Falta franqueza e coerência à crescente comunidade jurídica do Brasil. É preciso alertar os jovens que se entregam ao bacharelado em Direito de que talvez o boom de êxito financeiro colhido por algumas estrelas desse universo forense não dure eternamente.

Assim como ocorre com a economia, território em que ortodoxos e heterodoxos não se entendem, falta sinceridade na areia movediça em que navegam os profissionais do sistema Justiça.

Judicializar a vida brasileira já se mostrou nefasto. O país precisa de atividade produtiva com urgência. Não acordou para os efeitos da 4ª Revolução Industrial, que extinguirá atividades e fará surgir outras, mas com habilidades que não têm sido convenientemente contempladas.

Judicializar a vida brasileira já se mostrou nefasto. O país precisa de atividade produtiva com urgência. Não acordou para os efeitos da 4ª Revolução Industrial, que extinguirá atividades e fará surgir outras, mas com habilidades que não têm sido convenientemente contempladas

É preocupante constatar que jovens empreendedores franceses já desenvolveram aplicativo que consegue resolver quase um milhão de dúvidas jurídicas em segundos, com índice de acerto superior ao da mente humana. É a inteligência artificial a serviço de detectar nossas preocupações, com algoritmos que nos conhecem melhor do que nós mesmos.

A advocacia que se valeu de fenômenos sazonais e descobriu filões para aventuras judiciais às vezes bem-sucedidas está destinada a desaparecer. Se na medicina as cirurgias de grande risco e elevada precisão podem ser feitas a distância e por instrumentos guiados eletronicamente, por que procedimentos semelhantes não podem ocorrer na área jurídica, em que a urgência é sempre relativa?

Impõe-se que a lucidez acorde e enxergue que “o rei está nu”: o dinheiro do governo não é infinito, as leis não criam riquezas e, se aparentemente elevam salários, esse adicional resultará em perda de outro setor, talvez até de maior relevância. Acreditar que todas as demandas encontrem satisfação no Estado é uma ilusão que só aprofunda a desigualdade e a injustiça numa nação que se propôs, na sua reinvenção democrática, a ser uma sociedade justa, fraterna e solidária.

O mundo precisa de uma outra concepção do direito: instrumento de facilitação do convívio, ferramenta de pacificação, fórmula de simplificar os relacionamentos e de encontrar alternativas preservadoras do mais absoluto respeito ao supraprincípio da dignidade da pessoa humana.

A formação jurídica para a guerra – pois o processo não é senão uma pugna que, embora dita “civilizada”, é capaz de mostrar as mais abjetas mesquinharias e vilezas dessa espécie tão criativa quando se cuida de engendrar o mal alheio – já produziu seus efeitos. E eles não são os mais edificantes.

É preciso repensar o direito. O sistema Justiça continua a necessitar de uma reengenharia. Os avanços que a ciência e a tecnologia propiciam não permitirão que ele continue ancorado em esquemas já superados. O planeta precisa de mais cuidadores do que de produtores de ações judiciais. A natureza reclama carinho – tanto a física, a biológica, assim como a natureza humana, composta de emoções – mais do que exige decisões de tribunais.

Acordemos antes de chegarmos à triste constatação de que, pelo número de processos em curso, atingimos o Estado hobbesiano da guerra de todos contra todos.