Num recente estudo da Universidade da Califórnia, a renomada socióloga Amy Binder descreve o fenômeno da organização entre as universidades da elite norte-americana com consultorias, bancos e grandes empresas multinacionais no fortalecimento da preparação dos jovens para perseguir carreiras alinhadas às necessidades de recursos humanos dessas mesmas companhias. É um pacto relevante, uma vez que as empresas oferecem à universidade a oportunidade de concluir o processo de formação de jovens que têm acesso a carreiras de alto potencial econômico e rapidamente atingem remunerações significativas, concluindo com sucesso o ciclo e entregando alunos no sonhado caminho da prosperidade.

A consequência desse processo é que se privilegiou ao longo dos anos a condução dos jovens para as carreiras mais ligadas às indústrias relacionadas a esse conjunto de empresas e modelos de negócio, criando certo abismo entre os jovens que perseguem profissões ligadas à área empresarial e os que buscam outras carreiras de similar relevância ao conjunto da sociedade.

Já nos primeiros anos do século 21, quatro fenômenos concomitantes convergiram para o início de uma transformação sem precedentes.

O primeiro trata do esfriamento da economia a partir do esgotamento da matriz econômica baseada numa sociedade de massas pautada pelo consumo, que atingiu seu ápice e rapidamente desenhou uma curva decrescente de desenvolvimento. Esse movimento reduz drasticamente a necessidade de pessoas envolvidas nos ciclos produtivos da gestão e governança, fazendo com que esse conjunto empresarial reduza a velocidade de incorporação dos jovens a seu ciclo produtivo, reduzindo também o número de oportunidades disponíveis para carreiras de alta velocidade de projeção econômica e rompendo o ciclo anterior de prosperidade juvenil.

O segundo trata dos avanços tecnológicos, que modificam as oportunidades em áreas antes tradicionais como advocacia, ciências contábeis e mercado financeiro, entre outras, reduzindo inicialmente as oportunidades de trabalho naquelas que foram tradicionalmente as áreas de início da maioria das carreiras dos jovens oriundos das grandes universidades.

Os avanços tecnológicos modificam áreas como advocacia, ciências, contábeis e mercado financeiro, reduzindo as oportunidades de trabalho em carreiras tradicionais para os egressos das universidades

O terceiro eixo está relacionado à ampliação da comunicação sobre a crise civilizatória de forma maciça, apresentando dados sobre mudanças climáticas, dignidade humana e o estado de guerra de boa parte de nosso planeta. Esse eixo escancara a ineficácia das organizações políticas, com efeitos sobre a vida de todos no planeta, afetando a organização de várias sociedades e deixando clara a falência do modelo que vigorou até então.

O quarto é o próprio mal-estar de toda uma geração, que aos poucos questiona a forma de trabalho, o propósito das organizações, a maneira de fazer negócios e os negócios empreendidos, além do sistema de qualidade de vida e suas contrapartidas, o que se reflete na dificuldade de aderência dos jovens às organizações empresariais tradicionais.

Dessa convergência dos eixos de transformação, toda uma geração fica aparentemente órfã de uma orientação prática para a construção de sua autonomia. Aqueles que buscavam respostas e caminhos eficientes entre a universidade e a prosperidade na carreira encontraram muito mais incertezas e dificuldades. Resta ao jovem revisitar seus valores, encontrar formas de organizar seus caminhos e seus planos de vida, desenhar uma nova realidade, novos mercados, novas profissões, novas formas de endereçar os velhos problemas.

Não é à toa que aparentemente temos uma geração que se sente confusa. É como se esses jovens vivessem com uma forte neblina na sua frente, sem capacidade de enxergar a longo prazo, sem encontrar clareza de caminhos para empreender em sua vida, realizar transformações, gerar valor para si e consequentemente para o entorno. De repente fazem falta a formação mais ampla, os conceitos de vida, a filosofia, que permaneceu relegada a segundo plano nos pragmáticos períodos da “universidade empresarial”.

De forma embrionária a juventude procura caminhos, e aqueles que conseguem escapar das amarras do autocentramento juvenil retomam o que sempre foi natural entre gerações: a inspiração e o exemplo daqueles que vieram antes, que nos precederam, que podem ensinar o ofício, ensinar os caminhos, ensinar sobre a força de sonhar o futuro e persegui-lo. Aos mais perspicazes, acrescenta-se a capacidade de aprender com a história dos homens, compreender o contexto e evitar erros conhecidos.

Aos poucos a nova geração vai retomando o antigo conceito do trabalho, olhando para as pessoas e suas reais necessidades, e compreendendo que é possível trabalhar para a construção de uma vida melhor para si e para o entorno. Ela o faz compreendendo que é necessário distribuir a riqueza do século 21 e ciente de que essa riqueza não está representada apenas pela filantropia e impostos, mas sim pela compreensão de que é necessário levar para cada uma das localidades de nosso planeta os benefícios do século 21: distribuir conhecimento, tecnologia, soluções, serviços e inteligência para toda uma população de mais de 7 bilhões de seres humanos.

Um contingente importante de jovens latino-americanos tem procurado seu caminho nas universidades tradicionais dos Estados Unidos e da Europa, muitas vezes considerando construir seu futuro num país estrangeiro. Com o esgotamento do ciclo de carreiras-relâmpago, aceleradas pelos negócios tradicionais, muitos desses sonhos se retraem e, quase como um milagre, o jovem agora integrado à realidade dos nossos tempos começa a retornar à sua casa para se tornar o maior agente de distribuição de riqueza do século 21 ao trazer para o seu país e para a sua cidade as soluções tecnológicas e o conhecimento que hoje existem de forma concentrada nas grandes capitais.

A janela de oportunidade está posta para todos os jovens que compreenderem seu papel no trabalho de elevar a vida de sua comunidade, por meio da iniciativa privada, ao fazer a ponte entre os grandes centros desenvolvidos e tecnológicos, com seu gigantesco conhecimento acumulado, e sua terra natal. O desenvolvimento da América Latina depende muito mais do retorno dessa nova geração, com novos valores, energia e conhecimento, do que de qualquer outra ação da velha política.

Daniela de Rogatis - CEO da Rogatis Ltda. - Inteligência de Educação nos Desafios da Riqueza e do Programa Legado para Juventude Brasileira