As recentes eleições brasileiras trouxeram algumas lições que merecem ser lembradas. Líderes não nascem prontos. Líderes emergem como necessidade do momento e do meio entre os que reúnem melhores qualificações para solucionar impasses, dificuldades e crises. Os líderes emergem quando outros falham.

Qual o ambiente socioeconômico do Brasil nos últimos anos?

Vamos pensar no estado de desânimo do povo brasileiro depois de vários anos de economia declinante, elevado desemprego e percepção da falência dos governantes em achar soluções. Vamos pensar na descrença geral na classe política, vista como corrupta, venal, corporativista. Vamos pensar nas notícias diárias sobre recursos desviados por ocupantes de cargos públicos em todos os níveis enquanto a população clama por melhor saúde, educação, segurança, emprego. Vamos pensar na sensação de impunidade para crimes de colarinho branco. O que dizer do modelo de Previdência injusta beneficiando mais os servidores públicos?

Pense nas notícias diárias sobre a insegurança nas maiores cidades brasileiras, que criam sensação de desânimo e tristeza na população. Vamos lembrar como estamos divididos nas opiniões políticas mesmo entre irmãos e amigos. Vamos pensar como nós, nas trocas de mensagens das redes sociais, nos distanciamos de amigos e familiares.

É possível que também você, que é da elite que lê esta revista, tenha considerado a mudança para outro país, seguindo os passos de alguns amigos que desejam se aposentar com segurança e dignidade.

O Brasil de hoje tem o caldo de cultura favorável à emergência de líderes fortes, mas com discurso de uma autoridade que deve ser respeitada. Poderia ser outro líder, que não Bolsonaro, mas com personalidade parecida.

 A narrativa escolhida pela assessoria política do candidato e agora presidente – “Brasil (pátria) acima de todos, Deus acima de tudo” – não é nova e vem sendo usada por nações e políticos há centenas de anos. Na Alemanha, a música de Joseph Haydn, escrita em 1797 para homenagear um kaiser, tem em seus versos o tema Deutschland über Alles (“Alemanha acima de tudo”) e foi utilizada pelo Partido Nazista para criar um sentimento de orgulho e identidade entre alemães espalhados por várias regiões da Europa.

Donald Trump utilizou o America First e o Make America Great Again para valorizar o sentimento de pátria e se eleger. Em vários países os líderes de direita trabalham com o sentimento do povo, da nação. O movimento Brexit, que tornará o Reino Desunido, é consequência do sentimento de que o liberalismo democrático adotado na Europa não está satisfazendo os britânicos.

O uso de bandeiras dos estados e do Brasil associadas a campanhas políticas é bastante comum. O nome de Deus tem sido usado (em vão) em movimentos políticos quando isso é conveniente. Você se lembra da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” usada em 1964 como oposição à onda política dita comunista que ameaçava a república brasileira? O lema integralista nos anos 1930 era “Deus, Pátria e Família”, herdado do movimento fascista europeu.

Nossa democracia ainda é claudicante. Fernando Henrique Cardoso lembrou que desde a nova Constituição brasileira de 1988 foram eleitos pelo voto direto e secreto apenas 4 presidentes, dos quais dois foram “impichados”, outro está preso e apenas ele, FHC, continua ativo, dando conferências e participando de eventos.

O atentado à faca foi decisivo para a vitória de Jair Bolsonaro. O assunto repercutiu imediatamente na imprensa do Brasil e do exterior, encheu as redes sociais e deixou na lama todos os outros candidatos.

Bolsonaro carrega grande esperança dos brasileiros. Sua gestão não será fácil. Os quase 14 anos de governo do PT introduziram o sentimento legítimo na população de que os menos favorecidos têm também direito de participar das benesses do liberalismo democrático – ou seja, estudar, morar de forma abrigada, comer todo dia, participar de eventos, sonhar com o progresso dos filhos. Esse direito tem que ser respeitado pelos novos governantes na busca do bem-estar de toda a população.

Com o crescimento de partidos de esquerda, cresceu também a oposição entranhada aos governos ditos liberais. Desde o resultado das eleições começaram as críticas dos políticos perdedores, simpatizantes da esquerda e jornalistas sobre os depoimentos de Jair Bolsonaro, a escolha de ministros e outros auxiliares de governo ou sobre o seu passado como militar e como político. Muito provavelmente essas críticas continuarão durante todo o mandato.

Nessa eleição percebeu-se que, além da posição política de jornalistas da imprensa tradicional – jornais, revistas, TV e rádio –, também a opinião de amigos e grupos de apoio através das redes sociais teve um papel preponderante para os resultados. Candidatos com mais tempo de TV no horário político perderam feio, pela dificuldade de encaixar um discurso que chegasse até a alma dos eleitores e os sensibilizasse.

A renovação de metade do Congresso e a eleição, em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, de governadores que vieram de outros ambientes que não a política trazem a possibilidade de novas ideias mais inspiradoras e a esperança de um trabalho mais efetivo.

Do mesmo modo que os ingleses podem estar imaginando um retorno do período colonial glorioso com o Brexit, muitos eleitores brasileiros conservadores e de mais idade podem estar imaginando que a eleição de um presidente militar possa fazer com que o Brasil, de um momento para outro, trabalhe num ritmo mais rápido e na direção certa de um desenvolvimento que beneficie toda a população. Vamos apoiar esse governo para que assim seja.

 

Silvio Pires de Paula - Vice presidente do Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP) e presidente da Demanda Pesquisa e Desenvolvimento de Marketing