Tenho trabalhado com pesquisas durante toda a vida. Em época de eleições, já conheço a rotina: vou até o armário, visto minha armadura, pego meu escudo e minha espada e, como cavaleiro medieval, estou pronto para defender a lisura e honradez das pesquisas eleitorais e dos institutos. Tomo pancada de todo lado. Como um mantra, repito mil vezes as mesmas explicações:

* “Pesquisas erram muito os resultados da eleição” – Na verdade, as pesquisas acertam muito, mas em alguns casos podem mostrar resultados diferentes dos das urnas. Se apenas as pesquisas fossem suficientes, não haveria necessidade de gastar tanto dinheiro com as eleições. Prévias eleitorais mostram a situação em dado momento; as opiniões podem mudar, os indecisos podem decidir em certa direção, ao sabor dos acontecimentos, como o atentado a faca nas eleições deste ano. Melhor olhar tendências ao longo do tempo.

* “Moro aqui há 30 anos e nunca fui entrevistado” – Isso não significa que os pesquisadores o desprezem ou prefiram falar com outras pessoas. Pesquisas são baseadas em amostras. Se o instituto pesquisasse mil domicílios todos os dias da cidade de São Paulo, com seus 12 milhões de habitantes que moram em cerca de 4 milhões de domicílios, seriam necessários 4 mil dias para percorrer todas as moradias (se a amostra fosse sem repetição). Amostras probabilísticas de mil domicílios (por exemplo, estratificadas em vários níveis, baseadas em unidades censitárias, por área) proporcionam resultados com margem máxima de erro de ± 3,16% em intervalo de confiança de 95,5%. É razoável pensar que um habitante de São Paulo leve muitos anos para ter a chance de ser sorteado para uma pesquisa em que sejam feitas mil visitas efetivas por dia em amostra sem repetição. O porteiro deixa o pesquisador entrar em seu condomínio? Você pega ônibus para ir ao trabalho?

* “Pesquisas influenciam o eleitorado” – Sim, isso faz parte do jogo democrático, do mesmo modo que a mídia social, os debates na televisão, a propaganda gratuita, a conversa com amigos e a opinião da família também exercem influência. Baseado nas prévias, o eleitor pode decidir apoiar o candidato que aparece na frente ou aparece atrás.

* “São divulgadas pesquisas falsas” – Sim, temos que tomar cuidado na reprodução dessas notícias como de outras fakenews. Atenção para as fontes!

 

O autor é presidente da Demanda Pesquisa e Desenvolvimento de Marketing