompanha os indicadores do programa Cidades Sustentáveis, auxiliando as demais pastas a incorporar os Objetivos do desenvolvimento Sustentável em sua atuação.

O autor é secretário de Desenvolvimento Científico, Econômico, Tecnológico e de Inovação de Guarulhos