As primeiras semanas do governo Bolsonaro, no tocante à economia, foram bastante positivas. Ainda que não se tenha maiores detalhes em relação à reforma da Previdência, esse será o principal foco do governo nos primeiros meses.

As diretrizes da reforma seguirão o que já foi discutido durante o governo Temer, com aumento da idade mínima, unificação dos regimes de servidores públicos e trabalhadores do setor privado, além da mudança para regime de capitalização para novos trabalhadores, provavelmente para os nascidos a partir de 2010 ou 2014. Diante da sinalização de reformas e prioridades, a precificação de ativos brasileiros como bolsa de valores, taxa de câmbio e curva de juros passou a refletir grande otimismo por parte do mercado financeiro.

Acontece que, até agora, o governo falou praticamente sozinho. As dificuldades da reforma vão aparecer e acontecerão em duas etapas. A primeira é convencer o presidente Bolsonaro e o núcleo político da necessidade de uma reforma dura e abrangente. Essa primeira dificuldade é mais fácil de ser superada, apesar de o presidente ter, em algumas entrevistas, dito que quer uma reforma mais light que a apresentada por Temer, com idade mínima de 62 anos para homens e 57 para mulheres (a proposta de Temer tinha idade mínima de 65 para homens e de 62 para mulheres).

Nesse sentido, a equipe econômica sugeriu reduzir o tempo de transição do regime atual para o novo, para preservar o impacto financeiro da reforma. Fala-se numa reforma com impacto superior a R$ 1 trilhão nos próximos dez anos, acima dos R$ 800 bilhões daquela proposta por Temer. Assim, apesar de o presidente Bolsonaro ter dito que não quer fazer “maldade” com o povo, a equipe econômica precisa convencê-lo que a reforma da Previdência deve ser ao menos tão dura e abrangente como a proposta do governo anterior.

A segunda dificuldade será convencer o novo Congresso, formando maioria de três quintos, para aprovação da reforma tanto na Câmara dos Deputados como no Senado. Aqui sim teremos uma enorme dificuldade. A nova forma de governar, sem o loteamento de cargos e ministérios para os partidos da base, tornará a tarefa ainda mais difícil e complexa. Grande capacidade de articulação e convencimento serão fundamentais para não deixar que a proposta da equipe econômica seja desconfigurada pelos parlamentares.

Se o governo conseguir aprovar uma reforma parecida com a proposta pela equipe econômica, certamente teremos anos muito positivos pela frente, com uma recuperação econômica que vai acelerar. Se o projeto for desconfigurado e aprovarmos uma reforma com limitado efeito financeiro, nossos problemas fiscais seguirão nos atormentando e a recuperação econômica seguirá lenta. Por fim, se não aprovarmos reforma nenhuma, teremos uma nova crise econômica, com redução da atividade e aumento da inflação. Sorte à equipe econômica e ao governo nos desafios à frente.