Tudo bem que a política de preços diários da Petrobras com certeza é um erro. Todos sabemos que toda e qualquer empresa hoje em dia somente terá sucesso se preservar o equilíbrio socioeconômico-ambiental. Ter o governo federal como acionista majoritário e o monopólio no refino pode ter dado à gestão da Petrobras um sentimento de onipotência para menosprezar o consumidor de seus produtos.

Entendo a necessidade de a empresa se recuperar depois do vendaval político que a atingiu nos últimos anos, ocasionando um prejuízo nunca antes visto na história deste país. Mas o resultado dessa aceleração bateu de frente com um muro chamado consumidor, e o embate resultou no que sofremos com a interrupção de fornecimento de alimentos, combustíveis e remédios, entre outros. De início, a população apoiou integralmente o movimento dos caminhoneiros, apoio esse que foi se exaurindo quando o movimento passou para motivações políticas.

Entretanto alguns pontos não ficaram despercebidos pela população, tais como:

1 - Pode um país continuar a ficar dependente de uma só modalidade de transporte em pleno século 21?

2 - Pode um país continuar a ficar dependente de combustível fóssil? Aqui alguém pode argumentar: mas nós temos o etanol. Perfeito, mas para levar o etanol aos postos dependemos do diesel.

3 - Pode o Brasil continuar a ficar dependente de uma só empresa para ter sua fonte de combustível utilizada para toda a logística aplicada no país?

A resposta para o primeiro questionamento só pode ser uma: não! Um país não pode de forma alguma ficar dependente de uma modalidade de transporte. Precisamos imediatamente e realmente diversificar. E precisamos diversificar as novas modalidades que utilizem combustíveis não fósseis. Isso, sim, se trata de um projeto de segurança nacional, mas não contra inimigos externos, e sim para dar segurança ao povo brasileiro contra o corporativismo que está impregnado na sociedade.

Procurando responder à questão 2, primeiro devemos verificar o que está acontecendo no mundo hoje. Qualquer estudo energético digno de respeito direciona o combustível de carros e caminhões para duas vertentes: uma, a da eletricidade, que parece ser mais dominante. Hoje todas as montadoras estão desenvolvendo carros elétricos. Há também uma segunda vertente, mais concentrada em estratégia do governo do Japão, que leva seriamente em conta o hidrogênio como forma de combustível. Embora as pesquisas estejam avançando, ainda será necessário muito desenvolvimento para que a célula de hidrogênio possa ter a escala necessária para se transformar numa fonte de combustível mundial.

O Brasil possui o etanol de primeira geração concentrado na fonte da cana de açúcar. Entretanto, essa fonte tem se mostrado viável somente para automóveis e alguns utilitários. Mesmo com os atuais subsídios que o governo oferece ao setor, ainda fica nebulosa a situação futura do etanol frente ao uso da eletricidade. Como fonte mundial de combustível, ele não será eficiente. Apesar do forte lobby do setor do etanol contra a eletricidade, esta deverá prevalecer como fonte.

Por sinal, enquanto esta coluna está sendo escrita, o papa Francisco reúne-se no Vaticano com os CEOs das maiores empresas petrolíferas do mundo no sentido de sensibilizá-los a uma ação mais proativa na defesa da energia e de combustíveis não poluentes.

A resposta à pergunta 3 é a mais óbvia possível. Um país de 200 milhões de habitantes não pode ficar na dependência de apenas uma empresa responsável pelo refino de seu combustível mais usado.

Duas correntes foram identificadas. A primeira é que a Petrobras não deve ter interferência política na sua gestão. Até chega a estar certa essa visão, porém uma empresa só pode mesmo assegurar que não terá ingerência política se for privada e se o setor em que ela opera quase não tiver dependência do governo. A Petrobras não é privada, e o setor em que ela atua é altamente influenciado pelo governo. Aí fica mesmo difícil que a realidade seja diferente.

A segunda é a questão do monopólio da estatal em relação ao refino. Por lei, o mercado está aberto, mas na realidade ele ainda é monopólio da Petrobras. Isso tem que acabar – tanto o monopólio do refino quanto a Petrobras continuar a ser estatal. Politicamente falando, os populistas costumam dizer que a Petrobras é do povo. Nenhuma empresa estatal é do povo, mas sim dos políticos de plantão. Isso tem que acabar, e já.

Sabedor desses pontos, quais serão as ações que o povo brasileiro adotará depois da paralisação dos caminhoneiros?

Será que no dia 3 de outubro os brasileiros exigirão dos políticos que se tenha um plano de Estado, e não de governos, para a implantação de um plano logístico não dependente de uma só categoria, de um só combustível que seja fruto de uma só empresa e que seja não poluente?

Como costuma dizer Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia e fundador da Fundação R20 - Regions of Climate Action, os combustíveis fósseis matam milhões de pessoas por ano por conta da poluição que geram.

Está mais do que na hora de os brasileiros se libertarem das amarras corporativistas que literalmente paralisam o Brasil!