Em minhas andanças e tratativas no universo corporativo, bem como nos ambientes político, acadêmico e social, essa pergunta brota regularmente e não quer calar. Inclusive, nas minhas palestras para empresários, executivos e profissionais liberais, bem como para jovens em início de carreira, provoco a plateia com a seguinte questão: “A liderança está mudando?” Invariavelmente, o público participante fica dividido: muitos acham que sim, muitos acham que não. Aí dou uma resposta que deixa todos bastante intrigados: “Bem, vocês todos estão certos!”

A bem da verdade pronuncio o seguinte dogma: “A liderança sim está mudando... Na sua forma, mas não na sua essência”. Pois, no meu entender, a liderança, desde que o primeiro líder surgiu no meio dos homens da caverna, destacou os indivíduos com as seguintes características, ou melhor, essências:

1. Ter visão (enxerga o que os outros ainda não enxergaram);

Acredito que a liderança não é uma questão ou função de status, nem de título, nem de herança, nem de bravata, mas sim de credibilidade, influência, maestria, atitude

2. Tomar decisões (especialmente na escolha de pessoas);

3. Ajudar a inspirar (para que cada um possa realizar seu pleno potencial).

São ou não as essências primordiais? Desde os primórdios até atualmente, o líder, seja de qual setor ou área de atividade, deve ter, no mínimo, essas qualificações essenciais para bem exercer seu papel de liderança.

Por outro lado, a forma ou maneira de exercer a liderança mudou... e continua mudando. Antigamente, o modo de liderar focava-se primordialmente na gestão de talentos, o que me remete à imagem de um maestro de orquestra, cujo papel principal é reger o grupo de músicos para que tudo esteja rigidamente dentro da pauta, em perfeita harmonia, no tempo certo, pois a palavra gestão significa ato ou ação de gerir, administrar, reger, gerenciar, dirigir...

Atualmente, a forma de atuação me leva mais à imagem de um rock band leader, em que o líder da banda não é necessariamente o melhor guitarrista, baterista ou tecladista. Seu papel é o de, presumindo que ele tenha escolhido os bambas para cada instrumento de som, fazer a turma trabalhar em conjunto, dando o seu melhor, ou seja, desempenhando o papel de coordenação de talentos. A palavra coordenação, por sua vez, significa ato de coordenar, concatenar, ordenar, harmonizar... Faz sentido ou não?

Antigamente, os executivos almejavam mais e melhores recompensas materiais (bônus, stock options, símbolos de status), bem como a evolução profissional (carreira, promoções, títulos). Atualmente, na era digital, procura-se mais um propósito de trabalho aderente à sua missão de vida, o reconhecimento e a realização pessoal, a colaboração em vez da competição. As “cenouras”, ou ferramentas de outrora, face à realidade atual, não vão necessariamente funcionar hoje. O contrário também é verdadeiro.

E quais as características ou atributos que um verdadeiro líder deveria possuir para sobressair-se na multidão (válidas tanto para o presente quanto para o passado)? São elas:

• Vontade de liderar (é muito mais fácil e cômodo ser liderado do que liderar);

• Desejo de se superar (o líder nunca está satisfeito com o que já conquistou; não se apega a seu status quo);

• Carisma e grande ego (carisma é igual a magnetismo, pois ajuda a atrair as pessoas. E se não tiver um grande ego, a pessoa não quer nem sair da cama de manhã).

Porém, aqui abro parênteses em cada um desses itens para mostrar claramente as diferenças entre um líder medíocre e um exemplar líder do bem:

• Vontade de liderar (mas sempre pautada em valores);

• Desejo de se superar (mas em benefício de todos); 
      
• Carisma e grande ego (mas sem usá-los para afrontar as pessoas). 

Por meio de um quadro, aponto algumas diferenças básicas das atuações entre um mero administrador e um verdadeiro líder:

Além do mais, um líder só pode se dizer realizado se pautar sua vida em três pilares:

• Aquele que não sabe... e pergunta; 

• Aquele que sabe... e ensina;

• Aquele que ensina... e pratica.

Quantas pessoas em lugares de destaque que você conhece vivem efetivamente dentro dessa coerência? Acredito que a liderança não é uma questão ou função de status, nem de título, nem de herança, nem de bravata, mas sim de credibilidade, influência, maestria, atitude.

Por fim, compartilho uma sábia frase do nosso poeta-mor, Mário Quintana, de quem respeitosamente tomei a liberdade de trocar uma palavra (“livro” por “líder”) de seu genial poema para que ela pudesse ser encaixada no contexto deste artigo:

“Um líder não muda o mundo. 
Quem muda o mundo são as pessoas.
Um líder só muda as pessoas”.

Portanto, caro leitor, exerça sua liderança com sabedoria (a maior riqueza que temos) e responsabilidade (que não quer dizer apenas dever ou obrigação, mas sim dar resposta a suas habilidades). 

Comece por ser líder de si próprio.

Robert Wong - Fundador e CEO da Robert Wong Consultoria Executiva