O Brasil é um país de muitos “primeiros”: o primeiro país a fabricar aviões movidos a etanol, o primeiro país do mundo em produção de nióbio e também, infelizmente, é provavelmente o primeiro país onde o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração matou pessoas e vida aquática por mais de 600 quilômetros de extensão.

Está ficando cada vez mais claro que água e mineração podem se tornar uma ameaça tóxica para o Brasil. Não só para os peixes, mas também para as pessoas. Ao mesmo tempo, fica difícil imaginar a vida moderna sem a indústria de mineração.

Para começar, a demanda por minerais e metais aumentará consideravelmente nos próximos vinte anos. O que vimos na última década é que a qualidade dos minérios encontrados está caindo. Isso significa que precisaremos cavar mais fundo e nos livrar de mais resíduos, utilizando processos que requerem muita água. E, mais frequentemente do que no passado, estamos extraindo recursos de regiões escassas em água. Portanto, nossa previsão é que os desafios em torno de mineração e água se intensificarão. Trabalhar na interface entre mineração e água não é, portanto, uma opção: é uma obrigação.

Estratégias para contenção da água na Holanda: experiência trágica legou ensinamentos úteis para evitar tragédias como a de Mariana

Se a única atividade minerária que a Holanda exerce é em petróleo e gás, não possuindo minas de carvão ou de minérios, em contrapartida o país acumula bastante experiência no manejo da água. É nesse aspecto que a Holanda e o Brasil podem trabalhar juntos.

Em 1953, os Países Baixos (ou a Holanda, como é mais conhecido no exterior) foram confrontados com os poderes do mar. Por conta de uma grande tempestade, o nível das águas subiu quase 5 metros acima do nível do mar. Os diques eram muito baixos e muito fracos para lidar com o enorme poder da água, e vários deles acabaram se rompendo. Foi uma enorme tragédia humana: 1.836 pessoas morreram. Então, finalmente, conseguimos nos organizar e, desde 1953, apesar de mais de um quarto do nosso país estar abaixo do nível do mar, não tivemos nenhum desastre relacionado à água.

Como? Através da junção de tecnologia inteligente com uma boa cooperação.

Descobrimos da forma mais difícil que não se faz gestão de água para as comunidades; isso é feito com as comunidades. Tivemos que esquecer as diferenças: no nosso caso, religiosas e de classe.

As comunidades não são adversárias; são as nossas principais aliadas numa estratégia adequada de contenção de água. Atualmente, há US$ 25 bilhões em investimentos paralisados em todo o mundo por conta de disputas com populações locais – frequentemente, conflitos relacionados à água. Isso precisa mudar.

Como líder mundial em gestão integrada, o setor de água holandês está trabalhando continuamente em soluções inovadoras, com uma abordagem de longo prazo que leva a sustentabilidade a sério, especialmente na era das mudanças climáticas. Além disso, nossa história com o tema nos ensinou a lidar com muita água, com pouca água ou com o tipo errado de água, e de maneira econômica e eficiente – sempre em conjunto com empresas e comunidades.

No Brasil, existem mais de 5 mil empresas de mineração ativas. Em todas as minas, as empresas estão – ou deveriam estar – lidando com barragens de rejeitos. Na Holanda, temos um sistema elaborado de monitoramento de força dos diques em que as comunidades estão fortemente envolvidas e onde as tecnologias de monitoramento inteligente desempenham um papel bastante importante.

Descobrimos que a tecnologia, sem o devido envolvimento da comunidade, leva a soluções tecnológicas insustentáveis, e que o envolvimento da comunidade sem tecnologia leva a processos ineficazes.

No mês de setembro, a Plataforma Holandesa de Água e Mineração (na internet: www.dutchwatersector.com/expertise/mining) participou de um importante congresso de mineração em Belo Horizonte. Nossas universidades, empresas e autoridades desejam se envolver com a indústria de mineração brasileira para buscar conjuntamente estratégias e soluções necessárias para alcançar uma atividade de mineração sustentável que possa atuar em equilíbrio com o meio ambiente, os recursos hídricos e a sociedade. A plataforma holandesa usa o modelo de cocriação, o que significa que não somos os que fornecem soluções para um país como o Brasil, mas desenvolvemos as soluções trabalhando em conjunto.

Como mencionei, o Brasil é um país de muitos “primeiros”. Que seja também o primeiro a reparar corretamente um grande desastre de barragem de rejeitos e a prevenir sistematicamente que tais incidentes aconteçam.

A Holanda também passou por uma tragédia e aprendeu com isso. Felizmente, hoje em dia podemos trocar experiências em todo o mundo e transformar essas memórias tristes em histórias distantes.

Dirk-Jan Koch - Professor universitário e enviado especial para recursos naturais do Ministério das Relações Exteriores da Holanda