O Índice Global de Inovação (GII, na sigla em inglês) de 2017, acaba de ser apresentado em Genebra pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi), com dados de 127 países, considerando 81 variáveis incluindo institucionalidade, capital humano e pesquisa, infraestrutura, desenvolvimento dos mercados, produção de conhecimentos e tecnologia e produção criativa, fatores que afetam a capacidade inovadora de suas economias.

O GII dedica a edição especialmente para a inovação no setor da agricultura. Trata-se de um tema fundamental, se consideramos o desafio demográfico - um aumento de mais de 2 bilhões de pessoas até 2050 - o que requer um aumento na produção de alimentos em escala global de pelo menos 70%, que ainda devem ser seguros, acessíveis, nutritivos e não causarem danos.

O relatório introduz, pela primeira vez, além do ranking e dados por países e economias, uma classificação com base em "clusters de atividades inovadoras" identificadas nos países ou grupos de países, tais como locais em que se concentra a invenção com todos os seus componentes. Foi elaborado com dados obtidos do sistema de Patent Cooperation Treaty (PCT), um acordo operado pela Ompi adotado em 1978 e que reúne 142 membros que representam 98% dos registros de patentes a nível regional e nacional no mundo, com 2,7 milhões de inventores.

Em termos de crescimento econômico, enquanto as previsões de crescimento global têm melhorado, já que para este ano é esperada uma cifra ao redor de 3,5% e 3,6 para 2018, essa recuperação não é garantida no médio prazo, devido a ameaças políticas, o ressurgimento de medidas mais protecionistas, além de questões de ordem estrutural vinculadas à mudança tecnológica a que muitas economias não conseguem se adaptar ainda, inclusive nos países desenvolvidos.

Para garantir o crescimento nesta era da "Quarta Revolução Industrial" e do surgimento de novos fatores de competitividade, a inovação é fundamental.

A este respeito, a conclusão a ser tirada do relatório é um tanto óbvia: há uma correlação direta entre inovação e o desenvolvimento económico, que se potencializam mutualmente. Quanto mais inovação, mais crescimento.

Do Top 25 do GII, 24 postos são representados por economias desenvolvidas. E um fato importante: a China, como uma economia de renda média, figura pela primeira vez neste grupo, em função do salto dado com as TICs e com inovação.

O exemplo chinês é claro: sendo uma economia que estava há 30 anos fora dessas classificações, a aplicação de políticas de pesquisa, educação superior, ciência e tecnologia, fomentando a inovação, têm dado resultados evidentes no crescimento.

No caso da América Latina, há alguns sinais interessantes em países como Chile, México, Brasil e Argentina, embora nossa região tenha a 46ª como a melhor colocação (Chile), com alguns países situados ao redor da 100ª colocação entre as 127 nações analisadas. Mas no ranking que apresenta os cem clusters, cabe notar que não existem países ou regiões latino-americanas na referida classificação.

Em relação à agricultura e alimentação, a maior parte do GII está dedicada a esse setor, apresentando trabalhos que abrangem desde os aspectos científico-tecnológicos até experiências concretas e uma visão panorâmica em certos países e regiões, entre elas a América Latina. Segundo o relatório, a agricultura e a produção de alimentos estão desafiando no médio e longo prazo por causa de três fatores principais: o crescimento demográfico, a diminuição de terras cultiváveis e a falta d'água. A isso se soma a mudança nos hábitos alimentares tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. Essa combinação de fatores deveria ser encarada a partir do ponto de vista da "agricultura digital", que o relatório define como a informatização da agricultura, chave para a inovação, como uma nova via de desenvolvimento da agricultura de precisão. Podemos definir cinco áreas de atuação: otimização dos recursos nas regiões agrícolas atualmente produtivas; intensificação da produção em áreas que têm bons recursos agrícolas básicos, mas produzem pouco (por exemplo, as regiões da África Ocidental e o Sudeste da Europa); expansão dos sistemas de produção locais e ambientais, como as fazendas urbanas, estufas e os sistemas de cultivo dentro de edificações; o melhoramento genético dos cultivos e dos animais, para uma menor ocorrência de doenças; e uma maior eficiência com menos perdas na cadeia de fornecimento de alimentos.

Para promover a inovação e otimizar a produção agrícola, deve ser considerado que tanto os investimentos como o preparo dos trabalhadores são elementos fundamentais, assim como ocorre na indústria manufatureira, só que na agricultura as soluções digitais são mais complexas e menos "escaláveis" [que não permitem um crescimento meteórico com um baixo investimento, como algumas empresas de tecnologia].

Segundo o GII, a penetração das tecnologias digitais de ponta está avançando rapidamente na indústria agrícola das economias desenvolvidas, e está tendo um impacto cada vez maior nos países em desenvolvimento. Características próprias da agricultura, como os recursos variáveis e com localização específica, problemas de conexão em áreas rurais, falhas na educação e pesquisa, falta de empresas de apoio e outros, fazem com que a agricultura digital requeira uma atenção especial das políticas públicas, já que é "uma via primária no caminho de um desenvolvimento sustentável do fornecimento de alimentos".