O prestigiado instituto de pesquisa Pew Research Center acaba de divulgar um estudo que avalia os impactos da presidência de Donald Trump sobre a imagem dos Estados Unidos no exterior. Nele, Trump é retratado como um líder “arrogante, intolerante e perigoso” e, boa parte de suas principais políticas são consideradas impopulares, como a construção do muro na fronteira com o México, o afastamento das negociações da Parceria Transpacífica e a saída do Acordo de Paris.

Entre os mais de 40 mil entrevistados em 37 países, apenas 22% sinalizaram ter confiança na agenda de política externa do republicano. Além disso, hoje, apenas 49% declararam-se como “favoravelmente inclinados aos Estados Unidos” contrastando com a média de 64% de Barack Obama nos anos finais de sua gestão.

Dados desta natureza importam não apenas pelo mapeamento de percepções per se, mas porque permitem problematizar o papel desempenhado pelo governo no sentido de preservar, ampliar ou reduzir o potencial do chamado soft power do país. Embora o conceito já tivesse sido explorado por Antonio Gramsci e Edward H. Carr décadas antes, esse termo foi popularizado pelo professor Joseph Nye Jr. após a publicação do livro “Bound to Lead: The Changing Nature of American Power", em 1990.

Segundo Nye, o poderio global dos Estados Unidos estaria baseado não apenas em sua capacidade de coerção, econômica ou militar, mas também em sua capacidade de gerar atração, moldando as preferências dos outros países por meio de sua cultura, de seus valores políticos ou iniciativas. Assim, a difusão do american way of life, das instituições e crenças norte-americanas, bem como o reforço da credibilidade do país, seriam centrais para a estabilidade da hegemonia dos Estados Unidos.

É alarmante que em apenas cinco meses de governo, a avaliação de Trump seja semelhante a que tinha o presidente Bush ao final de oito anos marcados por duas guerras controversas no Oriente Médio e por uma crise econômica de escala global. Além disso, é relevante ter em conta que Trump foi mais mal avaliado do que outros líderes controversos como Xi Jinping e Vladimir Putin. Finalmente, é preocupante que tenha obtido índices mais positivos do que de Obama em apenas dois países, que poderiam ser considerados velhas obsessões mal resolvidas dos Estados Unidos: Rússia e Israel.

É evidente que o governo não é a única fonte de propagação do soft power de um país, que ocorre também pela mobilização espontânea das pessoas, sobretudo na era digital, e igualmente por meio da indústria do entretenimento e das organizações educacionais e não estatais em geral.

A própria pesquisa do Pew Research Center sinaliza traços de continuidade no que diz respeito à opinião predominantemente favorável quanto ao povo e à cultura pop norte-americana mundo afora. Apesar disso, seria irresponsável dizer que a legitimidade internacional de uma potência não depende do respeito e prestígio de que desfrutam seus líderes.

Na maior parte dos países, por enquanto, não há sinais claros de que o relacionamento com os Estados Unidos será alterado. No entanto, a criação de uma narrativa que rivaliza os interesses norte-americanos com os do restante do mundo começa a sinalizar tensões à vista.

Na “era da informação”, da “modernidade líquida” ou da “pós-verdade”, como queiram chamar, fazer política tem a ver como criar um legado simbólico. Ter a capacidade de atração nunca foi tão vital.

Para saber mais sobre a pesquisa citada clique neste link.

Fernanda Magnotta é mestre em Relações Internacionais pela San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP), pós-graduada em Globalização e Cultura (FESP) e graduada em Relações Internacionais (FAAP). Atualmente é coordenadora do Curso de Relações Internacionais da FAAP.