O Brasil tem passado por momentos turbulentos envolvendo grandes corporações, sendo que muitos de nós jamais esperávamos tais escândalos. Muitas destas empresas possuem capital aberto e, além das tradicionais auditorias de balanço para validação dos seus números e resultados, possuem acompanhamento de agentes reguladores.

A maioria possui também um conselho de administração que representa os interesses dos acionistas e uma direção executiva para colocar em prática os objetivos determinados pelo conselho. O crescimento dos negócios e a complexidade das atividades e dinâmica envolvidas torna necessário um acompanhamento muito próximo do conselho das atividades dos executivos.

Neste momento, podem surgir conflitos de interesses entre o que é proposto pelo conselho como objetivos a serem alcançados, as expectativas das partes interessadas - acionistas, fornecedores, clientes, sociedade - e os interesses dos executivos na busca de resultados, que em alguns casos podem trazer benefícios para eles mesmos, como melhores remunerações, bônus, etc.

Muitas vezes, o que os donos pretendem pode estar desalinhado com o que os executivos estão buscando e, consequentemente, geram turbulências e ações que não correspondem ao interesse principal da empresa.

Neste cenário, se faz necessário a utilização de mecanismos para que todos os envolvidos tenham suas expectativas atendidas, ou pelo menos entendidas e respeitadas, e aí surge a governança corporativa, que remete a monitoração, controle e transparência.

A governança corporativa busca criar mecanismos eficientes para que os anseios das partes interessadas estejam alinhados com algo maior que é a existência da empresa e seus próprios interesses. Claramente, muitos escândalos chegam a ser impressionantes, pois extrapolam qualquer tipo de preocupação com algumas das partes e visam a atender única e exclusivamente o interesse daquele que o executa. O que acontece então? 

Uma das possibilidades é que muitas vezes os interesses dos próprios conselheiros podem estar desalinhados com os interesses dos acionistas, seja de forma intencional ou não, e na hora de disseminar a governança para os executivos das organizações, o controle não é eficiente e interesses individuais se sobressaem.

Outra possibilidade é a imposição de metas agressivas aos executivos. Estes muitas vezes as recebem, ficam acuados e, na busca de soluções para alcançar os resultados, passam por cima de todos os princípios que foram apresentados no processo de governança.

Evidentemente, muitas possibilidades podem ser discutidas, mas essas duas mencionadas estão diretamente envolvidas no ambiente da governança na relação de suas lideranças.

Também é importante destacar a ética dentro de cada ambiente. Quando um conselheiro ou um executivo atua de forma não ética, a fim de atingir resultados que refletem apenas o que ele tem em mente, e encontra outros que pensam da mesma forma, se torna muito difícil a identificação de atividades que não estão alinhadas com o interesse geral da empresa. 

Como forma de atenuar, e até mesmo coibir essas atitudes, a governança corporativa é um aspecto indiscutivelmente importante, que pode, por meio de seus mecanismos, identificar e cortar na raiz erros ou fraudes que poderiam se tornar escândalos e atender aos anseios de apenas alguma das partes interessadas.

Uma boa governança corporativa traz grandes benefícios para as atividades das empresas, não somente com prevenção de atitudes indevidas, mas também atribuindo um ambiente favorável para investidores que pensam no longo prazo e que incluem seus recursos em companhias que tem um interesse maior do que apenas atender a um grupo de especuladores, em curto prazo. 

Com tudo isso, fica claro que quando um processo de governança em uma grande organização tem origem no mais alto nível e é disseminado ao restante da empresa, de forma clara e transparente, com objetivos alcançáveis e busca de resultados que atendam interesses de todas as partes, os resultados só poderiam ser positivos. 

Portanto, investir em governança corporativa não é somente buscar fazer o correto, é tentar antecipar erros intencionais ou não e fazer com que aquilo que se espera das grandes corporações, como honestidade, produtos e serviços dentro de normas e regulamentos, ética e segurança no que é oferecido, possam chegar aos clientes e a todas as outras partes interessadas com credibilidade e confiança. 

Associate Director da prática de Investigações e Riscos Globais da FTI Consulting