No apagar das luzes de 2018, o então presidente Michel Temer publicou a Medida Provisória (MP) 868/18, que altera o marco legal do saneamento básico do país. A atitude nada mais é do que uma tentativa de ressuscitar a MP 844/18, editada pelo governo em julho e que perdeu a validade em novembro, por falta de acordo para votação. Assim, fica para o novo governo a responsabilidade de dar encaminhamento a essa proposta.

Considerada polêmica, a MP 868/18 traz os mesmos vícios da anterior, como a falta de um amplo debate democrático com entidades de saneamento, setores público e privado, além de especialistas.

Ela mantém ainda grande insegurança jurídica ao legar à Agência Nacional de Águas (ANA) a responsabilidade pelo gerenciamento dos recursos hídricos e pela regulação da prestação dos serviços públicos de saneamento, competências constitucionais dos municípios. Está também em conflito com as mudanças definidas pelo presidente Bolsonaro, que determinou que a ANA será subordinada ao Ministério de Desenvolvimento Regional, sendo que a MP define que a agência ficará vinculada ao Ministério do Meio Ambiente.

Da forma como está, a MP faz com que os grandes municípios sejam muito mais atrativos do que os pequenas. O saneamento básico precisa de uma modelagem que contemple as cidades de médio e pequeno porte

Outro ponto a ser discutido da medida é a forma como está estabelecida a possibilidade de financiamento e parcerias. Da maneira como está, a MP pode desequilibrar os investimentos na área de saneamento no país. A aplicação de recursos financeiros por parte de companhias privadas é positiva para desenvolver o setor, mas, da forma como está, a MP faz com que os grandes municípios sejam muito mais atrativos do que as pequenas cidades. O saneamento básico precisa de uma modelagem que contemple, de forma mais equilibrada possível, os municípios de médio e pequeno porte.

Uma solução para esse problema seria a criação de uma modelagem regional. Com um sistema integrado entre municípios, é possível ampliar a escala com prestação de serviço e construção de empreendimentos reunindo essas localidades por bacias hidrográficas, unidades regionais e até mesmo estaduais, dependendo da avaliação técnica para cada caso. A revisão na legislação do setor precisa deixar clara a possibilidade dessa formatação.

Os representantes do setor esperam que o novo governo acerte o passo com o saneamento brasileiro. A escolha de Gustavo Canuto para o Ministério do Desenvolvimento Regional, pasta criada no atual governo e que reuniu os antigos ministérios das Cidades e da Integração Nacional, é uma boa sinalização. De perfil técnico, o novo ministro conhece a importância do planejamento e a necessidade de evitar decisões de afogadilho.

Os governos anteriores deixaram uma herança para ser aprendida e não repetida. A falta de planejamento de curto, médio e longo prazos esteve presente nas últimas gestões, com prioridades para atender à clientela de prefeitos e governadores, com o único intuito de fazer política. Por outro lado, o atual governo já sinalizou por um viés técnico, com as prioridades sendo definidas tecnicamente. 

O próprio Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) é um instrumento de planejamento e que deve ser referência para a nova gestão. Ele ainda é embasado em informações não confiáveis, por serem declaradas pelos municípios e não auditadas pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Para resolver essa questão, o próprio plano estabelece que 23% do valor previsto para o saneamento devem ser aplicados em ações estruturantes, como planejamento, projetos, capacitações e assistência técnica, ações que devem ser priorizadas para garantir a efetiva implementação do sistema de saneamento. 

O autor é presidente da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (Apecs) e vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES-SP)